A bela montagem de “Por que não vivemos?”, inspirada em Tchekhov

Uma grande mesa retangular entre o “palco” e a plateia. No que seria o palco, mais cadeiras e alguns sofás, e agora o público rodeia cena e cenário, que se concentram principalmente em volta dessa mesa. Os sofás distribuídos pelos dois lados da plateia são como que braços desse cenário, que acabam por incluir a…


20191016040910993940i

Uma grande mesa retangular entre o “palco” e a plateia. No que seria o palco, mais cadeiras e alguns sofás, e agora o público rodeia cena e cenário, que se concentram principalmente em volta dessa mesa. Os sofás distribuídos pelos dois lados da plateia são como que braços desse cenário, que acabam por incluir a todos como convidados ou cúmplices do que irá se suceder.

Há uma festa acontecendo, uma celebração, e os convidados vão chegando aos poucos na residência da viúva Anna Petrovna. Ela entra em cena se distraindo com uma raquete e uma bolinha, e os demais personagens, cada um em sua vez, também adentram a cena de modo alegre, como se felizes por estarem naquele lugar e não em nenhum outro. Há vários copos sobre a mesa e algumas garrafas, e ao longo desse primeiro ato algumas plantas também vão ser trazidas para cima da mesa pelos personagens, contribuindo para que, à medida em que avança o espetáculo, o aspecto de tudo e de todos fique mais confuso e embolado, num crescendo de velocidade dos movimentos e gestos.

Essa é a peça Por que não vivemos?, inspirada no primeiro texto de Tchekhov, lançado em 1923 e que demorou a ganhar traduções e montagens. No Brasil, é agora dirigida, pela primeira vez, por Márcio Abreu, iniciando temporada no CCBB do Rio de Janeiro. O espetáculo divide-se em dois atos separados por um intervalo regado a cerveja e totaliza quase 3 horas de peça, em absolutamente nada cansativas. O texto do autor russo e a montagem de Márcio Abreu não deixam em nenhum momento que o interesse se desvie do que se desenrola por todos os lados.

Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josi Lopes, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo dos Santos dão vida a personagens que atravessam encontros e desencontros, que se amam e se odeiam, que, aos poucos e de forma intermitente, repensam o que fizeram de suas vidas, que avaliam suas escolhas e se perguntam sobre a viabilidade de novos caminhos, que cogitam rupturas inaugurais, que se arrependem mas talvez não saiam do lugar. Que, quando arriscam, colocam muita coisa em jogo e têm muito a perder. Há um momento, no primeiro ato, em que tudo fica mais tenso, e as cenas e diálogos entram em uma espécie de looping, como se apontassem a repetição sem sentido da vida e das conversas, ou mesmo de alguns relacionamentos.

Esse looping talvez possa denotar um desespero que reside em todos eles, mesmo que escamoteado em meio ao cotidiano, em meio à euforia da festa, em meio à demanda de beber, beber, beber. Há muitas falas e deboches que talvez não precisassem ocorrer, intrigas dando vazão a ódios e ódios conduzindo a planos inconfessáveis que se desenrolam na surdina da festa. Inimizades e simpatias, reencontros e frustrações, e todos parecem um tanto quanto perdidos.

Platonov, o sedutor professor e personagem principal dessa peça que não teve um título definitivo, vai criando um rastro de perturbação atrás de si, despertando ódios e paixões de todos (ou quase todos) os personagens da peça, pelas verdades que diz, movido pela condição de professor, e pelas inverdades que alimenta. Há um misto de superioridade sábia e inferioridade de não ter ido além em sua carreira. Ele também está cada vez mais perdido, mas talvez o perceba mais do que os outros.

Os dois atos da peça são bem diferentes entre si, inclusive pela disposição do palco e da plateia. O primeiro ato tem mais estardalhaço, é mais “solar”, permeado por um entusiasmo um pouco insano dos personagens, mais atravessados por cores, tendendo mais à comédia, acolhendo um pouco mais de absurdo.

