Eu devo começar esse artigo falando que sempre fui fã do Aranha, suas histórias eram boas, divertidas, tinham o clima menos pesado e me faziam ver os quadrinhos, mais do que qualquer outro personagem, como uma forma de diversão despreocupado, mas sempre com aquela conotação séria, mostrando, mais do que qualquer outro, que um herói também tem responsabilidades. Isso foi antes, quase 20 anos atrás. Hoje, o herói morreu para mim.
Não quero ser alarmista, mas simplesmente está havendo uma seqüência de péssimas histórias envolvendo o herói que eu temo pelo futuro. Mas isso, se ponderarmos cuidadosamente, já vem acontecendo há anos com o herói.
O primeiro fato alarmante na carreira do herói se deu com a saga do clone. Por muitos anos o Chacal foi um péssimo vilão, usando-se da premissa de sua paixão por Gwen Stacy, ele atazanou a vida de Peter criando clones e clones dela para tentar matá-lo. Desta vez, surge ao invés de um clone de Gwen, um clone de Peter. Um não, dois! Ben Reily e Kane, o primeiro clone que ficou deformado.
Em dado momento, faz-se acreditar que o Aranha que sempre conhecemos, Peter Parker, na verdade era o clone e que Ben seria o Peter verdadeiro. Por alguns meses Ben substituiu Peter como o Aranha, inclusive sendo ele o Aranha que participa do crossover Marvel vs DC. Como os fãs reclamaram ardorosamente, o status quo ante foi reestabelecido, com Peter voltando a ser ele mesmo e Ben morrendo em combate. O responsável por essa saga foi Howard Mackie, bem, a vida continua.
Peter estava nas suas, voltando a dar aulas, MJ grávida, quando ressurge das cinzas seu maior vilão: Norman Osborn, o Duende Verde original. Com uma desculpa esfarrapada, a conclusão de uma das maiores sagas do Aranha, a morte de Gwen Stacy, acabou sendo jogada fora ao Norman dizer que sobreviveu ao empalamento por seu jatinho graças à sua fisiologia modificada pelo soro que corre em seu corpo. Pusta balela!!
Você sobreviveria a isso? Norman Osborn sobreviveu!!!
Ou seja, agora temos Norman de volta a vida de Peter. MJ está para ter sua filha e Peter louco da vida com Norman. Ao nascer, a filha de Peter é dada como morta e levada por uma mulher que trabalhava para Norman. Nunca mais vimos a pequena May Watson Parker.
Anos se vão e descobrimos que tia May sabia da identidade de Peter durante uma luta contra o vilão Morlun, isso durante outra saga que mostra que os poderes de Peter nasceram de um totem aranha e que ele nada mais era que a nova geração de guerreiros totêmicos. Vocês estão me seguindo? Peter, que pensava ter a origem de seus poderes na ciência, um fruto da geração nuclear da década de 60, agora poderia ter seus poderes graças a algo místico. Ridículo!!!
Então, como se já não bastasse, surge a pior saga da história do Homem Aranha, na minha mais que humilde opinião. Uma saga que simplesmente ferrou com todos os leitores antigos e com sua adoração pelo status de Gwen Stacy no universo Marvel.
Para os leitores novatos, Gwen foi a segunda namorada de Peter (lembrando que ele namorou Betty Brandt por um tempo) e ela tinha todo um ar sincero, inocente, algo que jamais foi sequer tocado, tanto que na graphic novel, Marvels, esse status é demonstrado exaustivamente ao leitor. Gwen era uma pessoa fantástica, inteligente e que sempre estaria no coração de Peter por ter sido assassinada brutalmente por Norman Osborn.
Pecados Pretéritos, de J. Michael Straczynski e desenhada pelo brasileiro Mike Deodato, acaba com isso de forma explosiva. Na saga, uma retcon (ou seja, uma história que muda o passado), Gwen, quando estava em Paris, tem um romance fervoroso com Norman Osborn no melhor estilo filme pornô de ser e engravida dele, tendo seus filhos em poucos meses (graças a fisiologia modificada de Norman), um casal de gêmeos, que reaparecem após todos esses anos, já crescidos, para matar Peter. por pensarem que ele havia sido o causador da morte de Gwen. A idéia foi tão ridículo que após o término da saga simplesmente eu queria queimar minha coleção do Aranha.
