Acho que é possível dizer que se trata mesmo de uma dádiva (um presente) a presença da companhia brasiliense Os Buriti no Rio de Janeiro, com seu belíssimo espetáculo “Depois do Silêncio”, em cartaz no Teatro Poeira, com direção artística de Eliana Carneiro e roteiro e dramaturgia do grupo. Com base em fatos, ele traz um retrato artístico da vida da menina estadunidense Helen Keller (1880-1968), que perdeu audição e visão aos 18 meses. Até o encontro com a professora Anne Sullivan, aos sete anos de idade, a qual se propôs a ensiná-la a língua de sinais tátil e a se comunicar com o mundo, Helen vivia isoladamente em uma espécie de bolha. Aliás, essa é, de fato, a primeira imagem do espetáculo: na cena inicial, vemos uma jovem debatendo-se no interior de uma película transparente pulsátil que vai inflando aos poucos na escuridão – efetivamente um ser humano existindo corporalmente em uma bolha.

O espetáculo, que é bilíngue (encenado em português e em libras), conta com o trabalho primoroso, visivelmente árduo e resultado de profunda dedicação e empenho, das intérpretes criadoras Camila Guerra (Anne Sullivan), Naira Carneiro (Helen Keller) e Renata Rezende (surda, que traz um contexto autobiográfico). Como explica a atriz Naira Carneiro no texto do release, Depois do Silêncio “não só pretende contribuir para a reflexão de jovens e adultos sobre a temática da acessibilidade e visibilidade das pessoas com deficiência, mas também ser um exemplo de inclusão a partir do encontro de atrizes ouvintes e surdas em cena”.
O espetáculo é marcado por uma coreografia que evoca isolamento, combate, desespero, tenacidade, afeto e descobertas. Parece ser efetivamente esse o mundo imediato das pessoas que vivem com alguma deficiência, isto é, na prática da vida em sociedade, invisíveis e com pouco acesso à cidade e aos pares. Como narra Renata Rezende, que perdeu a audição na infância como resultado de uma meningite, até ir ao supermercado é bastante difícil. Em um dos trechos do espetáculo, ela se lembra de que, quando criança, gostava de cantar e subia no sofá da sala, mas agora já não se lembra de como era o som de sua voz.

O relato de Renata Rezende estabelece pontes com o desafio de Anne Sullivan, que não desiste de Helen Keller, apesar das imensas dificuldades que se apresentam diariamente nos detalhes da rotina, como a impressionante cena da refeição – ou da tentativa de refeição. O trabalho corporal das atrizes nesse combate em que a professora insere a aluna no contexto de alimentação à mesa espelha uma agonia crescente. E o mais interessante: Anne não trata Helen com base em pena, não a vitimiza, não a infantiliza, não aceita seus caprichos e tampouco se acumplicia com suas birras. Por mais difícil e extremamente doloroso que podemos tentar imaginar ser a vida de um ser humano que nada enxerga e nada escuta, por mais terrível que seja essa inserção deslocada em um mundo que depende de imagens e sons o tempo inteiro, ainda assim o trabalho de Anne só parece ser possível por ela se localizar absolutamente distante de sentimentos como dó e caridade. A pena, aliás, é um sentimento que parece incompatível com o amor. E se Freud já assinalava que a psicanálise é, no fundo, uma cura pelo amor, não se pode negar que o que a professora Anne Sullivan promoveu, árdua e desesperadamente, praticamente sozinha, foi também uma espécie de cura pelo amor. Helen Keller se tornou ativista social estadunidense e foi a primeira pessoa surdocega a ingressar em uma instituição de ensino superior, tendo se graduado em filosofia e lutado por direitos sociais, das mulheres e das pessoas com deficiência.

Voltando ao espetáculo, muito mais poderia ser dito sobre ele e as escolhas dramatúrgicas que se apresentam: na própria cena da refeição, a presença de Renata batendo com tampas de panela sob a mesa e depois se movimentando pelo palco, nessa escolha aparentemente contraditória de uma pessoa que perdeu a audição e que é justamente a mais ruidosa nesse corte; ou os objetos cênicos utilizados, como os baldes com água e uma maleta com uma boneca dentro, que será objeto de tentativa de ensino-aprendizagem em um momento, mas que ao mesmo tempo evoca a solidão, certa dose de incomunicabilidade e a asfixiante ausência de saídas muito própria a uma gaiola.
Umas últimas palavras merecem ser ditas a respeito da beleza visual que Depois do Silêncio proporciona, em um curioso jogo de luzes, textos curtos projetados ao fundo e linhas que dialogam com as cenas e os movimentos às quais as intérpretes se entregam no palco. E, por fim, como não sucumbir ao espanto diante do impressionante trabalho corporal de todas as intérpretes criadoras, que estão excelentes, com destaque para Naira Carneiro. Sem prejuízo das demais atuações, Naira consegue convencer inteiramente como deficiente visual. Aliás, impossível não se recordar de Al Pacino: muito e merecidamente se falou do ator, em Perfume de Mulher, de 1992, que lhe deu o Oscar de Melhor Ator por sua atuação como deficiente visual que, numa das cenas inesquecíveis do filme, ensina tango a seu jovem acompanhante. É uma cena belíssima, e o ator está magnífico, ninguém discordaria. Certo, mas, então, o que dizer da brilhante atuação de Naira?

Ficha Técnica
Direção: Eliana Carneiro e Rogero Torquato
Direção Artística e Coreografias: Eliana Carneiro
Intérpretes Criadoras: Camila Guerra, Naira Carneiro e Renata Rezende
Roteiro e Dramaturgia: O Grupo
Trilha Sonora Original: Diogo Vanelli
Desenho de Luz: Camilo Soudant
Cenografia: Rodrigo Lélis
Artista Gráfico e Vídeo Arte: Gabriel Guirá
Design: Gilberto Filho
Figurinos: O Grupo | Boneca: Neuza Freire
Fotos: Diego Bresani
Produção Executiva: Thiago Miyamoto
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha
Direção de Produção: Naira Carneiro | Os Buriti Produções Artísticas
Realização: Cia Os Buriti
| SERVIÇO Espetáculo: “Depois do Silêncio” Temporada: de 13 de janeiro a 25 de fevereiro de 2026 Local: Teatro Poeira Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo Dias e horário: terça e quarta, às 20h Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia) Venda online: Sympla Horários da bilheteria: Terça a sábado, das 15h às 20h Domingo, das 15h às 19h. Classificação: 12 anos Duração: 60 min. Capacidade: 170 lugares |









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