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Avenue 5: comédia espacial demora a decolar, mas compensa

Num futuro não muito distante, será possível fazer viagens espaciais para Saturno em naves gigantes. Será como um cruzeiro interplanetário. É partindo dessa premissa de ficção científica que a série Avenue 5 nos apresenta uma guerra de egos no espaço, em meio a uma viagem que tem tudo para dar errado.

Depois de um incidente gravitacional, a nave Avenue 5 sai da rota, e o que deveria ser uma viagem de cinco semanas é recalculada para uma jornada de três anos. O simpático capitão Ryan Clark (Hugh Laurie) mostra-se mais do que inútil para consertar a situação. O riquíssimo dono da empresa de viagens espaciais, Herman Judd (Josh Gad), também está a bordo da nave, mas é igualmente ineficiente para lidar com o problema, além de ser muito egocêntrico.

Dentre os mais de cinco mil tripulantes, dois casais se destacam: Mia (Jessica St. Clair) e Doug (Kyle Bornheimer), que esperam apenas voltar para a Terra para pedir o divórcio, e Karen (Rebecca Front) e Frank (Andy Buckley). Extravagante e decidida, Karen acaba se autodeclarando a porta-voz dos passageiros e a ponte entre eles e a tripulação. Essa ponte deveria ser feita por Matt (Zach Woods). Matt é a prova de que não só o inferno está cheio de boas intenções, mas o espaço também – essas intenções são apenas mal executadas.

Tentando consertar os problemas estão a engenheira Billie (Lenora Crichlow) a bordo da nave, e a controladora da missão Rav (Nikki Amuka-Bird) na Terra, onde, aliás, penteados exagerados parecem ser a moda do futuro. Completam esse confuso time a mal-humorada assistente pessoal de Judd, Iris (Suzy Nakamura), e o ex-astronauta Spike (Ethan Phillips).

Algumas piadas podem não fazer sentido para o público brasileiro – por exemplo, a recorrente troca de sotaques do capitão, que vai do sotaque americano ao britânico em um segundo. Essa piada se perde na versão dublada, e na legendada apenas aqueles com ouvidos bem treinados percebem a diferença. Além disso, no Brasil, Avenue 5 foi prejudicada pelo horário escolhido para exibição: depois da meia-noite, de domingo par segunda-feira.

Avenue 5 é de Armando Iannucci, também criador da série Veep. Assim como Veep, Avenue 5 demora a decolar, e quem tem paciência com os primeiros episódios finalmente é recompensado com situações bizarras e muito humor negro, uma marca de Iannucci. De fato, o showrunner disse que queria mostrar, na nova série, o caos iminente e as nossas desgraças. Dessa maneira, mesmo sendo bem diferentes, Veep e Avenue 5 convergem ao retratar o caos de maneira cômica.

Iannucci quis sair de sua zona de conforto, depois de sete temporadas de Veep, e também desafiar seus atores. Assim, Hugh Laurie foi escalado para o papel protagonista. Laurie, mais conhecido pelos norte-americanos e brasileiros como o médico rabugento Dr. House, já havia participado de episódios de Veep e de várias séries de comédia na Inglaterra, em especial no formato de esquetes – o que mostra que Avenue 5 também foi uma novidade para ele.

Em tempos tumultuados, em que decisões estúpidas são tomadas diariamente não apenas por pessoas comuns, mas por pessoas que estão no poder, ver uma série como Avenue 5 pode ser uma catarse – afinal, aqui sabemos que se trata de ficção, e por mais que fiquemos envolvidos com os personagens há a certeza de que não haverá dano real, não importa quão estúpidas forem as decisões tomadas. Rir da desgraça alheia pode ser revigorante – e prepare-se para mais um pouco desta estranha terapia, porque a segunda temporada de Avenue 5 já foi confirmada.

Cotação: Muito bom (3,5 de 5 estrelas)

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