Em 1º de junho de 1967, seis dias depois do Reino Unido, chegava ao mercado mundial o álbum “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles. O disco representa o ápice da guinada artística do quarteto de Liverpool iniciada em “Rubber Soul” dois anos antes. “Sgt Pepper’s”, a princípio, causou estranheza entre os fãs com tanto experimentalismo e sofisticação sonora, que já apareciam nos dois álbuns anteriores, ainda de maneira mais sutil. Hoje, o disco é considerado a mais importante obra da História da indústria fonográfica, além de, claro, o melhor disco dos Beatles. Mas como se deu a concepção desse trabalho que completa 50 anos sob todas as (merecidas) láureas?

O conceito

Em 1966 os Beatles terminaram. Não como banda, claro, isso ocorreria apenas quatro anos mais tarde. Mas aqueles quatro rapazes tocando ao vivo chacoalhando as cabeças diante de um público de fãs histéricas (eles diziam que mal conseguiam ouvir seus instrumentos) saíam de cena, frustrando muito os adoradores, e iniciavam uma nova fase. Eles parariam de lançar agrupamentos de singles e passariam a conceber álbuns. Na acepção mais completa da palavra. Seus discos a partir dali teriam uma coesão entre as faixas. “Nós passamos mais tempo no estúdio agora, porque nós preferimos gravar” disse George Harrison em 1966, numa declaração entusiasmadamente compartilhada pelos outros três. “Nós todos concordamos que talvez se concentrar em gravações poderia trazer algo novo para nós” afirmou Paul McCartney em 29 de agosto de 1966.

À medida que o trabalho de estúdio progredia, a banda ficava mais afiada e mais criativa. E mais impulsionada a gravar e criar. Conforme a coisa ia progredindo, estava ficando mais experimental. “Estávamos começando a passar mais tempo lá, e as músicas estavam ficando melhores e mais interessantes. Em vez de sermos puxados para fora do estúdio para cair na estrada, agora poderíamos passar algum tempo lá e relaxar” disse Ringo Starr em um trecho do livro Anthology. Depois de lançarem as pérolas “Rubber Soul” e “Revolver”, em 24 de novembro de 1966 os fab four iniciaram as sessões do que viria a ser Sgt Pepper’s no lendário estúdio da EMI em Abbey Road sob a batuta do maestro George Martin. Segundo John Lennon, a viagem de Paul à Califórnia foi determinante para o conceito do álbum. Ali, as bandas não eram mais “os algo”, eram nomes longos como Jefferson Airplane, Buffalo Springfield, e parece que Paul quis fazer uma brincadeira com isso. A ideia era que eles deixassem de ser os Beatles, os próprios diziam estar fartos de serem os Beatles. Adotariam então um pseudônimo.

O nome teria aparecido em uma viagem de Paul com o roadie Mal Evans, de Nairobi a Londres em novembro de 1966. Mal teria perguntando o que o “S” e o “P” representavam nos potes em suas bandejas de refeição. Quando Paul os identificou como “sal” e “pimenta” (salt and pepper em inglês), isso deu o estalo que acabou levando a “St. Pepper”. Teve início aí o brainstorming de Paul. O álbum tem várias influências, mas uma é sem dúvida decisiva. Paul estava encantado com Pet Sounds, dos Beach Boys. E o curioso é que Brian Wilson, que concebeu o álbum praticamente sozinho, criou a obra para superar “Rubber Soul”. A disputa entre Beatles e Rolling Stones estava mais entre os fãs. Os rivais dos rapazes de Liverpool sempre foram os garotos da praia da Califórnia. E com o conceito de não ser um disco de Beatles e sim da bandinha do clube dos corações solitários do Sargento Pimenta deu mais liberdade para que fizessem algo diferente.

