AgendaArtes Visuais

Concretismo brasileiro em diálogo com nomes contemporâneos 

Sérgio Fingermann, O Espaço da Pintura 20, 2023, Óleo sobre tela, 180 x 180 cm

José Spaniol, O descanso da sala #3, 2006/2026, Objeto de madeira, 210 x 115 x 45 cm

José Roberto Aguilar, Cadeira de Van Gogh transportada para o Multiverso nº 7, 2026, Acrílica e esmalte sobre tela, 209 x 419 cm

O espaço e o lugar, nova exposição da DAN Galeria Interior, abre no próximo sábado com curadoria de Fábio Magalhães e expografia do Fernando Poles Arquitetos. A mostra reúne 75 obras e propõe uma leitura sobre a maneira como o espaço se transforma em lugar quando passa pelo corpo e pela memória. A cadeira, presente em diferentes trabalhos, conduz essa investigação: objeto cotidiano, medida humana, ponto de repouso, marca de intimidade e também abertura para uma dimensão mais ampla, ligada ao tempo e ao espaço. A partir desse eixo, Fábio Magalhães aproxima obras de Adolfo Estrada, Almir Mavignier, Dionísio Del Santo, Ferreira Gullar, Gonçalo Ivo, José Roberto Aguilar, José Spaniol, Sergio Fingermann e Valentino Fialdini. O percurso articula pinturas, objetos, obras geométricas e abstratas em torno de uma pergunta central: como uma situação privada pode conter uma ideia de mundo? 

O núcleo que envolve Ferreira Gullar introduz essa questão de forma direta. Em Poemas Espaciais, conjunto de nove peças em pintura sobre madeira, a obra se constrói na relação entre estrutura e leitura no tempo. Cada peça propõe uma situação que articula superfície, gesto e percepção. O espaço se desdobra em duração. É a partir desse campo que a presença da cadeira ganha densidade. Na obra de José Roberto Aguilar, a cadeira de Van Gogh aparece deslocada dentro da pintura. A referência passa pelas duas telas realizadas em 1888: sua própria cadeira, com o cachimbo, e a cadeira de Gauguin, com livros e um castiçal aceso, analisadas por Georges Bataille no ensaio “A mutilação sacrificial e a orelha cortada de Van Gogh”. Nessas duas imagens, o pintor estabelece uma diferença entre modos de presença: uma ligada ao cotidiano, outra à espera e a uma dimensão mais simbólica. Ao serem retomadas por Aguilar, essas imagens entram em outro regime. A cadeira permanece como ponto de ancoragem, enquanto o espaço pictórico se expande ao redor, aproximando o objeto de uma escala cósmica. 

De acordo com o curador, essa passagem entre o íntimo e o ilimitado acompanha uma ideia antiga: o desejo humano de alcançar o que excede a própria condição. Na Epopeia de Gilgamesh, essa busca pela permanência atravessa a experiência do tempo. Aqui, ela se vincula ao espaço — ao modo como o corpo se situa e projeta sentido. Espaço, tempo e lugar se articulam. “Uma coisa está dentro da outra”, observa Fábio Magalhães. A partir daí, as obras se articulam em torno dessa continuidade. O maior conjunto da exposição é de Dionísio Del Santo, com cerca de 30 obras, em diálogo com trabalhos de Almir Mavignier, nos quais a imagem se organiza como uma constelação, em que repetição e variação produzem uma expansão contínua do campo visual. Em Gonçalo Ivo, a cor sustenta a pintura. Sergio Fingermann trabalha com uma imagem em instabilidade constante. José Spaniol desloca a cadeira para o campo simbólico, alterando sua percepção como objeto cotidiano e inserindo-a em uma dimensão de movimento. Adolfo Estrada e Valentino Fialdini aproximam a geometria de uma condição aberta, sem fechamento definitivo. A continuidade entre interior e exterior atravessa esse conjunto. 

A expografia, assinada pelo Fernando Poles Arquitetos, entra nesse mesmo campo. O escritório foi convidado a desenvolver uma leitura arquitetônica que participa da definição do conjunto. Um túnel atravessa o espaço da galeria e conecta dois momentos da mostra. A travessia altera a percepção, estabelece um ritmo e reorganiza a relação entre corpo e obra. A arquitetura reforça a passagem entre escalas que sustenta a exposição. 

SERVIÇO 
O espaço e o lugar 
Artistas: Adolfo Estrada, Almir Mavignier, Dionísio Del Santo, Ferreira Gullar, Gonçalo Ivo, José Roberto Aguilar, José Spaniol, Sergio Fingermann, Valentino Fialdini 
Curadoria: Fábio Magalhães 
Expografia: Fernando Poles Arquitetos. 
Abertura: 9 de maio de 2026, sábado, das 10h30 às 15h
Período expositivo: até 10 de outubro de 2026 
Visitação: segunda a sexta, das 10h às 18h; sábados, das 10h às 13h 
Local: DAN Galeria Interior 
Endereço: Av. Ireno da Silva Venâncio, 199, Galpão 20 – Protestantes, Votorantim, SP 

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