Sonny Rollins nos deixou aos 95 anos. A notícia marca o fim definitivo de uma era. Como o título de seu álbum mais icônico profetizou, ele foi o verdadeiro Saxophone Colossus
Rollins era o último grande bastião da dinastia de Miles Davis e John Coltrane — a santíssima trindade que, nos anos 1950 e 1960, fincou o jazz no topo do panorama cultural ocidental, transformando músicos negros de meros “animadores da noite” em artistas de elite respeitados mundialmente. Com uma carreira de mais de seis décadas, ele combinou uma engenhosidade melódica sem limites a uma técnica fenomenal e um timbre encorpado, imponente e profundamente pessoal.
Ao contrário de Coltrane, Rollins nunca quis implodir as estruturas do jazz com harmonias modais ou formas estendidas. Sua genialidade brilhava no feijão com arroz: o bom e velho blues de 12 compassos e a estrutura de 32 compassos da canção popular americana. Sua assinatura era a audácia rítmica, organizando improvisos em frases complexas que pareciam parágrafos perfeitamente estruturados.
Das ruas do Harlem ao fundo do poço da heroína
Nascido Theodore Walter Rollins em 7 de setembro de 1930, em Nova York, o músico era filho de imigrantes das Ilhas Virgens. Seu pai era Suboficial Chefe (Chief Petty Officer) na Marinha dos EUA — o cargo mais alto que um afro-americano podia almejar na rígida segregação do período pré-guerra.
Fascinado pelo charme de astros do Rhythm and Blues como Louis Jordan, Sonny começou no saxofone por volta dos 10 anos, mas logo migrou para o jazz. Vivendo no distrito de Sugar Hill, no Harlem, o garoto respirava música. Duke Ellington morava no mesmo quarteirão e Coleman Hawkins morava exatamente na esquina.
Seus melhores amigos de infância eram Art Taylor, Jackie McLean e Kenny Drew. Enquanto a maioria dos jovens ouvia R&B, aquela vizinhança moldou uma geração inteira de prodígios do jazz.
Assim que terminou o ensino médio, para o desespero de seus pais, Sonny abraçou a boemia. Gravou profissionalmente pela primeira vez aos 18 anos com o cantor Babs Gonzales, seguido por sessões com Bud Powell e Fats Navarro, integrando rapidamente o círculo íntimo de Charlie Parker.
Foi nesse ambiente que Rollins conheceu a heroína. Para bancar o vício, ele se envolveu em uma tentativa de assalto. Foi pego e passou 10 meses na prisão. Pouco tempo após ser libertado, violou a condicional e pegou mais 3 meses de xadrez — tudo isso antes de completar 22 anos. Sua reputação ficou tão manchada que o baterista Max Roach alertava os jovens que chegavam à Nova York: “Fiquem longe de Charlie Parker e Sonny Rollins”.
O Recado de “Bird” e a Disciplina Espartana
Mesmo na turbulência, Rollins era disputado por gênios como Thelonious Monk, Miles Davis e Art Blakey. O próprio Charlie Parker implorava para que o jovem se tratasse. Sonny acabou internado no centro federal de reabilitação em Lexington, no Kentucky. Ele ainda estava lá em março de 1955 quando Parker faleceu.
“Nunca tive a chance de dizer a ele que finalmente entendi o recado. Mas foi ali. Fiquei forte e nunca mais toquei em heroína.”
O ex-viciado chocou o meio musical ao se transformar em um símbolo de força de vontade. Adotou rotinas rígidas de exercícios, dietas saudáveis, meditação e uma rotina de ensaios insana de até 8 horas diárias. Desse processo nasceu o som robusto e direto que ditou as regras do sax tenor a partir de meados dos anos 50.
Em dezembro de 1955, ele se juntou ao lendário Quinteto de Max Roach e Clifford Brown, permanecendo até a trágica morte de Brown em um acidente de carro em junho de 1956. Paralelamente, gravou sob o próprio nome o clássico Saxophone Colossus, que o alçou ao estrelato mundial. Seus arranjos favoritos eram minimalistas: sax acompanhado apenas por piano, baixo e bateria.
O “Efeito Bicicleta” e os Sabáticos Lendários
A genialidade de Rollins era tão instintiva que a teoria às vezes o atrapalhava. Quando o musicólogo Gunther Schuller publicou uma análise dissecando minuciosamente os motivos complexos da faixa “Blue Seven”, Rollins ficou traumatizado.
