A Dupla Companhia, de Tatuí (SP), comemora sua primeira década de existência com a estreia de Por Trás do Céu, espetáculo que inaugura a Trilogia do Trabalho, um novo ciclo de criação dedicado às histórias, símbolos e afetos daqueles que sustentam o Brasil invisível — trabalhadores rurais, cortadores de cana, populações interioranas, figuras que atravessam a História, mas raramente são nomeadas por ela. P
O espetáculo, a partir da obra original de Caio Sóh, tem direção e adaptação de Inês Peixoto (integrante do Grupo Galpão) e traz no elenco Rafaele Breves, Lucas Gonzaga, Victor Mota, Gabriela Carriel, Ismênia Leão e Miranda Gonçalves.
Sobre o convite para dirigir a montagem, Inês Peixoto diz: “Encontrar a Dupla Cia de Tatuí está sendo uma oportunidade de experimentar um processo criativo com um coletivo de teatro radicado numa cidade que possui um conservatório, que fomenta um movimento artístico potente no interior de São Paulo, formando músicos e atores”.
A montagem conduz o público a um sertão imaginário, território poético onde realidade e fantasia convivem lado a lado. É ali que vive Aparecida, mulher que coleciona restos de sucata para construir um foguete — um gesto impossível e, ao mesmo tempo, verdadeiro. Em busca do que existe “por trás do céu”, Aparecida reinventa o próprio destino numa jornada marcada por humor, lirismo, desamparo e esperança.
“Por Trás do Céu é um texto que com poesia e humanismo nos conduz pelo universo particular de uma família de cortadores de cana. Uma família formada por Aparecida, uma mulher que apesar do sofrimento e da exploração deseja viver a vida para além do quê o destino reservou para ela; Xurunka, uma jumentinha de estimação de Aparecida, que observa o correr do tempo com grande sabedoria; Edvaldo, um homem ofendido que carrega ódio dentro de si; Micuim, um amigo do casal que possui ingenuidade, leveza e perspicácia na lida com a dura vida que leva; Valquíria, uma estranha forasteira que chega no lugar, fugida da violência e da prostituição na beira de estradas”, comenta a diretora.
A encenação de Inês Peixoto costura elementos do circo-teatro e do realismo fantástico, criando uma atmosfera que evoca o tecido cultural do interior paulista e as mitologias afetivas de quem vive do trabalho da terra. Já a direção de arte de Márcio Medina transforma a cena em um espaço de imaginação compartilhada, na qual materiais simples, canas e texturas evocam tanto o campo quanto o sonho.
“A direção de arte de Márcio Medina cria como chão um pequeno relógio-mundo, onde os dias e as horas são bem marcados pelo sol intenso e a lua cheia. Um mundo de escassez, onde somente nos é dado a ver o essencial.Um espaço mítico onde nossos personagens entram e saem da fábula, um espaço cercado por estruturas que remetem à imponência dos canaviais. Nossa estética dialoga com as sobreposições, em que as combinações acontecem por aquilo que é possível ter e não pelo o que se quer ter”, acrescenta Peixoto.
A obra também marca o início de uma nova etapa da Dupla Companhia. Se a Trilogia da Memória revisitava o passado como modo de reconhecer as vozes que nos antecedem (As Três Marias, Nise em Nós – uma ode ao delírio e Laudelina), a Trilogia do Trabalho desloca o olhar para aqueles que, no presente, ainda permanecem invisíveis — um gesto de escuta, reparação e invenção simbólica.
Em cena, os artistas dão vida a figuras que habitam esse sertão metafórico, revelando camadas de humor, dureza e fabulação. A música original e a direção musical de Ernani Maletta criam uma paisagem sonora que transita entre o ritual, o canto popular e a pulsação do trabalho.
O espetáculo se ancora na relação profunda da Dupla Companhia com Tatuí e com o interior do Estado de São Paulo. É dessa terra, de suas memórias e dos corpos que a habitam, que nasce uma dramaturgia que questiona o país que somos e o país que ainda desejamos ser.
Apesar das dores do mundo, Por Trás do Céu flerta com o humor, resultando em momentos tragicômicos durante toda a encenação. “Como diretora, meu grande interesse está em saber escutar os atores e a equipe, apurando a orquestração de todas as fagulhas criativas que possam aparecer, inclusive as minhas. Criar uma cena em que todos os envolvidos no processo se reconheçam. E se entreguem para o movimento de constante elaboração, porque o teatro é isso, um lugar onde os atores têm a possibilidade de estar em estado de permanente descoberta e reinvenção”, revela a encenadora.
Ficha Técnica
Elenco
Aparecida: Rafaele Breves
Micuim: Lucas Gonzaga
Edvaldo: Victor Mota
Valquíria: Ismênia Leão / Gabi Carriel
Xurunca: Miranda Gonçalves
Direção e Adaptação: Inês Peixoto
Obra original: Caio Sóh
Diretor Assistente: Lucas Gonzaga
Direção de Arte: Márcio Medina
Direção Musical e Composições: Ernani Maletta
Iluminação: Rodrigo Marçal
Visagismo: Claudinei Hidalgo
Preparação Corporal: Paz no Forró
Assistente de Direção Musical: Victor Mota
Assistente de Cabelo e Maquiagem: Pedro Torriani
Assistente de Iluminação e Operação de Luz: Giuseppe Tomazela
Assistente de Cenografia e Confecção das Canas: Flávio Pires
Assistente de Figurinos e Modelista: Cristian Lourenço
Costureiras: Marcilene Máximo e Aparecida Correia
Pintura Cenográfica: Jamaira Pacheco e Santiago Panichelli (Drom)
Tapeçaria e Costura de Cenário: Enrique Casas
Direção de Produção e Idealização: Lucas Gonzaga
Produção Executiva: Miranda Gonçalves
Assistente de Produção: Helena Bitencourt
Fotografia: Rodrigo Costa
Sinopse
Em um sertão imaginário onde a terra guarda cicatrizes de trabalho, fé e sobrevivência, vive Aparecida — uma mulher que se recusa a aceitar a dureza do destino como sentença. Forjando, com pedaços de sucata, um foguete que só ela consegue enxergar inteiro, Aparecida alimenta o sonho de alcançar o que chama de “o mundo por trás do céu”. A partir da adaptação e direção de Inês Peixoto para a obra de Caio Sóh, o espetáculo costura realismo fantástico, cultura popular e o imaginário dos trabalhadores do interior do Brasil. A encenação cria uma paisagem cênica onde poesia e brutalidade convivem lado a lado. Em cena, os encontros de Aparecida com figuras que compõem o universo simbólico dos cortadores de cana — Micuim, Edvaldo, Valquíria e Xurunca — revelam afetos, exaustões e lampejos de esperança que atravessam gerações. Primeiro capítulo da recém-inaugurada Trilogia do Trabalho, que sucede a Trilogia da Memória da Dupla Companhia, “Por Trás do Céu” ilumina os esquecidos que movem o mundo. Um convite para que o público revisite seus próprios sonhos impossíveis — e reconheça, na obstinação de Aparecida, a força que sustenta a vida mesmo quando tudo parece faltar.
Serviço
Por Trás do Céu, da Dupla Companhia
Pré-Estreia: 8 e 9 de dezembro de 2025
Temporada de Estreia: 15 a 20 de dezembro de 2025
Horário: sempre às 19h30
Colégio Objetivo de Tatuí – Rua Prof. Oracy Gomes, 665 – Centro – Tatuí/SP
Ingressos: Gratuitos (retirada pelo Sympla)
Capacidade: 40 lugares
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos









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