As teses de que Elvis Presley não morreu não pararam de ganhar força nestes quase 50 anos da morte do Rei do Rock, uma vez que o vemos eternizado não apenas no audiovisual, mas também em seus diversos covers e imitadores ao redor do planeta. A perpetuação de seu legado foi possível, após a sua morte, por meio desses sósias que se esmeravam em reproduzir suas performances com o máximo de fidelidade.
Eis que, em 1998, a tecnologia permitiu algo então assombroso. Com gravações originais restauradas de Elvis cantando em seus concertos clássicos projetadas em um telão de LED, sua voz isolada com uma mixagem de ponta e o acompanhamento ao vivo de mais de 30 de seus antigos músicos de turnê e de estúdio da década de 1970 (incluindo membros da TCB Band e as backing vocals The Sweet Inspirations e J.D. Sumner & the Stamps), era criado o Elvis Presley In Concert. O show entrou para o Guinness World Records como a primeira turnê ao vivo a ser encabeçada por um artista falecido. O espetáculo contava com uma orquestra ao vivo (frequentemente a Memphis Symphony Orchestra) tocando os arranjos originais das músicas. Finalmente, Elvis rodava o mundo — algo que não conseguiu fazer em vida por conta de seu agente, o mítico Coronel Parker, um imigrante holandês ilegal que temia sair dos Estados Unidos e ser impedido de retornar.
Quatorze anos após a concorrida vinda do projeto ao Brasil, chega ao Rio de Janeiro a nova versão do show no Qualistage (com demais datas em outras cidades) mantendo a mesma configuração: Elvis in Concert Live On Screen. É exatamente o espetáculo concebido pelo Rei do Rock. Logo após a abertura com “Also sprach Zarathustra”, o astro “entra” em cena executando “Burning Love”; de fato, o efeito é de arrepiar. Com uma mixagem sonora incrível, aprimorada ao longo destes anos, a sensação é de que ele realmente está no palco junto com a banda. Quando ele agradece ao público, a reação das pessoas é nitidamente a de quem embarcou na ilusão do palco de que Elvis está entre nós.

A maior parte do espetáculo utiliza performances de seus shows dos anos 1970, como Elvis: That’s The Way It Is (1970), Elvis On Tour (1972) e Aloha from Hawaii (1973), o mais famoso. Há também momentos em que se utilizam gravações de estúdio, com imagens estáticas ou de arquivo projetadas no telão vertical posicionado no centro, focado no artista (os laterais exibem imagens da banda e do trio de backing vocals no palco, enquanto um retangular ao fundo exibe imagens diversas, de mosaicos a composições estáticas). “It’s Now or Never”, por exemplo, teve exibição de imagens do início da carreira. “Can’t Help Falling in Love” mostra fotos com a esposa Priscilla, com a filha Lisa Marie e a família reunida. “Love Me Tender” exibe o momento em que a música é encenada no filme homônimo de 1956. Já “All Shook Up”, “Blue Suede Shoes” e “Memories” formaram um set tirado do famoso NBC TV Special, de 1968.
A banda no palco é impecável, seguindo à risca o que era definido por Elvis em vida. Ao contrário da turnê de 1998, não temos aqui todos os integrantes que fizeram parte da TCB Band entre 1969 e 1977. Apenas o baixista Jerry Scheff ainda está presente na formação; no entanto, ele cancelou sua participação em cima da hora (por conta de divergências e violações em acordos contratuais alheias ao seu controle). Seu substituto desempenhou a função a contento, inclusive em “Suspicious Minds”, que possui uma linha de baixo particularmente difícil, transitando entre diferentes dinâmicas e até mudanças de compasso. Também merece destaque o trio de backing vocals, que consegue reproduzir de forma satisfatória os corais que acompanhavam os shows de Elvis. E vale notar que nenhuma apresentação dos músicos foi feita durante o espetáculo.
Elvis in Concert Live On Screen cumpre a promessa de dar ao público um gostinho de como seria assistir a um show de Elvis Presley. Na plateia, pessoas de todas as idades, desde fãs da época até os que não eram nascidos quando o astro (supostamente, para alguns) morreu. Em tempos nos quais já foram vistas todas as tentativas de ressuscitar lendas da música já falecidas — seja em holograma ou como avatares em CGI, no caso do ABBA e no vindouro projeto do Kiss —, ficou provado que a experiência pioneira de Elvis ainda é a mais eficaz, não à toa rodando o mundo há quase 30 anos. E o Qualistage, no Rio, teve sua noite de palco de Las Vegas.
