Existe um tipo raro de jornalista que consegue transformar a pressa do cotidiano em registro histórico permanente. Zuenir Ventura foi a tradução exata dessa virtude. O Brasil despediu-se nesta terça-feira (22 de setembro) do jornalista, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), falecido aos 95 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Com ele, parte uma das vozes mais lúcidas, humanas e éticas da imprensa e da literatura contemporâneas do país.
Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1931, Zuenir traçou um caminho que se confunde com a própria história da imprensa brasileira moderna.Sua trajetória começou em 1956 na Tribuna da Imprensa, ainda como arquivista enquanto cursava Letras.Ao longo de mais de seis décadas de carreira, passou por veículos icônicos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo.
Mais do que um repórter de texto elegante e ágil, Zuenir sempre se destacou pela capacidade de escuta, virtude indispensável para um profissional que recusava respostas superficiais e maniqueístas para os dilemas da sociedade.
A bibliografia de Zuenir Ventura formou um mapa fundamental para compreender o Brasil recente. Em 1988, ele publicou 1968: O Ano Que Não Terminou, reportagem histórica que resgatou a atmosfera política do AI-5, a efervescência cultural e os traumas do regime militar. A obra tornou-se um clássico instantâneo da não ficção e referência para gerações de estudantes e pesquisadores.
Nos anos 1980, sua cobertura sobre o assassinato de Chico Mendes no Acre rendeu-lhe os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Jornalismo. Anos mais tarde, em 1994, após a chacina em Vigário Geral, Zuenir tomou a decisão radical de morar temporariamente na comunidade. O impacto dessa experiência gerou o livro Cidade Partida, obra que deu nome e diagnóstico preciso ao abismo social e à fratura urbana do Rio de Janeiro.
A consagração de sua trajetória veio com prêmios literários, como o Jabuti, e reconhecimentos em defesa dos direitos humanos.Em outubro de 2014, Zuenir foi eleito para a Cadeira nº 35 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo o dramaturgo Ariano Suassuna.Na ABL, manteve o mesmo humor e afeto com que conduzia suas crônicas e relações pessoais.
Ao deixar sua esposa Mary, os filhos Elisa e Mauro e os netos Alice e Eric, Zuenir Ventura encerra sua passagem física, mas deixa cimentada uma lição permanente: o bom jornalismo e a grande literatura compartilham a mesma essência: a defesa incondicional da democracia, o compromisso com a verdade e o olhar generoso sobre a condição humana.












