Filme “Cora” ousa ao apagar fronteiras entre documentário e encenação

Cora já inicia com uma confusão homérica em um velório. Há tempos os segundos iniciais de um filme não me prendiam assim, de imediato. Queremos saber o que está acontecendo, que confusão é aquela. Somos arrebatados pelas imagens e sons, da mesma forma que acontece com a protagonista do filme, uma dinamarquesa que, em 2064,…


Cora filme

Cora já inicia com uma confusão homérica em um velório. Há tempos os segundos iniciais de um filme não me prendiam assim, de imediato. Queremos saber o que está acontecendo, que confusão é aquela. Somos arrebatados pelas imagens e sons, da mesma forma que acontece com a protagonista do filme, uma dinamarquesa que, em 2064, decide investigar sobre sua família brasileira.

São duas as fontes imagéticas usadas por Cora, nossa protagonista: imagens em Super 8 da família reunida, no Brasil, e uma série de entrevistas feitas pelo pai de Cora, Benjamin, com pessoas que conheceram o pai dele, Teo. Documentos oficiais revelam uma história familiar convoluta, cheia de idas e vindas e uma reviravolta de tirar o fôlego.

Uma subtrama com um desastre ambiental evoca o recente rompimento da barragem da Vale em Minas Gerais. Em 2064, o Brasil é terra arrasada, local onde ocorreram sucessivos desastres ambientais e a vida para os humanos se tornou impossível. É uma previsão dura, porém plausível, e que foi um dos principais desafios da dupla de diretores, Gustavo Rosa de Moura e Matias Mariani. Plausível sim, os dois diretores reiteram, porque “De repente, em poucos anos, foram tantos retrocessos e absurdos, e a situação do país (e do mundo) piorou tanto, que a realidade que pensamos pro filme se aproximou de nós.”

Cora contém imagens e sons corrompidos, algo de que somos alertados antes do início da projeção, para que não pensemos que há algum problema com o equipamento do cinema. Em mais de uma ocasião, Cora fala sobre sermos “poeira digital”, cada vez mais como imagens em movimento ou estáticas em um HD facilmente corrompível.

Cora é classificado, nos créditos, como um “filme-resposta”. É resposta ao livro “Antonio”, da escritora Beatriz Bracher, mãe de Matias Mariani. O projeto de Cora era uma adaptação do livro, mas o filme foi se distanciando da obra literária, de modo que virou outra coisa, como explica Matias Mariani:

No princípio, achávamos que se tratava de uma adaptação no estrito senso, como qualquer outra. Ao longo do processo, porém, o filme foi se distanciando do livro. E foi a própria Beatriz Bracher, no caso minha mãe, que, quando assistiu um primeiro corte do filme, sugeriu essa formulação de filme-resposta, pois achou que o filme propunha uma reação ao que o livro narra, e não propriamente a sua simples transposição para outra mídia. Nós logo gostamos dessa ideia e isso passou a nortear o final da edição do filme, tornando-o de fato uma resposta ao livro

A linha que separa ficção de realidade no documentário é tênue e sinuosa desde Nanook, o Esquimó (1922), e alguns defenderiam que essa divisão nebulosa acontece antes ainda, nos filmes dos irmãos Lumière. Cora não é um documentário, mas se utiliza de elementos do gênero – como a narração em off – para criar algo que se parece com um metadocumentário, ou seja, um documentário sobre outro documentário.

A única constante, como diz nossa narradora-protagonista, é a busca por respostas. Aliás, fica a dúvida se Cora pode ser mesmo chamada de protagonista: o filme leva seu nome, não existiria sem ela e ela não é uma narradora passiva, demonstrando emoção pela voz. Focar nela, na mulher que caminha sozinha, é contar a história das mulheres da família, embora, à primeira vista, não pareça ser esse o objetivo do filme. Mas, como um filme que começou como adaptação e terminou inaugurando um novo subgênero (o “filme-resposta”) talvez esteja aí a magia por trás de Cora: em trazer algo novo e inesperado nas repostas para as perguntas feitas.

Nota: Bom – 3 de 5 estrelas