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As Troianas e seus 20 anos de palco

Com direção de Zé Henrique de Paula e direção musical de Fernanda Maia, o musical situa a tragédia de Eurípedes ao contexto de um presídio feminino em São Paulo durante a Ditadura Militar. Estreia acontece na sede do grupo no dia 18 de agosto

Para festejar suas duas décadas de sucesso, o Núcleo Experimental revisita seu celebrado espetáculo As Troianas, que estreou em 2009, foi indicado aos prêmios Shell, da Cooperativa Paulista de Teatro e Quem em diversas categorias e teve várias temporadas lotadas. Desta vez, a remontagem estreia no dia 18 de agosto na sede do grupo na Barra Funda, e fica em cartaz até 7 de outubro, com sessões às terças e quartas, às 20h.

O espetáculo tem adaptação e direção de Zé Henrique de Paula, direção musical, composições e arranjos de Fernanda Maia e traz no elenco Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi , Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards.

A primeira versão de As Troianas foi inspirada pela obra homônima de Eurípedes, que foi escrita em 415 a.C., em Atenas, e era parte de uma trilogia dedicada  à guerra de Tróia da qual as outras obras (Alexandros e Palamedes) se perderam, restando apenas fragmentos. 

Na obra original, após a destruição de Tróia, as mulheres da cidade – Hécuba, Andrômaca, Cassandra e as demais troianas – enfrentam a perda, a escravidão, o luto e o exílio impostos pelos vencedores gregos. Privadas de seus lares e de suas famílias, elas testemunham o fim de sua pátria e resistem apenas com a força da palavra e da dor compartilhada. 

Escrita pouco depois do brutal ataque a Melos, em que Atenas mataria praticamente todos os homens em idade adulta e escravizaria as mulheres, a peça é vista como uma denúncia política não apenas dos crimes na mítica Tróia, mas também na época em que viveu o autor. Eurípides dá voz às mulheres silenciadas pela guerra, revelando sua dignidade, coragem e humanidade diante da violência e da arrogância dos conquistadores.

Já em sua montagem em 2009, o Núcleo Experimental recontextualizou a tragédia em um campo de concentração situado na Polônia, às vésperas do final da Segunda Guerra. As personagens femininas se expressavam somente através do canto, que representava um território de segurança, afeto e preservação de memória para aquelas mulheres. Uma pesquisa sobre canções oriundas de povos e/ou etnias de refugiados definiu o repertório cantado pelas atrizes. 

Presídio Tiradentes, 1972.

A partir da decretação do infame Ato Institucional n.5, em dezembro de 1968, o Brasil entrou na fase mais sombria e violenta da ditadura militar que havia tomado o poder à força em 1964. Liberdades individuais e políticas estavam soterradas, o Congresso dissolvido.

 Os famosos “porões da ditadura” torturavam e matavam todos aqueles que esboçassem qualquer tipo de dissidência. Em São Paulo, na Avenida Tiradentes (onde alguns anos depois seria inaugurada a estação de metrô de mesmo nome), um presídio construído no século XIX servia de carceragem para os presos políticos que sobreviviam às torturas do DOPS e do DOI-CODI. No centro do prédio, uma torre. E nela, as mulheres presas pela ditadura. A ala feminina do presídio conhecida como Torre das Donzelas.

As Troianas – música nas trevas revisita uma vez mais o texto de Eurípides, agora à luz desse capítulo triste da história do Brasil: a violência de Estado promovida pela ditadura militar contra as cidadãs brasileiras, tendo como inspiração o livro “A Torre: O cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura”, de Luiza Villaméa. Ambientada na Torre das Donzelas, a ação da peça ganha novos contornos e significados, especialmente a questão feminina. 

Na tragédia de Eurípides, Tróia está destruída e as mulheres sobreviventes tornam-se espólios do vencedor e representam uma população civil subjugada, silenciada e despojada de qualquer direito jurídico ou político. O poder militar grego legitima o sequestro, o exílio forçado, a separação de mães e filhos e o estupro como extensão “natural” da vitória. A barbárie não é política oficial. 

De modo análogo, na ditadura militar o regime instaurou uma estrutura sistemática de controle e punição, que atingiu amplamente as chamadas “categorias desviantes” ou “ameaçadoras” à ordem: militantes, trabalhadores, estudantes, artistas, intelectuais e, de maneira específica, as mulheres.

Assim como as troianas, muitas militantes foram atingidas não apenas por suas posições políticas, mas por aquilo que representavam simbolicamente. Eram frequentemente submetidas a torturas que exploravam o corpo feminino como instrumento de humilhação e disciplina: violência sexual, ameaças contra filhos, insultos misóginos e a tentativa constante de reduzir sua atuação política a uma “anomalia moral”. A repressão compreendia que atingir o corpo da mulher era uma forma eficaz de atingir a coletividade.

Há ainda um paralelo profundo no silenciamento da voz feminina. Quando mulheres denunciavam prisões ilegais, desaparecimentos e torturas (como fizeram mães, esposas e filhas de presos políticos), suas vozes eram sistematicamente deslegitimadas pelo Estado. A dor feminina era convertida em ruído incômodo, nunca em prova. O lar era invadido, as famílias desmembradas, os filhos eram assassinados ou sequestrados, e a maternidade tornava-se lugar de luto e impotência.