Em estúdio

As sessões totalizaram um total de 700 horas. Para efeito de comparação, as sessões do álbum de estreia, “Please Please Me”, levou 9 horas e 45 minutos. Foi o disco em que Paul assumiu a dianteira das gravações. Das treze faixas, John teve participação em seis, das quais três ele teve autoria isolada: ‘Good Morning Good Morning’, ‘Being for the Benefit of Mr Kite’ e ‘Lucy in the Sky With Diamonds’. George pouco se envolveu. Ele admitiu que pensava estar gravando um álbum regular e não uma banda fictícia. Segundo ele, não havia uma dinâmica típica de banda como nos álbuns anteriores, na qual as gravações consistiam em aprender as músicas e daí tocá-las. No caso de Sgt Pepper’s, boa parte do tempo era Paul ao piano e Ringo fazendo a marcação. “Eu tinha acabado de voltar da Índia, e meu coração ainda estava lá … As viagens à Índia realmente me abriram … Eu tinha me desprendido dos confins do grupo, e foi difícil para mim voltar para as sessões” declarou.

Ao contrário do que se pensa, as gravações não aconteceram à base de drogas. Embora Paul, em seu livro Vida, tenha dito que o disco foi todo influenciado pela maconha, durante as sessões não houve consumo de drogas como alucinógenos. “Eu nunca levei (LSD) para o estúdio” disse ele. Até houve incidente com drogas protagonizado por John, mas foi por engano. Ele tomara uma pílula de ácido achando que fosse comprimido. E ficou viajando no terraço do estúdio sozinho enquanto Paul e George adiantavam o trabalho.

As faixas

“Sgt Pepper’s” trouxe algo que influenciou os progressivos e o art rock, que era as músicas em sequência praticamente sem intervalo. O disco abre com um som reproduzindo o de um teatro momentos antes de uma apresentação iniciar. A faixa título, que inicia os trabalhos, é uma perfeita simetria entre rock e música sinfônica, o que pode-se ouvir no refrão com quatro notas de sopro marcando a primeira parte. A faixa se emenda em ‘With a Little Help From My Friends’ uma fanfarra com Ringo Starr nos vocais.

‘Lucy in the Sky’ é a que começa a mostrar a verve psicodélica do álbum propriamente dita. sempre teve suas iniciais associadas a uma alusão ao LSD. A versão oficial é que a inspiração da música foi um desenho que o filho de John, Julian, fizera de sua amiguinha de escola chamada Lucy. Ele ficou impressionado com o nome que o menino deu à ilustração e transformou em música. ‘Getting Better’ é uma típica composição de Paul: melodia fácil, letra em primeira pessoa alternando escuridão com otimismo, além de leve adição de experimentos. A contribuição de John Lennon foi a adição do verso “it can’t get much worse” (não pode ficar muito pior) no refrão “getting better all the time”, com seu característico niilismo.

‘Fixing a Hole’ é uma música que, segundo Paul, é sobre maconha e foi composta sobre seu efeito. ‘She’s Leaving Home’ foi inspirada no caso de uma garota de cfamília abastada que fugiu de casa em fevereiro de 1967 na Inglaterra. É uma verdadeira aula de arranjo. Já ‘Being for the Benefit of Mr Kite’ é um encontro entre o music hall britânico e o psicodélico com direito a um verdadeiro caleidoscópio sonoro. O lado B abre com a influência indiana de George em ‘Within You Without You’. A faixa apresenta um belíssimo e marcante trabalho de cítara, em que George parece ter apurado ainda mais a técnica já vista em ‘Norwegian Wood’. ‘When I’m Sixty Four’ é uma música que Paul compôs quando era adolescente e foi a primeira faixa a ser gravada para o álbum. Mal sabia ele que hoje aos 75 ele estaria longe da figura senil vislumbrada por ele para si nessa canção.

A seguinte, ‘Lovey Rita’, outra de autoria de Paul, retorna ao tom das duas primeiras faixas que se segue em ‘Good Mornig Good Morning’. Essa faixa deixa clara a influência de “Pet Sounds”: assim como no disco dos Beach Boys aqui também se ouve sons de animais. Porém, foi colocado de forma que os menores fossem dando lugar aos maiores. ‘Sgt Pepper’s Lonely Heart’s Blub Band (Reprise)’ é a despedida da banda do show imaginário. ‘A Day in the Life’ seria um bis. Na verdade a faixa está mais para uma espécie de Coda. No final, uma nota de piano é tocada e se o volume for colocado no máximo podemos ouvir essa nota até o final. O efeito foi conseguido com a nota tocada em três pianos simultaneamente por Paul John e Ringo e triplicado por overdub. E ao final, John ainda inseriu um apito que só pode ser ouvido por cães.

