Com direção de Travis Knight e elenco afiado, o novo live-action do He-Man equilibra o charme nostálgico dos anos 80 com o espetáculo visual moderno.
Se você foi criança nos anos oitenta, é certo que se lembra de He-Man e os Defensores do Universo (que teimam em chamar de Mestres do Universo, em tradução literal da linha de brinquedos da Mattel). Era impossível escapar da He-Mania. O campeão de Eternia, seus amigos e inimigos estavam em todo lugar além da telinha, fosse em bonecos, lancheiras, álbuns de figurinhas, quadrinhos e todo tipo de merchandising. Mestres do Universo (2026) veio com o intuito de reavivar essa febre, focando bastante na nostalgia, mas, claro, de olho no público infantil, alcançando uma renovação sonhada há tempos.
A franquia parece ter perdido o apelo no final dos anos 80 (o fracasso da adaptação cinematográfica protagonizada por Dolph Lundgren era um sintoma) e nada como a prova dada por Barbie de que a fabricante de brinquedos tem poder de fogo para boas arrecadações nos cinemas com suas propriedades.

Após 15 anos afastado da lendária Espada do Poder, o príncipe Adam (Nicholas Galitzine) finalmente restabelece seu vínculo com o artefato místico, sendo forçado a retornar para uma Eternia à beira do colapso. Para deter o rastro de destruição do diabólico Esqueleto (Jared Leto), o jovem nobre precisará desenterrar os segredos de seu próprio passado e liderar aliados de peso, como a destemida Teela (Camila Mendes) e o implacável Homem-de-Armas (Idris Elba). Mais do que uma guerra pelo destino de seu povo, a jornada exige que Adam dome seus medos mais profundos para, enfim, erguer a lâmina e reivindicar seu verdadeiro legado como He-Man.
A origem do personagem foi modificada, mas faz parte da estratégia da Mattel de recriar confusões em nossa realidade, como em Barbie, e também estabelecer uma conexão com o espectador. Adam, criado na Terra, quando retorna a seu planeta que deixara quando criança, é nossos olhos naquele mundo. Também é uma oportunidade de colocar para o personagem toda a sorte de piadinhas e referências terráqueas, mais ou menos como Peter Quill, de Guardiões da Galáxia.

Essa é a questão em relação a esta adaptação live-action de He-Man. Buscando conquistar a gurizada, o roteiro acaba exagerando nos chistes, como na Marvel (há inclusive quem compare o filme a Thor: Ragnarok). Pode até ter agradado aos mais novos, mas há também a possibilidade de enfurecer os fãs mais xiitas.
O diretor Travis Knight tem um bom timing para o humor; no entanto, o roteiro assinado por Chris Butler, que trabalhou com Knight em Kubo e as Cordas Mágicas e também roteirizou ParaNorman, merecia um polimento nos momentos de alívio cômico para que não esvaziasse a tensão ou o tom épico de algumas passagens.
O cineasta é tarimbado em anos 80. Foi carregado nas tintas da década em que ele dirigiu o spin-off de Transformers, Bumblebee, o melhor longa da franquia. Aqui, a roupagem nostálgica se coloca como o grande trunfo da produção. Pela primeira vez, Masters of the Universe ganha as telonas com orçamento e tecnologia que permitem que Eternia seja transposta para a tela de forma realista e satisfatória — e, de fato, enche os olhos.
Para quem temia que a trama perdesse muito tempo na Terra, isso não acontece: é algo em torno de 20 minutos. Knight faz de Eternia seu playground. Não poupa tomadas grandiosas e maneja as cenas de luta com o entusiasmo de um garoto brincando com sua linha de bonecos do He-Man, inclusive com os veículos e o mítico Castelo de Grayskull, sonho de consumo de 11 entre 10 guris dos anos 80. De olho nesse público, as cenas de combate ficam mais intensas do que no desenho, algumas parecendo saídas de um game de luta, chegando a ser até um tanto violentas para um filme sem restrições de censura.
A escolha do elenco é um acerto. De fato, foi mais acertado escolher um ator talentoso e colocá-lo para malhar e ficar no físico certo para viver o homem mais poderoso do universo do que escalar um halterofilista e tentar fazê-lo atuar (Dolph Lundgren em 1987 fica de prova). Camila Mendes, americana filha de brasileiros, faz uma Teela garbosa e com uma ótima parceria com Idris Elba, que brilha como Mentor, calando quem reclamava pela troca de etnia.

O Esqueleto de Jared Leto é um show à parte, e sua dobradinha com a Maligna de Alison Brie é uma das melhores coisas do filme. Morena Baccarin, no papel da Feiticeira, remete diretamente à versão animada. A atriz brasileira está familiarizada com o mundo das adaptações, tendo estado em Deadpool e na série Gotham.
Mestres do Universo não é um primor em roteiro. Há alguns furos evidentes, mas que não tomariam muito tempo da trama para explicar. Mas os defeitos são eclipsados pelo charme oitentista conferido por Knight, o carisma do protagonista, o bom desempenho do elenco e pela trilha de Daniel Pemberton, com guitarra de Brian May, do Queen. Parece que a versão definitiva de He-Man em live-action indubitavelmente chegou.








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