O encontro entre As Troianas e a Torre das Donzelas expõe regimes que se sustentam pela violência, pela desumanização do outro e pelo controle dos corpos – especialmente os corpos femininos – como forma de manutenção do poder. Revisitar essa tragédia hoje é um gesto de memória, denúncia e resistência.

As Troianas – por Fernanda Maia 

“Inspirada por artistas que transformaram a música em instrumento de denúncia e esperança, a composição incorpora referências da canção de protesto brasileira e latino-americana, evocando a força poética de compositoras e compositores que enfrentaram regimes autoritários por meio da arte.

A trilha dialoga com a tradição da canção latino-americana, especialmente com os artistas que transformaram a arte em instrumento de memória, denúncia e resistência. Estão presentes ecos da Nueva Canción Latinoamericana, movimento que encontrou na música uma forma de enfrentar a censura e a opressão, assim como referências à canção popular brasileira produzida durante os anos de chumbo. Mais do que citações musicais, essas influências aparecem como parte de uma mesma linhagem de artistas que compreenderam a canção como espaço de reflexão coletiva e construção de identidade.

O coro feminino, elemento fundamental da tragédia de Eurípides, é reinterpretado como uma comunidade de mulheres privadas de liberdade, que encontra na voz coletiva uma forma de preservar sua humanidade. O coro não é apenas observador dos acontecimentos; ele é a voz da comunidade. Nesta montagem, essa voz coletiva é formada por mulheres encarceradas que compartilham medos, lembranças, revoltas e esperanças. Suas canções oscilam entre a delicadeza e a indignação, entre a memória do mundo perdido e a determinação de seguir vivendo.

Mais do que ilustrar a ação dramática, a música funciona como testemunho. Ela dá voz às ausências, às perdas e aos sonhos interrompidos, mas também à capacidade de reconstrução das mulheres diante da violência do Estado, reafirma a arte como território de resistência e de preservação da memória, lembrando que, em qualquer época, cantar pode ser um ato profundamente político”.

Ficha Técnica

Elenco: Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards

Adaptação e direção: Zé Henrique de Paula

Direção musical, composição (letras e música) e arranjos: Fernanda Maia

Direção de movimento: Gabriel Malo

Assistência de direção:  Anne Beatriz e Davi Tápias

Cenografia e figurinos: Zé Henrique de Paula

Assistência de figurinos: Ana Beatriz Trucharte

Desenho de luz: Fran Barros

Desenho de som: João Baracho

Preparação vocal: Rafa Miranda

Produção: Rebeca Reis

Design gráfico: Laerte Késsimos

Foto e vídeo: Pedro Veras (A Casa que Fala)

Redes sociais: 1812 Comunicação

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Realização: Núcleo Experimental – 20 anos

Estagiários: Anne Beatriz e Giovana Sassi (direção), Lilian Pessoa e Vitória Martin (cenário e figurino), Juju Bac ( som / produção), Eduardo Santos (produção), Fernanda Franca( Produção), Rafael Castro (som), Joaquim Ornelas (iluminação), Mafe Wagapoff (iluminação)

Sinopse:

Tróia foi destruída. Suas mulheres, Hécuba, Andrômaca, Cassandra e as demais troianas aguardam o exílio, a escravidão e a separação de seus filhos, impostos pelos vencedores gregos. É essa tragédia, escrita por Eurípides há mais de dois mil anos, que o Núcleo Experimental encena para celebrar seus 20 anos de palco.

Mas o cenário não é a Grécia Antiga: é a Torre das Donzelas, ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo, 1972. Onde a ditadura militar brasileira encarcerava mulheres por sua militância política. A montagem cria um paralelo direto entre o destino das troianas e o das presas políticas, subjugando o corpo e a voz das mulheres através da tortura, do silenciamento e do apagamento de suas histórias.

O paralelo vai além do texto. Na vida real, as presas da Torre das Donzelas chegaram a montar uma peça de teatro dentro da cela. Encenar, ali, era uma maneira de continuar existindo, de não se deixar apagar pelo regime. É esse gesto, o teatro como sobrevivência e resistência, que a peça do Núcleo Experimental recupera e homenageia ao trazer As Troianas para dentro da Torre.

O coro, elemento fundamental da tragédia grega, transforma-se na voz coletiva dessas mulheres, que cantam para preservar memória, afeto e humanidade diante da violência. Inspirado no livro A Torre, de Luiza Villaméa, o espetáculo é, ao mesmo tempo, tragédia grega e denúncia histórica. Um lembrete de que, em qualquer época, dar palco à dor de mulheres silenciadas é um ato profundamente político.

Serviço

As Troianas

Temporada: 18 de agosto a 7 de outubro de 2026*

Às terças e quartas-feiras, às 20h

*Todas as sessões serão seguidas por um bate-papo com elenco

Teatro do Núcleo Experimental  – Rua Barra Funda, 637, Barra Funda, São Paulo

Ingressos: R$40 (inteira) e R$20 (meia-entrada)

Venda online via Sympla

Classificação: 12 anos

Duração: 90 minutos

Capacidade: 65 lugares

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