Paul a princípio queria 90 músicos para a gravação, mas George Martin o convenceu de que 40 eram o suficiente. E posteriormente a gravação foi quadruplicada por overdub. Três músicas gravadas nas sessões ficaram de fora: ‘Strawberry Fields Forever’, ‘Penny Lane’ e ‘It’s Only a Northern Song’. A última só foi lançada na trilha de ‘Yellow Submarine’. A sequência do lado b foi um pouco diferente. A princípio seria: ‘Sgt Pepper’s’, ‘With a Little Help’, depois ‘Mr Kite’, ‘Fixing a Hole’, ‘Lucy in the Sky’, ‘Getting Better’ e ‘She’s Leaving Home’ fecharia a primeira parte.

A capa

A icônica capa foi concebida por Peter Blake. Segundo o artista, os Beatles já tinham o conceito primário e coube a ele apenas desenvolvê-lo. A ideia era ter a banda do Sgto Pimenta como se tivesse acabado de se apresentar em um cenário como um parque. Da sugestão de inserir uma plateia ao fundo que surgiu a montagem de figuras célebres. Eles sugeriram incluir Ghandi, Jesus Cristo e Hitler. Mas isso foi pouco tempo depois da polêmica declaração de serem mais populares do que Jesus, então acharam melhor não alimentar mais fogo. A lista sugerida por George trazia somente gurus. Já para Ringo, o que os outros escolhessem estava bom.

Na sessão de fotos foram usadas gravuras em tamanho natural coladas em compensados. A EMI ficou preocupada, pois, como muitos ainda estavam vivos, poderia haver processo. Para evitar qualquer infortúnio, Brian Epstein, empresário da banda, fez seu assistente escrever para cada um. E recebeu a seguinte resposta de Mae West: “Não, eu não estarei nisso. Por que eu estaria fazendo em um clube dos corações solitários?”Mas que os Beatles lhe escreveram uma carta de próprio punho, ela mudou de ideia e liberou. Para se obter o efeito de camadas, Blake colocou a última fileira encostada na parede e daí para frente uma diferença de aproximadamente 15 centímetros entre uma fila e outra entre os objetos de cena (como a palmeira e os bustos).

Blake também quis colocar as figuras de cera do quarteto, pois achava que os Beatles deveriam estar ali olhando a banda fictícia. As sessões de fotos ocorreram no início da noite do dia 30 de março de 1967 no Chelsea Manor Studios. Blake só ganhou 200 libras pelo trabalho. Seu gerente de galeria Robert Fraser recebeu 1.500. “Fraser se encarregou dos direitos autorais, mas eu nunca me importei muito, pois foi uma coisa maravilhosa de ter feito”, disse Blake. Ao longo desses anos foram várias as referências e sátiras à capa de “Sgt Pepper’s” na cultura pop. Veja abaixo em detalhes todas as figuras de cena.

FILEIRA DO FUNDO:

Sri Yukteswar Giri (guru indiano)
Aleister Crowley (ocultista)
Mae West (atriz)
Lenny Bruce (comediante)
Karlheinz Stockhausen (compositor)
W. C. Fields (comediante/ator)
Carl Jung (psicanalista)
Edgar Allan Poe (ecritor)

Fred Astaire (ator/dançarino)
Richard Merkin (artista)
The Vargas Girl (do artista Alberto Vargas)
Huntz Hall (ator)
Simon Rodia (designer e construtor da Watts Towers)
Bob Dylan (cantor/compositor)

SEGUNDA FILEIRA:

