“Fafá de Belém – o musical” emociona com interpretações vigorosas e certeiras

Espetáculo passa a limpo a história de 50 anos de carreira da cantora paraense


Fafá de Belém

Assim, como no título, a cantora Fafá de Belém se definia usando de grande modéstia e simplicidade quando conversava com produtores musicais em seu início de carreira nos anos 70, num Brasil ainda dominado pela ditadura militar e pelo machismo exacerbado. 

E a cena está devidamente registrada no espetáculo “Fafá de Belém – o musical”, em cartaz até o dia 8 de março, no Teatro Riachuelo, no Rio, que comemora os 50 anos de carreira da cantora paraense, saída de um repertório regional amazônico para ganhar e cantar o Brasil, principalmente a partir do início dos anos 80. Foi quando a gravação de Fafá para a música ‘Bilhete’, da dupla hitmaker Ivan Lins e Vítor Martins, estourou no Brasil, sendo um dos temas de destaque da novela “Sol de Verão” (1982/1983), de Manoel Carlos. A música, aliás, havia sido oferecida à igualmente grande cantora Simone, mas acabou caindo nos braços de Fafá para sorte do Brasil.

A direção, correta, é assinada por Gustavo Gasparani, ator, diretor e autor, que entende muito do riscado, a quem este resenhista acompanha desde os idos dos anos 90 a partir do espetáculo infantil “Galinhas, um melodrama de penas”.

Gustavo também assina o texto ao lado de Eduardo Rieche. A dupla completa 18 anos de uma parceria profícua em 2026. Parceria afinada que começou em 2008 com o espetáculo “Oui, Oui, a França é aqui, a revista do ano”, que tem texto assinado por ambos, juntando um mais popular Gasparani a um mais erudito Rieche, no melhor sentido das palavras. Química perfeita que atinge uma quase maioridade e maturidade neste emocionante “Fafá – o musical”, para deleite do público.

O grande elenco é puxado por Lucinha Lins (que encarna a Fafá atual e serve de fio condutor e espelho para as demais Fafás no espetáculo), uma das pioneiras no quesito que reúne numa só profissional com competência a atriz e a cantora. E a atriz Helga Nemetik, uma das vozes mais respeitadas do teatro musical brasileiro atual, que encarna com imenso brilho a personagem através de seus trejeitos, gargalhadas, maneirismos e registro vocal. Tem a assinatura da voz dela um dos pontos altos do espetáculo: a interpretação da já citada “Bilhete”, hora em que, para muitos, as lágrimas caem.

Não se pode terminar essa resenha sem revenciar o papel na vida de Fafá do produtor Roberto Sant’anna, que, aos 82 anos, é uma figura histórica na música brasileira, tendo sido responsável pela descoberta de Fafá, entre outros, e um de seus maiores incentivadores. E isso está mostrado no espetáculo, com muita justiça. Pois se Fafá foi, e é, aos 69 anos, uma mulher empoderada, que foi atrás de seus sonhos e abriu caminhos, pode-se dizer que ela teve em Roberto seu anjo da guarda. Salve Fafá, salve a Amazônia e salve o Brasil, terra onde se plantando, tudo, ou quase tudo, vira musical de sucesso.