Com um Matt Damon impecável e um visual que resgata a densidade da película, a adaptação do clássico de Homero traz o melhor e o pior dos vícios do diretor
Quando Christopher Nolan anunciou que seu próximo filme, seguinte a Oppenheimer, seria nada menos do que A Odisseia de Homero, todos já sabiam o que esperar: megalomania, inovação na técnica cinematográfica e um elenco estelar. A única coisa que parece não ter se cumprido foi a inovação. Nolan filmou o longa inteiro com câmeras do velho formato IMAX de 70 milímetros, com edição (literalmente) artesanal. Tudo isso para obter uma imersão com profundidade e tonalidades que as câmeras digitais não permitem.
Para compreendermos a escala das decisões criativas do diretor nesta obra, é fundamental dar um passo atrás e resgatar a essência do material que serve de alicerce para o longa. A Odisseia, um dos pilares fundadores da literatura ocidental atribuído a Homero, deixa de ser apenas um mito escolar distante para ganhar sob as lentes do diretor uma roupagem de realismo psicológico cru. Aqui, acompanhamos o tortuoso retorno de Odisseu (vivido por um obstinado Matt Damon), um brilhante líder militar que, após sobreviver aos dez anos de horror na Guerra de Troia graças à sua astúcia, comete o erro de desafiar os deuses e acaba condenado a vagar por mais uma década em um oceano impiedoso e hostil.

É nesse calvário marítimo que Nolan traduz o fantástico em tensão cinematográfica pura, transformando os encontros lendários com o Ciclope Polifemo, o canto hipnótico das sereias e os feitiços da deusa Circe (Samantha Morton) em provações físicas e mentais extremas. Enquanto o herói de Damon luta contra a própria sanidade no mar, a narrativa se equilibra perfeitamente com a agonia silenciosa de Ítaca, onde sua esposa Penélope (interpretada com enorme força por Anne Hathaway) resiste à violenta invasão de sua casa por pretendentes oportunistas. É essa estrutura paralela que dá ao filme o seu verdadeiro peso dramático, ancorando a escala monumental do épico na mais pura e desesperadora necessidade humana de voltar para casa.

Amparado por uma cirúrgica fotografia de Hoyte van Hoytema (colaborador desde Interestelar) e a intrigante trilha sonora de Ludwig Göransson (sempre soberbo), Nolan se vale de cada plano ambicioso, mostrando que não havia uma escala distinta da escolhida para se contar a história. À sua maneira, ele trouxe de volta o gênero “espada e sandália”, como fizera Ridley Scott em Gladiador. De fato, é um filme que clama pela maior tela possível para se ter algo próximo do que foi a visão do cineasta — o ideal seria conferir o longa em uma sala IMAX que projeta película, mas existem apenas 41 no mundo inteiro, sendo que 25 estão nos EUA. Mesmo em uma sala de projeção digital, é uma experiência que se destaca facilmente das tonalidades pastéis e acinzentadas da maioria das produções atuais. Os granulados estão ali, e a densidade do preto e das cores salta aos olhos.

Como também é de costume do cineasta, a escalação do elenco é estelar. Cai sobre os ombros de Matt Damon o protagonista Odisseu, que ele defende com imponência na mesma proporção de sua humanidade. Damon proporciona uma atuação com diversas camadas, e sua verve fabular não desbota. Robert Pattinson se encontra em estado de graça no papel de Antínoo, com uma performance teatral perfeitamente alinhada à proposta dessa adaptação da obra. Assim como na maioria dos longas de Nolan, as mulheres são a parte com construção mais frágil. A Penélope de Anne Hathaway tem bons momentos (sobretudo no final), mas sua relevância é amortecida. A polêmica Helena de Lupita Nyong’o tem poucas falas, e a Atena de Zendaya também peca pela falta de força narrativa.

A Odisseia tem roteiro escrito pelo próprio Nolan, que se alonga um pouco em alguns momentos que poderiam ser abreviados. A obsesão pelo espetáculo suntuoso é um trunfo, mas também cobra seu preço. Nolan é um cineasta acostumado a arriscar e tem como norma pecar pelo excesso, nunca pela falta. Os amantes se deleitam; os detratores, em segredo, também.









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