Aubrey Beardsley (ilustrador)
Sir Robert Peel (Primeiro Ministro britânico do século XIX)
Aldous Huxley (escritor)
Dylan Thomas (poeta)
Terry Southern (ecritor)
Dion DiMucci (cantor/compositor)
Tony Curtis (ator)
Wallace Berman (artista)
Tommy Handley (comediante)

Marilyn Monroe (atriz)
William S. Burroughs (escritor)
Sri Mahavatar Babaji (guru indiano)
Stan Laurel (ator/comediante)
Richard Lindner (artista)
Oliver Hardy (ator/comediante)
Karl Marx (filósofo político)
H. G. Wells (ecritor)
Sri Paramahansa Yogananda (guru indiano)
James Joyce (poeta e escritor irlandês) – pouco visível logo abaixo de Bob Dylan
Anonymous (manequim de cera)

TERCEIRA FILEIRA:

Stuart Sutcliffe (artista/ex-Beatle)
Anonymous (manequim de cera)
Max Miller (comediante)
A “Petty Girl” (do artista George Petty)
Marlon Brando (ator)
Tom Mix (ator)
Oscar Wilde (escritor)
Tyrone Power (ator)
Larry Bell (artista)
David Livingstone (missionário/explorador)

Johnny Weissmuller (nadador olímpico/ator de Tarzan)
Stephen Crane (escritor) – pouco visível entre a cabeça e o braço erguido de Issy Bonn’s
Issy Bonn (comediante)
George Bernard Shaw (dramaturgo)
H. C. Westermann (escultor)
Albert Stubbins (futebolista inglês)
Sri Lahiri Mahasaya (guru)
Lewis Carroll (ecritor – autor de Alice no País das Maravilhas)
T. E. Lawrence (“Lawrence da Arábia”)

PRIMEIRA FILEIRA:

Figura de cera de Sonny Liston (boxer)
A “Petty Girl” (de George Petty)
Figura de cera de George Harrison
Figura de cera de John Lennon
Shirley Temple (atriz mirim) – pouco visível atrás das figuras de cera de John e Ringo
Figura de cera de Ringo Starr
Figura de cera de Paul McCartney
Albert Einstein (físico) – bastante escondido
Figura oriental
Figura de branca de Neve

John Lennon segurando uma corneta
Ringo Starr segurando um trompete
Paul McCartney segurando um cor anglais
George Harrison segurando um piccolo
Bette Davis (atriz) – cabelo pouco visível acima do ombro de George’s
Bobby Breen (cantor)
Marlene Dietrich (atriz/cantora)
Shirley Temple (atriz mirim) – segunda aparição na capa
Boneca de Shirley Temple com camiseta escrita Wellcome The Rolling Stones
Legionário americano[2]
Figura de cera de Diana Dors (atriz)

Um marco na história da indústria fonográfica

“Sgt Pepper’s” foi considerado o primeiro disco conceitual. Apesar de não contar uma história, seu conceito pode ser explicado pela coesão e pela coerência da concepção. O disco foi lançado às vésperas do chamado “verão do amor” – que deflagrou o movimento hippie – e redefiniu toda a ideia de rock que se tinha até então. Depois de ‘Sgt Pepper’s’, ficou decretado que não era possível transcender, e muito, ao trinômio guitarra, baixo e bateria. O rock podia sim ser mais do que isso. E todos parecem ter captado a mensagem. Várias bandas mergulharam no psicodélico e em discos conceituais, inclusive os Rolling Stones, com “Their Satanic Majesties Request”, acusado de plágio de ‘Sgt Pepper’s’ até na capa. Quanto à disputa com os Beach Boys, Brian Wilson admitiu que perdeu a batalha. Inclusive uma das coisas que o fizeram fazer o retiro na própria cama foi ter ouvido ‘Strawberry Fields’ e se convencido de que os Beatles eram melhores. Como sempre acontece com datas redondas na música, o álbum está ganhando um relançamento de luxo. É sempre uma boa oportunidade revisitar esse disco que, por mais que possa ter algumas opiniões contrárias em relação a seu status de obra-prima, é de inegável importância para a música contemporânea.