Ao registrar a comoção da turnê de reunião e a devoção dos fãs no Brasil, o novo filme do Disney+ entrega um espetáculo de nostalgia para os devotos, mas evita a autópsia brutal do racha entre os irmãos Gallagher para se consolidar como uma elegante peça de autocelebração
O retorno do Oasis era uma das improbabilidades mais ruidosas da história da música — uma miragem ainda mais distante do que a reconciliação do Guns N’ Roses. Quando os primeiros rumores sobre um ensaio secreto entre Noel e Liam Gallagher começaram a circular, a reação tida como prudente foi o ceticismo absoluto. Afinal, estávamos falando do maior fenômeno de massa da cultura pop britânica desde a British Invasion e o auge do lirismo dos Beatles. Contudo, o império erguido pelos irmãos sempre foi solapado por uma rotina autodestrutiva de insultos mútuos, guerras de ego e atritos midiáticos — notadamente a batalha do Britpop travada contra o Blur nos anos 1990. O colapso definitivo veio em 2009, quando um quebra-pau nos bastidores do festival Rock en Seine, em Paris, resultou no cancelamento da apresentação e no fim abrupto da banda. A partir dali, o abismo parecia intransponível: Liam fundou o Beady Eye ao lado dos remanescentes Gem Archer e Andy Bell, enquanto Noel seguiu como força criativa à frente do High Flying Birds.
Era perfeitamente compreensível, portanto, que o anúncio oficial da turnê de reunião desencadeasse uma reação histérica em escala global. Ingressos para arenas e estádios ao redor do mundo evaporaram em questão de minutos — um frenesi que se repetiu no Brasil para as apresentações no estádio do MorumBIS, em São Paulo. É exatamente na esteira desse terremoto saudosista que se posiciona o documentário Don’t Look Back in Anger, uma produção original do Disney+ que ganha exibições especiais nas salas de cinema antes de aportar no catálogo do streaming.

Contudo, apesar do título carregar a força mítica do clássico pinçado do álbum (What’s the Story) Morning Glory?, o longa passa longe de ser um ensaio psicanalítico ou uma investigação honesta sobre os anos de racha e o doloroso processo de reconciliação. A câmera prefere fixar o olhar no mito coletivo do Oasis nos anos 1990, traçando uma linha paralela entre o auge do fenômeno no Reino Unido e a resposta passional dos fãs ao redor do planeta. Há um apelo estético consciente nessa escolha: o uso do formato 4:3 nas filmagens contemporâneas busca criar uma ilusão de continuidade temporal com as fitas de arquivo VHS. Entre registros de ensaios e bastidores da Live ’25, a narrativa dá voz a depoimentos viscerais de admiradores — como o de uma fã brasileira para quem as composições melodramáticas de Noel Gallagher serviram de refúgio contra o isolamento na adolescência.
O histórico de contendas e a surpresa da imprensa internacional diante da volta até ganham pauta, mas recebem um tratamento curiosamente higienizado. Traumas fundamentais da mitologia da banda — como a lendária discussão no camarim francês em que Liam reduziu o violão do irmão a estilhaços, selando 15 anos de provocações ácidas via imprensa — são citados quase de passagem, sem a devida autópsia. Até mesmo a nova e fascinante dinâmica familiar entre os irmãos surge de forma superficial: ficamos sabendo que os filhos de Noel e Liam, primos que jamais haviam se cruzado, viraram grandes amigos, e que os ex-inimigos mortais agora trocam vídeos bem-humorados por mensagem. Falta, porém, o estofo crítico para expor como se deu a travessia do ódio visceral para essa convivência pacificada.

No papel, Don’t Look Back in Anger tinha o potencial de ser para o Oasis o que Some Kind of Monster foi para o Metallica: uma radiografia brutal de lavagem de roupa suja, traumas acumulados e egos expostos. Mas os Gallagher optaram pelo caminho seguro da autocelebração. O filme prefere atestar como o catálogo da banda não apenas resistiu ao tempo, mas expandiu sua relevância cultural ao longo das mais de três décadas transcorridas desde Definitely Maybe (1994). Para a comunidade de devotos, testemunhar os primeiros registros oficiais da turnê de reencontro — com direito a passagens eletrizantes registradas no MorumBIS — é um prato cheio. Já para quem buscava entender a complexa anatomia da queda e da redenção dos maiores arquitetos do pop noventista, a produção pode soar como uma oportunidade desperdiçada em nome de uma boa peça de relações públicas.












