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Amor Bandido ou Amar – Verbo Intransitivo

O diretor Jeff Nichols vem chamando atenção desde o início de sua carreira, com o filme Shotgun Stories. Em 2011, lançou Take Shelter (O Abrigo), um belíssimo filme, com suas imagens amplas (em CinemaScope) que souberam explorar bem as paisagens naturais e urbanas que rodeavam o personagem de Curtis, interpretado por Michael Shannon. Um filme estranho por não se encaixar propriamente em nenhum gênero. Flerta com o filme de terror, com o suspense psicológico ou com o drama familiar. O que realmente importa é que sabe construir sua narrativa ao redor de diálogos simples e diretos e sons e imagens que, misturando sonho e realidade, criam um clima de instabilidade e angústia, como há muito eu não presenciava no cinema. Jeff Nichols sabe buscar no espectador a cumplicidade para com seus personagens.

Agora, neste novo filme, Amor Bandido (MUD), o diretor explora seu lado mais aventureiro numa trama pseudo infanto-juvenil que flerta com clássicos como Os Gonnies e Conta Comigo, porém, ao invés de ter como foco desvendar um mistério ou achar um tesouro, os personagens fazem tudo em nome do amor.

O olhar que nos guia durante todo o tempo é o de Ellis, um adolescente de 14 anos, que vive numa casa na beira de um Rio, no interior dos Estados Unidos, com seus pais, que parecem estar em vias de se divorciar. Ele e seu melhor amigo, Neckbone, são as vozes da razão e do coração, são os sentidos do espectador. É através de seu entendimento do que é justo ou não, que compreendemos as escolhas dos personagens. Aos 14 anos, esses meninos estão começando a sentir as pontadas do interesse pelo sexo oposto. Mas diferente do que se poderia pensar, tendo como base o panorama adolescente atual das grandes cidades, o protagonista não tem uma visão efêmera ou rasa desse sentimento. Ele enxerga o amor de maneira simples e objetiva, mas plena e quase sagrada. Como um verbo intransitivo. Como um fato, uma verdade. Nada em volta interessa.

Por isso, passa por dificuldades ao longo do filme quando percebe que existem contradições em torno deste tema – tem que enfrentar a rejeição de uma menina que às vezes se aproxima e outras se envergonha de sua presença, ou a separação iminente de seus pais, que por tanto tempo disseram “eu te amo” todos os dias, ou eventualmente, e mais dolorosamente, pois será o ponto culminante de seu aprendizado, percebe que o amor é frequentemente afetado pelas circunstâncias – financeiras, de desgaste, de temperamento, de idade ou de momento –  que o amor não se basta.

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O universo escolhido favorece o tipo de ingenuidade, de solidariedade e de senso de aventura dos personagens. Fico com a impressão que somente no interior, onde esses meninos não têm acesso à internet, onde a forma de diversão é montar sua própria moto, andar de barco ou pescar, esses valores ainda poderiam ser tão intocados, tão preciosos, como as pérolas que o Tio de Neckbone coleta no rio. Só neste lugar, estas pérolas são usadas não como fonte de riqueza, mas presentes para conquistar mulheres, somente lá esse menino de 14 anos não se sente ameaçado por um garoto 3, 4 anos mais velhos e segue seu impulso de dar-lhe um soco na cara. A ostentação, o medo e futilidade perdem lugar para a honra, a dignidade e a amizade.

Mais uma vez, Jeff Nichols utiliza a visão ampla e panorâmica do cinema com maestria através do CinemaScope. O mundo é muito importante nesse filme, seja o mundo natural, caracterizado pelo misticismo, que chama ao desbravamento e ao mergulho, seja o mundo urbano, caracterizado como um local frio, da ameaça, dos perigos e das contradições, com suas construções de concreto, suas estradas vazias, e seus homens de preto e gel no cabelo. Por isso, a dimensão da imagem assume proporções fundamentais ao contar essa história, de perda da inocência, e ganho de horizonte. Nesse sentido, me lembrei um pouco de um filme de Nicholas Ray, Jornada Tétrica. A natureza que assume ambos os sentidos do mundo selvagem de florestas, rios e animais e do lado instintivo do homem. Um lugar em que o entendimento de moral se perde e ganha novos significados a partir da experiência.

É preciso se perder para se encontrar. É preciso sofrer para saber identificar a profunda alegria. A vida é o estandarte. A aventura no seu sentido mais realista. Ter coragem de se entregar, de viver intensamente.

No fim das contas, o filme te deixa escolher o que sentir. A perda da inocência e a entrada para o mundo das aparências e hipocrisias, ou a experiência como uma possibilidade infinita e constante de mudança.

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