Conduzindo Madeleine: uma breve porém adorável jornada

Ao contrário do que o título em português pode nos levar a crer, “Conduzindo Madeleine” não é um remake de “Conduzindo Miss Daisy” (1989), ganhador de quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme. A película francesa é baseada em uma história original e nos leva, por meio de flashbacks, a percorrer os caminhos da memória…


Ao contrário do que o título em português pode nos levar a crer, “Conduzindo Madeleine” não é um remake de “Conduzindo Miss Daisy” (1989), ganhador de quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme. A película francesa é baseada em uma história original e nos leva, por meio de flashbacks, a percorrer os caminhos da memória de uma senhorinha nada convencional.

Em um dia como outro qualquer, o taxista Charles (Dany Boon) é chamado para uma corrida que parecia ser também como outra qualquer: levar Madeleine Keller (Line Renaud), de 92 anos, de sua casa em um bairro nobre até uma casa de repouso onde ela passará a viver. O caminho a ser percorrido, que já era longo, se torna ainda mais com desvios pedidos pela passageira, que quer se despedir de alguns lugares que marcaram sua trajetória.

Durante a corrida Madeleine conta passagens de sua vida, como o inesquecível primeiro amor, o relacionamento abusivo com um homem chamado Ray, as consequências deste relacionamento e o tempo de convivência com o filho Mathieu. Vemos estas rememorações na tela como flashbacks, com Madeleine jovem interpretada por Alice Isaaz. Em contrapartida, Charles conta sobre sua vida com a companheira Karine e a filha Betty. Um laço então se forma.

A trilha sonora do filme é um primor. Com partes da história se passando nos anos 50, tão romantizados mas ao mesmo tempo tão difíceis para as mulheres, duas canções do jazz se destacam: “On the Sunny Side of the Street” e “At Last”, esta tocada em dois momentos muito diferentes, com emoções também diferentes sendo evocadas. A música original fica por conta de Philippe Rombi e é bastante discreta.

Quando Mathieu pergunta à mãe o que significa “bastardo”, a resposta dela não nos é mostrada. Também poderia ter ficado oculta a história que Madeleine contou para uma policial para livrar Charles de uma multa, mas esta tem uma razão de ser, pois ecoa mais tarde no desenrolar do filme. Deixar coisas e diálogos a cargo da imaginação do espectador pode ser não preguiça criativa, mas sim um ato de enriquecimento imaginativo.

Line Renaud é o nome artístico de Jacqueline Ente, nascida em 1928 e, como podemos ver, ainda na ativa não apenas como atriz mas também como ativista da causa da AIDS. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando seu pai estava no exército e era criada pela mãe e pela avó, Line cantava para soldados no café que a avó possuía em Armentières, no norte da França. E foi como cantora que ela ficou mais conhecida, cantando no rádio, no teatro e em turnês ao redor do mundo, através das quais conseguiu trabalhos como cantar com o humorista Bob Hope na TV americana. Apesar da longa carreira, é em Madeleine que Renaud encontrou sua personagem mais bonita, declarando:

Ela também é aquela que mais se parece comigo. Eu tenho a mesma idade de Madeleine, mas isso nem é tudo que temos em comum. Como ela, eu passei por algumas coisas difíceis na minha vida. Eu cresci perto de mulheres como ela na minha família. Madeleine é minha mãe, minha avó e até minha bisavó. Eu as vejo na história da minha personagem.”

O título original do filme se traduz para o português como “Uma Bela Corrida” – o que de fato é mostrado em tela. Corridas de táxi podem nem sempre mudar completamente a vida de motorista e passageiro, como acontece no filme, mas muitas vezes trazem outros pontos de vista e reflexões. Exemplo máximo disso é “Táxi Teerã” (2015), escrito e protagonizado pelo grande cineasta iraniano Jafar Panahi.

Madeleine cita seu falecido pai, que dizia que sorrir rejuvenesce as pessoas. “Conduzindo Madeleine” com certeza nos faz sorrir, e ainda traz momentos sérios de reflexão e também de drama capaz de nos levar às lágrimas. O filme de maior público do Festival Varilux de Cinema Francês de 2023 certamente merece seu sucesso!

Conduzindo Madeleine

Conduzindo Madeleine
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Nota: 9/10 Fantástico
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