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“Minha Querida Família” traz explorações complexas das relações familiares

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Família, família. A conhecida música dos Titãs nos diz que família inclui “papai, mamãe, titia” e toda gente que “almoça junto tudo dia”. As famílias muito unidas costumam ser também muito ouriçadas, como cantou Dudu Nobre, mas no cinema é a desunião familiar que gera muitos filmes. Uma destas produções vem da França, das mãos ávidas e muito ocupadas de Isild Le Besco: “Minha Querida Família”.

O relacionamento de Estelle (Élodie Bouchez) e Antonio (Stefano Cassetti) vai mal, obrigada. O primeiro sinal de alerta, na cena inicial do filme, surge quando ela não aceita ser enforcada como parte do ato sexual e precisa implorar para que ele pare. Ele fica emburrado, coitadinho. Mais tarde, ele demora a chegar do trabalho e chega cheio de tesão, o que não é correspondido, e então ele a joga na cama. Por muito pouco não testemunhamos um estupro marital. Quem também quase testemunha isso é uma das filhas do casal, que no dia seguinte, num ato de rebeldia, corta sozinha seus longos cabelos loiros.

Minha querida familia

Para fugir da situação, Estelle parte para a casa interiorana de sua mãe, Queen (Marisa Berenson), onde se reúne com suas irmãs Janet (Jeanne Balibar) e Manon (Isild Le Besco), o irmão de criação Jean-Luc (Élie Semoun) e o irmão de sangue Marc (Axel Granberger), afastado há muitos anos e que agora retorna com uma noiva bem mais velha e as cinzas do pai, disposto a fazer valer o último pedido do patriarca. No reencontro, afloram velhas e dolorosas memórias e alguns segredos, sendo o principal deles um quarto na casa que fica sempre trancado.

Queen era cantora de ópera, e o termo “diva” lhe cai como uma luva. Alguns detalhes sugerem que ela vive no passado, como os cartazes de suas próprias turnês espalhados pela casa. Algo que também pertence ao passado são as memórias da filha morta. E, para aguentar o presente é uma nova realidade, ela se deu ao trabalho de cortar a cabeça de seu marido de todas as fotos de família que tem exibidas em porta-retratos.

Minha querida familia

A família sempre foi combustível e inspiração para o cinema. Deve haver algum curta do Primeiro Cinema, perdido ou sobrevivente, talvez de autoria de Alice Guy, sobre relações familiares. Por enquanto, já que não me jogo nesta pesquisa, o exemplo mais antigo de que me lembro é “A Parentela da Esposa”, divertidíssimo curta de Buster Keaton de 1922. Anos de Sétima Arte só refinaram a maneira como se constroem relações e principalmente tensões familiares nos filmes, destacando-se produções hollywoodianas da última década como “August: Osage County” (2013) e “Sete Dias Sem Fim” (2014).

Minha Querida Família” poderia ser resumido, sem soar pejorativo, como um filme da Hallmark acrescido de tensões. A Hallmark é uma rede que se popularizou por fazer filmes açucarados, especialmente ambientados na época do Natal. O filme francês se aproxima do estilo Hallmark exatamente por conta do cenário, paisagem idílica como muitas encontradas na França, país que recebe anualmente mais de 100 milhões de turistas.

Minha querida familia

Este é um filme falado em várias línguas. Antonio fala italiano, inclusive com os filhos. As irmãs falam francês entre si, e inglês com a mãe, mesma língua falada por Marc. Para quem assiste ao filme legendado, essa profusão linguística pode passar despercebida, mas quem se interessa por idiomas terá uma agradável surpresa e talvez até treine seu conhecimento desta ou daquela língua.

Isild Le Besco – atriz, produtora, roteirista, editora, compositora e diretora da película – é irmã da também atriz e diretora Maïwenn e filha da atriz Catherine Belkhodja. Sua produtora, Ava Studio, promete “apoiar a arte interessada em experiências humanas reais”. Ela conseguiu com “Minha Querida Família”, pintando um retrato por vezes trágico, por vezes cômico, de algo que todos experimentam, mesmo os que têm apenas amigos como família.  No fim, todos acabam rindo muito – como é para ser com toda família.

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Minha Querida Família

Minha Querida Família
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