O segundo ato, que parece ser um pouco menor do que o primeiro, é mais “lunar”, no sentido de escuro, com muitos blecautes alternando-se às aparições dos personagens e a imagens de seus rostos em close projetadas em preto e branco. A disposição de cenário e plateia do primeiro ato foi desfeita, praticamente não há objetos em cena, e a mesa agora serve de continuação do palco.

Na maior parte desse segundo ato, os diálogos não se dão frente à frente, e o desconforto e a violência presentes nas relações fica mais patente, mais indubitável, mesmo que os personagens eventualmente não queiram admiti-lo – a iluminação ajuda a mergulhar a plateia em certo desamparo, em iminente solidão, em fracasso à espreita e sem volta. Aqui o fingimento é menor, aqui não há mais saída, evidencia-se a solidão, o sofrimento pode escapar por gestos, tiques, movimentos corporais ilógicos.

E a peça, enfim, traz o ótimo arremate em que os personagens se juntam e, em vez de atuarem as cenas finais, fazem uma espécie de narração intercalada do que acontece, enquanto sua dispersão é substituída por uma concentração dos personagens, que se juntam ao fundo, sobre o sofá. Toda a expansão que acontece no primeiro ato dá vez ao recolhimento. É como se só agora os personagens se dessem conta de si mesmos e se acabrunhassem, encurralados entre o que é e o que poderia ter sido.

De fato, o  movimento da peça, se fosse descrito como uma curva em um gráfico, começaria do alto, da agitação, da extroversão, da zombaria alucinada, da gritaria, e vai descendo até alcançar o refúgio em silêncio, amedrontamento e breu. Essa escolha dramatúrgica resulta belíssima, preparando o público para o fim através de um distanciamento afetivo, pelo qual a interpretação dá lugar à descrição dos fatos ocorridos. Mais não se pode escrever, sob o risco de dar mais spoiler do que se deve.

FICHA TÉCNICA:

Por que não vivemos?
Da obra Platonov, de Anton Tchekhov
Direção: Marcio Abreu
Assistência de Direção: Giovana Soar e Nadja Naira
Elenco: Camila Pitanga, Cris Larin,
Edson Rocha, Josi Lopes, Kauê Persona,
Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e
Rodrigo dos Santos
Adaptação: Marcio Abreu, Nadja Naira e Giovana Soar
Tradução: Pedro Augusto Pinto e Giovana Soar
Direção de Produção: José Maria
Produção Executiva: Cássia Damasceno
Iluminação: Nadja Naira
Trilha e efeitos sonoros: Felipe Storino
Direção de movimento: Marcia Rubin
Cenografia: Marcelo Alvarenga | Play Arquitetura
Figurinos: Paulo André e Gilma Oliveira
Direção de arte das projeções: Batman Zavareze
Edição das imagens das projeções: João Oliveira
Câmera: Marcio Zavareze
Técnico de som | projeções: Pedro Farias
Assistente de câmera: Ana Maria
Operador de Luz: Henrique Linhares
Operador de vídeo: Marcio Gonçalves
Operador de som: Mauricio Chiari
Montagem: Iuri Wander, Antônio Lima, Cláudio Roberto, Luciane Silva, Paulo Rodrigues, Elizeu Paiva
Máscaras: José Rosa e Júnia Mello
Fotos: Nana Moraes
Programação Visual: Calma, Joana
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna e Paula Catunda
Difusão Internacional: Carmen Mehnert | Plan B
Produção: companhia brasileira de teatro
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil e Governo Federal
companhia brasileira de teatro
Direção de Produção: Giovana Soar e José Maria
Administrativo e Financeiro: Cássia Damasceno
Assistente Administrativo: Helen Kaliski

Serviço: “Por que não vivemos?”

Temporada: de 3 de julho a 18 de agosto de 2019.
Obs.: Não haverá espetáculo entre 15 e 23 de julho.
Dias e horários: de quarta a domingo, às 20h.
Local: CCBB Rio – Teatro I (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro).
Informações: 3808-2020.
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Capacidade: 143 lugares
Duração: 150 min.
Classificação indicativa: 16 anos.
SAC 0800 729 0722 – Ouvidoria BB 0800 729 5678
Deficientes Auditivos ou de Fala 0800 729 0088