Dramas familiares são o ponto de partida de inúmeros dramas densos, tanto na literatura quanto no cinema. Valor Sentimental, novo filme do diretor Joachim Trier (Anatomia de uma Queda) explora o tema de maneira cirúrgica e agridoce, ao mesmo tempo que envolvente e pujante.
A trama mergulha nas tensões emocionais de uma família marcada por ressentimentos antigos e vínculos frágeis. No centro da história está Gustav, um cineasta respeitado, mas ausente na vida das filhas Nora e Agnes. Determinado a retomar sua carreira com um novo filme profundamente pessoal, ele convida Nora — uma atriz de teatro consagrada — para protagonizar a obra. A recusa da filha, no entanto, desencadeia uma nova situação quando o papel é entregue à jovem estrela de Hollywood Rachel Kemp, interpretada por Elle Fanning. Ao aceitar o projeto, Rachel se vê gradualmente envolvida em uma trama que ultrapassa os limites da ficção, passando a ocupar um lugar inesperado no delicado e conturbado relacionamento entre pai e filhas. Enquanto as filmagens avançam, antigas feridas familiares ressurgem, misturando arte e realidade em um drama profundamente íntimo.

O grande trunfo de Valor Sentimental está sem dúvida em seu elenco. Renate Reinsve defende a protagonista de forma magnânima, da mesma forma intensa que a vimos em A Pior Pessoa do Mundo, também de Trier. Ela transmite verdade em todos os sentimentos mesmo em momentos em que sua atuação se dá de forma minimalista. Sua dinâmica com Stellan Skarsgård em cena é impecável. O ator é coadjuvante, mas é a mola mestra da história. Seu drama gera uma empatia imediata, apesar de suas motivações terem um lado questionável. Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning também brilham.

A direção de Trier mais uma vez e precisa, busca tons sóbrios (por vezes sombrios) na fotografia, que conferem a atmosfera exata pretendida pelo realizador. O hábil trabalho com os atores, assim como o encadeamento das cenas coloca o espectador imerso naquele cenário. Essa é a força da trama, que reside justamente na credibilidade de suas relações. Poucas vezes o cinema retratou uma dinâmica familiar com tamanha naturalidade, algo que se revela nos gestos mais discretos e nas escolhas aparentemente banais dos personagens. O elenco de fato desaparece dentro dos papéis, tornando palpável o vínculo imperfeito entre pai e filhas. Em vez de recorrer ao melodrama, o filme encontra sua verdade em pequenos momentos de intimidade e humor, como numa cena em que Gustav presenteia o neto com DVDs totalmente inadequados, arrancando da filha um riso cúmplice que diz mais do que qualquer confronto verbal. São instantes assim — silenciosos, cheios de afeto e constrangimento ao mesmo tempo — que revelam como relações familiares complexas não se definem apenas pelo conflito, mas também pelos breves lampejos de reconexão que surgem quando as palavras finalmente cessam.

Embora Valor Sentimental se destaque sobretudo pela força do roteiro e das atuações, o trabalho técnico que sustenta o filme merece atenção especial. A montagem de Olivier Bugge Coutté confere fluidez a uma narrativa marcada por longos diálogos, evitando que o ritmo se torne estático. Em colaboração com o diretor, a dupla constrói uma linguagem visual elegante e discreta, que guia o espectador ao longo de mais de duas horas sem recorrer a excessos estilísticos. A estrutura do filme, dividida em segmentos separados por cortes secos para o preto, reforça ainda a sensação de acompanhar capítulos de um romance, transformando o drama familiar em uma experiência cinematográfica que avança com naturalidade e precisão. Poderia durar um pouco menos? Talvez. Mas foi a escolha do cineasta e não maculou o resultado final.








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