Crítica: Feito Pipa acolhe as dores e ilumina o Sertão

É tendência recorrente do cinema nacional observar o interior nordestino pela lente da aridez à dor. Em Feito Pipa (2026), contudo, o diretor Allan Deberton (Pacarrete) trilha o caminho inverso: encontra na aridez do Ceará um território fértil para a afeição, o brilho e a descoberta da própria identidade.

Escrito por André Araújo, o filme acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de quase 12 anos, sonhador e sensível, criado pela avó Dilma (Teca Pereira). Na beira de uma barragem que, pela seca, começa a revelar as ruínas de uma cidade submersa, o avanço silencioso do Alzheimer na avó ameaça a estabilidade de Gugu. Com medo de ser entregue aos cuidados do pai, Batista (Lázaro Ramos), com quem nutre um distanciamento carregado de não ditos, o garoto tenta esconder a condição da avó enquanto encara seu próprio amadurecimento.

O grande acerto do roteiro é recusar o maniqueísmo fácil. Batista não é desenhado como o antagonista caricato do pai inflexível; em vez disso, a composição delicada de Lázaro Ramos dá vazão a um homem com dificuldade em atravessar suas próprias travas para alcançar a linguagem afetiva do filho. Essa camada de humanidade constrói pontes valiosas entre os personagens e o espectador.

Ao mesmo tempo, o estreante Yuri Gomes entrega uma interpretação magnética. Seu olhar transita entre o receio e a vivacidade infantil de quem recusa o peso sufocante dos estereótipos. A química com Teca Pereira confere ao longa momentos de pura poesia visual e dramática.

Esteticamente, a direção de fotografia (Luciana Baseggio e Daniel Donato) usa a iluminação solar do Ceará não para ressaltar o castigo da terra, mas a beleza tátil das Ruínas e do tempo. A cidade submersa que reaparece funciona como uma metáfora precisa para memórias que emergem para resignificar o presente.

Sem recorrer ao melodrama apelativo, Feito Pipa se consolida como uma obra luminosa sobre afeto, acolhimento e a transição da infância para a descoberta de si. É um exemplar vibrante do cinema brasileiro contemporâneo, justificando plenamente o reconhecimento internacional que conquistou desde sua passagem pelos festivais.

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