Bruce Springsteen costuma reunir sua banda antes de cada show para lembrar algo simples: aquele pode ser o primeiro concerto da vida de alguém na plateia — e também o último de outra pessoa ali presente. Por isso, todos precisam dar o máximo para tornar a experiência memorável. Bryan Adams, que claramente tem o Boss como uma de suas influências, parece seguir a mesma filosofia. Na noite de ontem (6), diante de um Qualistage lotado no Rio de Janeiro, o canadense deu mais uma prova de que encara cada apresentação como se fosse única.
Enquanto o público chegava e se acomodava — com muitos fãs dedicados, não apenas os atraídos pelos hits radiofônicos —, o telão ao fundo do palco exibia um homem de costas vestindo um robe de boxeador com a inscrição “Roll With the Punches”, título do mais recente álbum de Adams, lançado em agosto de 2025. Faltando cerca de dez minutos para o início do show, a tela passou a exibir cenas inusitadas: um lutador de caratê treinando golpes contra um sparring, uma senhora em cadeira de rodas puxando um carro antigo e pichado (referência ao clipe de “So Happy That It Hurts”) e, por fim, um grupo de jogadores de rugby derrubando o misterioso personagem — que, claro, revelava ser o próprio Bryan Adams.
Quando as luzes se apagaram, porém, a surpresa foi outra: o cantor não surgiu no palco principal, mas em um pequeno palco no meio da plateia. Apenas com voz e violão, abriu a noite com “Can’t Stop This Thing We Started”, do álbum Waking Up the Neighbours (1991). Em seguida veio “Straight From the Heart”, ainda em formato acústico, com a adição de uma gaita que deu um leve acento folk ao sucesso de 1983.
A grande arma de Adams continua sendo a mesma de sempre: sua impressionante coleção de hits. E ele sabe exatamente como usá-la. Canções do novo trabalho — como a faixa-título “Roll With the Punches”, “Never Ever Let You Go” e “Make Up Your Mind” — foram habilmente intercaladas com clássicos que o público conhece de cor, como “Heaven”, “Please Forgive Me”, “Somebody” e “Summer of ’69”. Para manter a energia durante as músicas mais recentes, o espetáculo também apostou em recursos visuais elaborados no telão. Em “So Happy That It Hurts”, por exemplo, um carro “voador”, com faróis acesos, sobrevoava o público.
Assim como o Roupa Nova no Brasil marcou gerações com trilhas de novelas, Adams construiu parte de sua popularidade com canções que se tornaram temas inesquecíveis de filmes de Hollywood — uma estratégia que, nos anos 1990, ajudava a impulsionar tanto as bilheterias quanto as vendas de álbuns. Não por acaso, essas baladas românticas ainda hoje ocupam espaço cativo nas rádios adult contemporary e no imaginário do público. No repertório da noite estavam “Have You Ever Really Loved a Woman?” (Don Juan DeMarco), “Here I Am” (Spirit), “(Everything I Do) I Do It for You” (Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões) e “All for Love”, de Os Três Mosqueteiros (1993), que encerrou o show em versão intimista, apenas com voz e violão.
Entre uma música e outra, Adams mostrou o carisma que o acompanha há mais de quatro décadas de carreira. Arriscou algumas frases em português, lembrou dos quase seis anos e meio desde sua última passagem pelo país — em outubro de 2019 — e brincou com as inúmeras mensagens de brasileiros nas redes sociais pedindo seu retorno. Recebeu um desenho feito por um fã — que disse ter ficado “parecido com Michael J. Fox” —, incentivou o público masculino a tirar a camisa e girá-la no ar durante “You Belong to Me” (os mais corajosos acabaram exibidos no telão, arrancando risadas e aplausos), desceu para um rápido “corpo a corpo” com fãs no gargarejo em “Everything I Do” e, claro, não deixou de se enrolar na bandeira brasileira.
Acompanhado de uma banda afiadíssima e com o auxílio das já tradicionais pulseiras luminosas — efeito popularizado em grandes shows pop por bandas como o Coldplay —, Adams demonstrou domínio absoluto do palco. Entre carisma, repertório sólido e a experiência de quem está há mais de 40 anos na estrada, o cantor teve a plateia carioca nas mãos por mais de duas horas — e deixou a sensação de que o próximo encontro já é aguardado com ansiedade.
Setlist:
- Can’t Stop This Thing We Started
- Straight From the Heart
- Let’s Make a Night to Remember
- Kick Ass
- Run to You
- Somebody
- Roll With the Punches
- Do I Have to Say the Words?
- 18 til I Die
- Please Forgive Me
- It’s Only Love
- Shine a Light
- Heaven
- Never Ever Let You Go
- This Time
- Heat of the Night
- Make Up Your Mind
- You Belong to Me (com snippet of Blue Suede Shoes)
- Twist and Shout
- Have You Ever Really Loved a Woman?
- So Happy It Hurts
- Here I Am (vos e piano)
- Ando Bien Pedo
- The Only Thing That Looks Good on Me Is You
- (Everything I Do) I Do It for You
- Back to You
- Summer of ’69
- Cuts Like a Knife
- All for Love








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