Contos Paralelos
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Festival do Rio 2026 – “Contos Paralelos” e a Fronteira Difusa Entre Fato e Ficção

Asghar Farhadi constrói elaborado meta-drama parisiense inspirado em Kieślowski e Hitchcock, que se destaca pelas atuações, mas tropeça em sua própria ambição no ato final

O cineasta iraniano Asghar Farhadi sempre ostentou em sua filmografia uma sofisticação formal herdeira do cinema europeu moderno, alinhando-se aos dilemas morais de Michael Haneke e ao rigor de Michelangelo Antonioni. Em Contos Paralelos, seu retorno à França e ao idioma francês após O Passado (2013), o diretor elabora um envolvente e detalhado meta-drama sobre traição, voyeurismo e o ato da criação artística. Inspirando-se abertamente na arquitetura existencialista de Krzysztof Kieślowski — em especial no clássico Não Amarás (A Short Film About Love) — e cruzando-a com a tensão observacional de Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, Farhadi tece uma teia narrativa que desafia constantemente os limites entre a realidade factual e a fantasia literária.

No centro dessa engrenagem está Sylvie, interpretada por Isabelle Huppert. Ranzinza, amargurada e vivendo em um apartamento tomado pelo caos no coração de Paris, a escritora passa os dias datilografando em uma antiga máquina elétrica Olivetti romances que já ninguém parece interessado em publicar. Embora esteja há anos interpretando variações de si mesma nos cinemas — aquela persona austera, intelectualmente cáustica e levemente neurótica —, Huppert, ainda assim, se sobressai de maneira magnética. Ela domina o espaço cênico com uma presença precisa, conferindo urgência e vivacidade a uma protagonista que recusa a modernidade dos computadores e prefere encontrar inspiração espionando os vizinhos da frente com uma luneta.

Contos Paralelos cena

Através das lentes de seu equipamento, Sylvie passa a monitorar Nicolas (Vincent Cassel), que administra um estúdio de foley e efeitos sonoros ao lado de Nita (Virginie Efira) e Théo (Pierre Niney). A escolha profissional do trio é um dos acertos do roteiro: enquanto os três artesãos do som fabricam ruídos artificiais para filmes — o roçar de folhas, passos na madeira, portas rangendo —, eles constroem uma ilusão auditiva da própria realidade. Fascinada por essa dinâmica e assombrada por memórias de seu passado familiar, Sylvie cria para o trio uma intrincada história sobre adultério, desejos proibidos e assassinato. A metalinguagem ganha contornos irônicos em uma rápida e elegante aparição de Catherine Deneuve como a agente literária que desdenha do texto, comparando-o a um romance policial genérico.

A trama rocambolesca ganha tração quando a sobrinha de Sylvie (India Hair) contrata Adam (Adam Bessa), um ex-detento em busca de recomeço, para limpar o apartamento. Ao encontrar o manuscrito secreto, o rapaz desenvolve uma obsessão perigosa pela história e decide apresentar o texto a Nita. A partir desse gesto, a ficção contamina a vida real de forma irreversível, forçando os envolvidos a agirem de acordo com o enredo imaginado por Sylvie.

Contos Paralelos cena

Farhadi conduz essa premissa com habilidade ao longo dos dois primeiros atos, estabelecendo uma lógica interna muito própria e coesa. Contudo, ao se aproximar da virada para o terço final, o filme começa a se perder em sua própria ambição. Com uma duração inflada de duas horas e vinte minutos, a narrativa hesita entre manter o ritmo de um thriller psicológico ou se aprofundar em digressões filosóficas sobre a criação. Ao tentar abraçar camadas analíticas demais, a tensão se dilui, fazendo com que o clímax perca parte do seu impacto.

Ainda que tropece no excesso de pretensão em seu desfecho, Contos Paralelos permanece como um exercício instigante sobre o poder da fabulação. A metáfora da sonoplastia — a arte de inventar sons falsos para produzir uma verdade cinematográfica — espelha com firmeza a própria essência da arte. Sustentado por um elenco afinado, o longa entrega uma reflexão provocativa sobre como a ficção pode ser o único remédio capaz de resgatar o sentido de nossas vidas.

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