Nelly Gutmacher série Like a Virgin
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Absoluto Falho na Casa de Cultura Laura Alvim

Exposição de Nelly Gutmacher reúne séries produzidas desde a década de 70

Deusas gregas emergem andróginas das profundezas do oceano. Vênus dotadas de falos revelam-se hermafroditas. Fragmentos moldados no corpo dão origem a esculturas em cerâmica, metal e pó de pedra. Vulvas em diferentes formatos e cores fazem alusão à História da Arte e ao ícone pop Madonna. Colagens e fotomontagens ecoam influências do cenário social em que foram criadas, da década de 70 aos dias atuais. Este recorte da carreira de Nelly Gutmacher, 81 anos, foi reunido em “Absoluto Falho”, revelando toda a inquietude fértil que permeia a carreira da artista. Sua individual, sob curadoria de Marcus de Lontra Costa e Rafael Fortes Peixoto, inaugura no dia 14 de março, segmentada entre quatro séries que ocupam o segundo andar da Casa de Cultura Laura Alvim, tendo como cerne principal o questionamento de gênero, abalizando diferentes momentos históricos desta trajetória, iniciada na década de 60. 

“’Absoluto Falho’ aborda as questões de corpos e gêneros, apontando uma provocação poética no surgimento de novas identificações e de um futuro mais plural. Reunindo obras de diversos períodos da produção da artista, a mostra parte de inspirações em formas elementares e narrativas mitológicas para repensar as estruturas binárias que ainda fundamentam as nossas sociedades”, avalia Marcus Lontra.

Abrindo a exposição e resgatando imagens e formas que habitam o inconsciente coletivo, os curadores apresentam uma série de colagens analógicas já ambientalizando o espectador num espaço de referências estéticas, históricas e poéticas onde toda a criação artística de Nelly acontece. “Nas salas ocupadas pela mostra, monta-se uma narrativa não-linear onde a artista constata a obsolescência das definições entre homem e mulher e provoca sobre o aparecimento de novas formas de vida híbridas, nascidas da lama profunda do oceano”, diz Rafael Fortes Peixoto.

Espaço expositivo

A proposta de Nelly Gutmacher é a de provocar novos e múltiplos olhares, investigando (e instigando) questões relativas aos gêneros, aos corpos e à sexualidade. Na sala de entrada, apresenta colagens e fotomontagens que produziu desde a década de 70, em plena ditadura, até 2021, através de uma perspectiva onírica e intimista; no salão central, estão expostas séries que se relacionam com uma espécie de arqueologia criada pela artista, como as “Hermafroditas” dos anos 1980, pequenas esculturas em porcelana, bronze e metal que seriam facilmente confundidas com as Vênus do período Neolítico, não fosse por um detalhe: todas são dotadas de falos. A sala lateral, separada por uma cortina do resto da exposição, divide-se em duas séries distintas, de diferentes épocas, em que Nelly parte de seu próprio corpo para a criação do corpo artístico externo e simbólico. Na primeira série, “Fragmentos”, realizada aos longo dos anos 1970 e 80, a artista moldava seu próprio corpo, propondo intervenções materiais. Já na série “Like a Virgin”, criada por Nelly aos 80 anos, mostra vaginas em diferentes formatos e cores, com citações tanto à História da Arte, com Courbet e Man Ray, como ao ícone do pop e do “Pussy Power”, Madonna. Na sala frontal, que conta com um grande vidro e com a vista da praia de Ipanema, Nelly apresenta as obras da série “Tálassa”, a mais recente (2022 e 2023), propondo o surgimento de seres andróginos e multigêneros que surgem da lama do fundo do oceano, em um montagem que mistura instalação e esculturas criadas por ela em cerâmica e resina. 

Saiba mais sobre Nelly Gutmacher

Filha de imigrantes judeus, Nelly Gutmacher possui formação junguiana e interesses como mitologia e arquétipos. Natural do Rio de Janeiro (1941), começou sua trajetória na década de 1960, com Ivan Serpa, no MAM-RJ. Nos anos 1970, frequentou diversos ateliês experimentando técnicas e materiais. Nessas vivências teve contato com Celeida Tostes, com quem dividiu ateliê e estabeleceu uma relação de cumplicidade poética, introduzindo na cerâmica a temática feminina no Brasil, ao longo de 1970, tendo atuado em vários suportes com diferentes técnicas, sempre de forma pulsante e conduzindo o público por questões que transcendem o mero simbolismo. Na década de 1980, passou a dar aulas no Parque Lage e, no mesmo período, investigou a experimentação artística como processo terapêutico, aprofundando-se nas questões psicanalíticas que passam a influenciar sua produção. Em paralelo à prática artística, atuou também como terapeuta, numa trajetória semelhante à de Lygia Clark. Nas décadas seguintes, como elaboração conceitual, o corpo e as formas orgânicas estruturam suas obras e articulam-se sobre os conceitos de gênero, sexualidade e erotismo através de referenciais arquetípicos e ancestrais, sendo pioneira no Brasil na abordagem desses temas e aproximando-se de importantes nomes da escultura como Louise Bourgeois e Maria Martins.

Serviço

ABSOLUTO FALHO – Nelly Gutmacher

Curadoria de Marcus de Lontra Costa e Rafael Fortes Peixoto

Local: Casa de Cultura Laura Alvim

Endereço: Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema – RJ

Abertura: dia 14 de março, às 19h

Visitação: de 15 de março a 7 de maio de 2023

Funcionamento: de segunda a sexta, das 13h às 22h

Entrada gratuita

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