Uma releitura visualmente deslumbrante que nem sempre honra a essência do original
O clássico da literatura gótica O Morro dos Ventos Uivantes exerce fascínio desde sua publicação, em 1847, e ganhou diversas adaptações para o cinema e a televisão — há até uma versão japonesa. A mais notável é a de 1939, dirigida por William Wyler, com Merle Oberon como Cathy e Laurence Olivier no papel de Heathcliff. As gerações mais novas, no entanto, provavelmente têm como referência a versão de 1992, protagonizada por Juliette Binoche e Ralph Fiennes, além da adaptação de 2011. Era natural que a nova versão, produzida e estrelada por Margot Robbie, despertasse curiosidade, prometendo uma roupagem moderna e superproduzida. Estaríamos prestes a assistir à adaptação definitiva?
A trama desse Morro dos Ventos Uivantes 2026 narra a conturbada história das famílias Earnshaw e Linton, tendo como foco o relacionamento arrebatador entre Catherine Earnshaw (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi). Unidos por uma paixão intensa e destrutiva, os dois mergulham em um vínculo marcado por obsessão, orgulho e ressentimento. Filho adotivo do patriarca dos Earnshaw, Heathcliff desenvolve com Catherine uma conexão profunda, mas igualmente turbulenta, que desencadeia um ciclo de rejeição e vingança capaz de atravessar gerações. Entre amor e dor, ambos se deixam consumir por um sentimento tão avassalador quanto devastador.

Até aí, o novo longa, com direção e roteiro de Emerald Fennell (Bela Vingança, Saltburn), não se afasta muito do que foi estabelecido no romance original — embora, claro, haja diferenças. O principal deslize da adaptação está na ânsia de traduzir a história para os dias atuais, adicionando elementos trabalhados com certa displicência. O erotismo é um deles. Nos momentos em que o filme envereda pelo caminho mais explícito, o resultado resvala em um humor involuntário que chega a ser constrangedor.

É inegável que houve esmero na produção. A direção de arte é impecável e elegante, assim como os figurinos — ainda que haja algumas liberdades temporais. A fotografia também chama atenção, embora em certos momentos peque pelo excesso de ambição, tornando o resultado um tanto cafona. E então chega a trilha sonora, com canções originais assinadas por Charli XCX. Além de mal encaixadas, destoam da ambientação de época. É possível que a diretora tenha se inspirado em produções como Moulin Rouge!, que incorporou músicas dos anos 1970, 80 e 90 à Belle Époque, ou mesmo em Queer, de Luca Guadagnino, que insere Nirvana em uma trama ambientada nos anos 1940. Contudo, aqui a trilha apenas nos lança em um incômodo “vale da estranheza”.
Estranheza que também cercou o casal principal. Parte dos fãs da obra literária questionou se Margot Robbie, aos 35 anos, seria velha demais para interpretar Cathy, e se Jacob Elordi seria adequado para viver o cigano Heathcliff. No caso de Robbie, a própria trama sugere que, nesta versão, Cathy estaria “passada da idade” para se casar — e a atriz convence como uma mulher na casa dos vinte e poucos anos. Quanto a Elordi, ele imprime nos trejeitos e na composição do personagem alguns elementos que remetem a essa origem, embora ela não seja explicitamente mencionada. O preconceito direcionado a Heathcliff parece estar mais ligado à sua origem pobre do que a qualquer questão étnica. Ambos entregam boas atuações, mas falta química em diversos momentos para que o casal se torne memorável ou desperte torcida genuína por um desfecho feliz.

O novo Morro dos Ventos Uivantes fica aquém de suas ambições justamente pelo excesso de pretensão. Uma adaptação mais direta e fiel ao texto talvez resultasse em algo mais satisfatório. No fim das contas, não temos nem um clássico instantâneo nem um futuro cult — apenas uma versão que, se não chega a ser um desastre, tampouco pode ser considerada definitiva, sendo mais lembrada por seus tropeços do que por seus acertos. Por ora, ainda vale retornar ao belo filme de 1939.








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