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Olhar de Cinema exibe “Firesupply”, a mais recente obra da Pentatologia de Lucía Seles

Lucía Seles é uma prolífica diretora argentina não binária, que também se autoproclama guitarrista clássica e grafomaníaca.

Neste meu primeiro contato com sua obra, eu não sabia o que esperar.

Uma das curadoras, Camila Macedo, ao apresentar a sessão, anunciou que apesar de estar programado na competitiva internacional, este era um filme que poderia também fazer parte da mostra Novos Olhares, por conta de sua originalidade de estilo e experimentação de linguagem. Avisou também que o filme era o mais recente da sequência que compõe a Pentalogia do Ódio (também conhecida como Pentalogia do Tênis), que seria longo (2 horas e 20) e que teria um intervalo, que eu achava que era um recurso definido pelo Festival, mas que, na verdade, foi planejado pela própria diretora e oficializado pela montagem.

A história trata de mais ou menos 3 dias na vida de um grupo de amigos que trabalham em um complexo de tênis. Uma cachorrinha que morre; uma instrutora de tênis que descobre que o melhor curso que ela já deu na vida é este atual no qual ensina a Caminhar e Sentir; uma competição informal pra decidir quem fuma melhor; o desejo de fazer uma tatuagem e uma mãe que resolve ficar dois dias a mais na cidade pra dar chance a um possível encontro amoroso. Todos estes são acontecimentos ínfimos que impelem as sub tramas do filme, ou melhor, do vídeo, como Lucía gosta de chamar.

Logo de cara, você é surpreendida por textos escritos em inglês e espanhol na lateral da tela. Textos que não são legendas alternativas de nenhuma fala diegética, mas que parecem seguir um fluxo de pensamento, dedutivamente, da diretora. De caráter íntimo e confessional, eles trazem uma cadência poética e, até certo ponto, enigmática.

As imagens são de baixa qualidade, algo entre câmeras digitais mais precárias ou celular. A repetição é um elemento presente, seja nas falas, seja nos planos, ambos se reiterando em versões ligeiramente diferentes. A impressão que dá é que a mesma cena é quase sempre filmada várias vezes, de ângulos ou enquadramentos levemente distintos. Recurso esse que gera dinâmica no ritmo, ao mesmo tempo em que sugere a presença de mais de um ponto de vista e reforça a noção de artifício da filmagem, revelando sua construção cênica. 

Essa estética lembra um pouco a da série The Office, não apenas pela fragmentação visual e pelo presença demarcada da câmera, mas também por usar a quebra de expectativa e o contraste entre a seriedade sugerida pelos momentos e sua inadequação ou desconforto como formas de gerar humor. 

O contraste se dá também por um pequeno desencaixe entre a banalidade das situações corriqueiras e o aspecto teatral, que nos retira do registro naturalista e traz ares do teatro do absurdo. 

Mas nada é caricaturesco, dissimulado ou irônico.

As personagens são espontâneas, às vezes exageradas e outras super contidas, e carregam um fascínio em seus olhares que denota uma certa ingenuidade e lhes torna encantadoras.

Ainda que o estranhamento seja central pra elevar o tom cômico do filme, em nenhum momento ele está ali para zombar delas. Pelo contrário, há muita ternura e franqueza.

Muitas das falas parecem improvisadas, mas segunda Lucía, não há nenhum improviso. “Tenho no coração tudo que precisa ser feito na filmagem”.   

Outros elementos como citações e trechos de filmagens anteriores, inserts de imagens estilizadas e o surgimento da trilha sonora de forma demarcada e nada sutil ajudam a compor essa comicidade dentro de um fluxo que dialoga com a sincronicidade de nossos tempos “internéticos”. Pensando em mais conexões e comparações, o tempo entrecortado, o caráter episódico e as subtramas que sugerem prolongamentos de acontecimentos anteriores desse grupo de amigos lembra também o formato de série, quase um Friends à moda argentina.

Pra além de proporcionar uma experiência original, em meio a tantos enlatados de nossa época, Firesupply é um vídeo (rs) delicioso de assistir. Ele se destaca por um sentimento de ternura genuinidade explicitado pela conexão entre os atores, as inseguranças das personagens, as situações aparentemente pueris (mas de extrema importância), e por seu aspecto obsessivo.  

Certamente tentarei conhecer mais a obra de Lucía e aguardarei ansiosamente os próximos capítulos da saga.

Firesupply faz parte da programação da 14a edição do Olhar de Cinema.

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