O luto é, por si só, um abismo intransponível. Mas o que acontece quando a tragédia que consome uma mãe carrega consigo o peso intransferível de uma culpa coletiva? É sobre essa fratura exposta que se debruça Vicentina Pede Desculpas, um drama nacional contundente que transforma as ruas de Belo Horizonte e Contagem no palco de uma dolorosa jornada de reparação, vergonha e sobrevivência emocional.
A premissa evoca um horror cotidiano: em uma manhã aparentemente comum na capital mineira, o motorista de ônibus Wesley (vivido por Renato Novaes) perde o controle do veículo ao cruzar um viaduto, fazendo o coletivo despencar para a pista inferior. O desastre resulta na morte de quase todos os passageiros e do próprio condutor. Contudo, o que inicialmente se desenha como uma fatalidade mecânica ganha contornos estarrecedores à medida que a investigação policial avança, revelando evidências irrefutáveis de que o acidente foi, na verdade, uma tentativa deliberada e sucedida de suicídio.

É nesse cenário de terra arrasada que emerge a figura de Vicentina (Rejane Faria). Ao ver o nome do filho estampado nas manchetes como o artífice de uma carnificina involuntária de inocentes, a mãe se vê mergulhada em um redemoinho de desolação e estigma social. Em vez de se acovardar diante da rejeição pública, Vicentina toma uma decisão drástica e corajosa: rastrear e visitar, uma a uma, as famílias das vítimas para pedir perdão – uma tentativa desesperada de oferecer algum sopro de justiça aos enlutados e, quem sabe, encontrar um meio de seguir vivendo.
O roteiro, assinado pelo diretor do longa, Gabriel Martins (Marte Um), navega com imensa sensibilidade por um terreno espinhoso, recusando maniqueísmos ou saídas redentoras fáceis. Ao transformar o ato de pedir desculpas em uma via-crúcis particular, a obra expõe a complexidade das relações humanas diante do trauma absoluto.

A entrega magnética de Rejane Faria em cena é o principal alicerce da obra. A atriz, que já havia trabalhado com Gabriel em Marte Um, transmite em cada quadro o peso que carrega tanto do luto quanto da culpa que acredita possuir, além da plena consciência de que seu gesto irá, de alguma forma, redimir seu filho. Se a vivência do luto é algo deveras particular (e cada um sabe como enfrentá-lo e buscar conforto para abrandar o fardo), Vicentina encontrou sua maneira de lidar com a perda dilacerante, enfrentando seus problemas de mobilidade durante os deslocamentos como um verdadeiro teste de resistência.
Essa composição comovente feita por Rejane, da postura aos olhares, confere uma veracidade que torna impossível que o espectador não se compadeça durante as (necessárias) duas horas e vinte e oito minutos. Ela encontra suporte e abrigo na companheira Joana (Maíra Azevedo emanando magnanimidade), que funciona em muitos momentos como o Grilo Falante de Vicentina. Outra figura essencial na construção do drama é o misterioso amigo de Wesley, Fred (Giovanni Venturini), vocalista de uma banda de metal, que pode ser a caixa-preta do acidente.

O cineasta Gabriel Martins consolida aqui sua maturidade como realizador. Comandando uma câmera fluida, explora cada detalhe da ambientação, que fornece os elementos necessários – por vezes sutis – de compreensão do drama. A direção de atores é exitosa, permitindo que todos, inclusive as participações menores, tenham seu momento de destaque, ainda que sem recorrer a grandes rompantes interpretativos. A fotografia assinada por Leonardo Feliciano (outro colaborador de Marte Um) é certeira e eficaz em envolver o espectador no âmago narrativo.
Vicentina Pede Desculpas pode causar certa frustração em parte do público ao deixar alguns pontos em aberto. Contudo, o título consolida-se como um estudo profundo sobre empatia, o peso dos laços familiares em frangalhos e a quase impossível tarefa de cicatrizar feridas que nunca fecham de verdade.