Mas o pior ainda estava por vir. Para atrair mais fãs graças aos filmes, a Marvel resolveu mudar mais uma vez o Aranha, e dessa vez ele iria ter de “morrer” e renascer com lançadores de teia naturais e espetos no melhor estilo Wolverine. Isso na saga do “Outro” que foi ridícula ao ponto dele morrer e ninguém falar nada sobre isso na comunidade heróica, já que ele renasceu em questão de horas.
Agora, após a loucura da revelação de identidade durante a Guerra Civil, o ferimento fatal em tia May (por que você não morre sua velha coroca?!) e começa Um Dia a Mais (One More Day), em que, através de um pacto com o Mefisto, Peter entrega o amor que tinha por Mary Jane em troca de todas as desgraças de sua vida serem apagadas e ele voltar ao status filme quo! E o que o Quesada tem a falar sobre isso, “É mágica, não temos que explicar isso”.
O vídeo acima mostra o que os fãs tem a dizer sobre a saga e Joe Quesada!
Ou seja, agora Peter rejuvenesceu, ainda mora com a tia, MJ é uma mera amiga, Harry Osborn está de volta (vou queimar a coleção depois dessa) e pásmem, ninguém se lembra da identidade do Aranha, mesmo ele ainda estando entre os Vingadores. Agora, me expliquem uma coisa. E todas as interações que MJ teve com os Vingadores, Quarteto, Demolidor e tudo mais? E as histórias que ela tomou parte principal? O próprio Venon tem papel importante aqui, afinal, em sua primeira aparição, ele molestou MJ, o que fez Peter ter um ódio mortal dele, e agora?
Já Osborn, agora como diretor dos Thunderbolts, terá um novo papel, porque, se tudo voltou a como estava antes, Gwen nunca teve os filhos de Osborn e voltou a ser a adorada namorada falecida de Peter, a não ser que isso tenha sido apagado também. Joe Quesada conseguiu o que muitos escritores e editores tem tentado: Acabar com o Aranha para os fãs antigos.
Vendo-se a coisa de um ângulo mais imparcial, há anos eu deveria ter parado de comprar a revista. Nada, absolutamente nada foi feito com o personagem que me agradasse totalmente. O que se via era uma série de histórias sem graça, cheias de furos e com finais totalmente desprezíveis. Nenhum ser amaldiçoado na Marvel se tocou que a tia May tem que morrer? Ela é uma das poucas coisas que fazem o Aranha ficar preso as suas amarras iniciais, aos anos Lee/Ditko, quando tudo era inocência.
Não se pede uma mudança radical na atitude do herói, mas apenas uma adaptação a esse novo mundo, em que nem sempre ser o “amigão da vizinhança” serve. Vez após vez ele foi espancado, sua vida virou de pernas para o ar e, ao invés de amadurecer o herói, infantiliza-se este com fatos totalmente fora de seu controle que o fazem deixar de ser um herói adulto. Porque não fazer ele beber uma poção da juventude eterna, em que Peter sempre terá 15 anos de idade? Aí não se teria mais preocupações com relacionamentos, problemas no trabalho, etc… Peter sempre seria um moleque brincalhão fazendo palhaçadas para os leitores.
Quesada quer isso, Quesada conseguiu isso, agora, nos basta sofrer com mais esse retcon que simplesmente reiniciou a carreira do herói aracnídeo. Daqui a pouco chamam o Byrne para um outro renascimento!
É com essas e outras que declaro, que, até a vida de Peter voltar ao que era, com Mary Jane casada com ele e com a tia May morta, eu não volto a ler nada do Aranha. Deixo ao resto dos leitores que se dignifiquem a fazer o mesmo, para o bem da franquia, tanto nos filmes quanto nos quadrinhos.
J.R. Dib













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