“É como andar de bicicleta. Se você parar para pensar no que está fazendo, você cai.”
Por conta disso, passou o resto da vida sem ler críticas e detestava ouvir seus próprios discos. “É torturante! Fico me perguntando por que fiz aquilo e pensando em tudo o que poderia ter feito diferente”, confessava.
Os críticos também se batiam com seu repertório. Além de calipsos que homenageavam suas raízes caribenhas, ele gravava canções improváveis da cultura pop e de faroestes, como Toot, Toot Tootsie (Goo’ Bye) e I’m an Old Cowhand (From the Rio Grande). Não era ironia; ele simplesmente amava as músicas que ouvia no rádio e no cinema quando criança.
Os Períodos de Retiro
- O Retiro da Ponte (1959–1961): No auge da fama, parou de fazer shows para estudar. Ele passava as noites ensaiando na passarela de pedestres da Ponte de Williamsburg, entre Manhattan e Brooklyn. Adorava a acústica do local e o fato de não incomodar ninguém. Voltou à cena com o aclamado disco The Bridge, ao lado do guitarrista Jim Hall.
- A Busca Espiritual (1969–1972): Retirou-se novamente por três anos para viajar pela Índia e Japão. Ele admitia sofrer com sentimentos de inadequação por seu “mau começo” de vida e por ter desperdiçado a chance de estudar, enquanto seus irmãos eram acadêmicos bem-sucedidos e ele, o caçula mimado.
Do Renascimento à Evacuação no 11 de Setembro
O retorno em 1972 deu início a uma parceria duradoura com o selo Milestone, rendendo obras-primas como The Cutting Edge (1974), Sunny Days, Starry Nights (1984) e Sonny Rollins + 3 (1995). Nem tudo foi perfeito: suas tentativas de flertar com a moda do jazz fusion foram duramente criticadas.
Foi justamente nessa fase de transição e abertura estética que Rollins sacramentou uma das pontes mais inusitadas e brilhantes entre o jazz e o rock: sua colaboração com os Rolling Stones. Em 1981, a convite de Mick Jagger — e após muita insistência de sua esposa Lucille —, o gigante do jazz aceitou entrar em estúdio para gravar no álbum Tattoo You. O resultado foram intervenções cirúrgicas e inesquecíveis, com destaque absoluto para o solo melancólico, fluido e profundamente caloroso no final de “Waiting on a Friend” (além de participações marcantes em “Slave” e “Neighbours”). Embora inicialmente temeroso de que a parceria arranhasse sua reputação de purista, Rollins destilou seu timbre colossal nas faixas, transformando o rock dos Stones em alta literatura musical.
O verdadeiro trunfo de sua maturidade eram as apresentações ao vivo. Ele entregava improvisos tão longos e viscerais que deixavam as plateias exaustas e em êxtase. Com o avanço da idade, teve que limitar os shows para poupar energia.
Quando não estava viajando pela Europa ou Japão, Rollins vivia isolado em sua propriedade de 10 acres em Germantown, interior de Nova York, cercado por cães Pastores Alemães e na companhia de Lucille Pearson, sua segunda esposa e empresária (com quem se casou em 1965 e que faleceu em 2004; seu primeiro casamento, na juventude, foi com Dawn Finney e durou pouco. Rollins não teve filhos).
Ele também mantinha um apartamento em Manhattan, perto do World Trade Center. Em 11 de setembro de 2001, Rollins estava lá sozinho. Imagens de arquivo daquele dia histórico registraram o músico de mais de 70 anos caminhando em meio à fumaça e aos sobreviventes, evacuado do prédio com firmeza, carregando apenas a mala de seu inseparável saxofone.
O Silêncio do Mestre
Sonny continuou nos palcos até 2017, quando foi diagnosticado com fibrose pulmonar, o que o forçou a parar de soprar o instrumento. Ele passou seus últimos anos em Germantown, descrevendo sua rotina como “reflexiva”. Antes de partir, doou todo o seu acervo pessoal para o Schomburg Center for Research in Black Culture.
Ao saber, nos últimos anos, de uma campanha para rebatizar a Ponte de Williamsburg em sua homenagem, o velho mestre apenas riu com ironia: achava divertido pensar que o esconderijo onde ele se isolava para tocar sem ser notado receberia, um dia, o seu nome para a eternidade.












