Trecho de “Ratos e estrelas habitam o mesmo universo”, de Ivy Menon

Ivy Menon, 68 anos, nasceu em Cornélio Procópio (PR) e escreve poesia, crônicas e contos. Foi boia-fria até os vinte anos, período em que se aproximou da literatura por meio dos clássicos disponíveis nas bibliotecas da escola e da Prefeitura Municipal. É bacharel em Direito, com pós-graduação em Filosofia e Teoria do Direito, além de jornalista e teóloga. Mora em Rio Negro-PR. Publicou livros como “Matemática das Algemas” (2021, Camino Editorial), “Olhos de mandrágora” (2024, Editora Patuá), “Asas de terra e sangue” (2021, Editora Arribaçã), “Mar fechado Mar aberto”, em parceria com Angela Zanirato (Rizoma Projetos Editoriais), e “Ratos e estrelas habitam o mesmo universo” (Editora Patuá). 

***

Benzia-me cheia de nove-horas e deus-me-livre. Não incomodava me chamar MariAna, duas santas parede-meia. Cruzava os dedos a jurar coisinhas se sofria. O passado era-me, naquela época: “novidade assusta”, entretanto, estava doida por ela, me excitava. E dava-me a correr loucura pela praça, com os dois indicadores em riste, apontados para meu nariz. Pisava possibilidades, inquieta feito pássara a construir ninho. Receava gaiolas mais que a solidão do voo; a Morte não. No pescoço, patuás pendurados em correntes trançadas por ideais narcísicos ansiavam me enforcar. Há muito zanzava a me experimentar fora do corpo, por puro prazer. Ria a me presumir idiossincrasias.

Desanimada, do outro lado da cidade, no tempo em que ainda não conhecia Betina, regurgitei quitinete mobiliada, “minimalista”: cozinha planejada, mesa de jantar com quatro cadeiras, cama e colchões de molas ensacadas, mesa de cabeceira, abajur e armário embutido, todos de alto padrão. Adega com vinhos envelhecidos, refeições entregues na porta e pagas com cartão da empresa do pai. “Mariana aceitou de mãos-beijadas”, soube que diziam, exultantes, a me conceber infelicidade.

Workaholic, Cláudio, o pai, não parou de viajar pelo mundo a negócios, com o meu nascimento, sua única filha. Hippie, Nadja, a mãe, quase enlouquecera por causa dos sonhos repetitivos com as rosas-negras. Pensamentos intrusivos a lhe roubarem a alegria. A casa brilhava obsessão. Eu, fruto hipotético. Dinheiro e complacência nunca me deram forças – que se frise – também nunca fizera questão de me fadigar. Tudo à mão. Não aprendi a resolver conflitos. O cordão umbilical se estendia por onde quer que eu andasse. O mar se agigantava na praia particular, com deque de madeira de lei, que começava nos fundos da área gourmet do apartamento. A piscina olímpica me amansava os brios. Não tinha do que reclamar, quase acreditei.

Contudo, evadi-me de mim, de Nadja e Cláudio, meus pais e, a seguir, dos amigos de infância e do caralho a quatro que me lembrassem de quem eu não era ou fora. Até não suportar mais, represei descontentamento. Não havia como me revoltar contra a “perfeição”. Não podia assumir as neuroses ou as fraquezas deles. Não pretendia ser Cláudio ou Nadja. Melhor dormir até passado o meio-dia. Engolia-me o diário do subsolo e as memórias eram- me cárcere. Aspirava a inventar palavras, apaixonada pelos países que habitavam o país. E uma circunstristeza me invadia. Notívaga, a esperar que o mundo se acabasse em absinto e viagens alucinógena. De madrugada, me fervilhavam imperativos, nenhum categórico, todos urgência.  Urgência da mordida no pêssego de Causabom, ainda que a morte estivesse à porta. Na penteadeira, paleta de sombras coloridas purpurinadas, batons, corretivos, delineadores, perfume, francês – irresistível – atestavam minha identidade diferente da de Nadja, a mãe natureba. Post-its no espelho prendiam bilhetes que eu escrevia para ninguém.

Desde quando me assombrava o futuro? O presente imutável era o que me fazia medo. Jamais me acomodara ao olhar indolente de Cláudio ou à aceitação incondicional de Nadja. Circulava pela casa margeando paredes, a trombar com mandalas, filtros de sonhos, altares, velas e incensários. Pesadelos contabilizados, planilhas, livros de economia, extratos bancários, cartões de crédito e vales-presentes de lojas do shopping que se misturavam aos folders de retiros de yoga, meditação mântrica e tântrica. João-bobo, joguete, vazia de mim e deles. Pertencer-me? Desejo de me encontrar, talvez. Não construiria labirinto, nem esperaria por Teseu a meio-mastro. Ficaria longe do cais.

A incoerência me tomava conta, sempre que me deixava ser rede e acalanto, lua distante a influenciar marés ou lago de águas plácidas, prontos para a contemplação. De repente, profundezas a se confundirem, correnteza que arrasta entulhos e arrasa o que lhe impede a passagem. Ora toque de mãos, como carícia, ora me transmutava em corpos a digladiarem solidões. Naquelas horas não precisava conjecturar o fim, nem me imaginar Fênix. Passava rápido. A seguir, teimava em me tornar anagrama de Ariadne e desandava a estender novelos, completamente arrebatada por minotauros. Heróis não me eram imã. Alternavam-me bonança e tempestade, porém ninguém notava. Não daria em nada, trezentas e sessenta e seis vezes ao ano, eu me disse. 

Usufruía relutâncias, porém queria tudo simultânea e imediatamente, me deleitando em não-ser.

Um novelo de lã rolou da prateleira da sala me fez sonhar horizontes a serem explorados. O celular acusou vinte e duas horas, num céu sem lua. Breu. Um post-it bússola apontou o caminho: “Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.”

No outro dia conheceria Betina.

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