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Bruno Sanctus e sua literatura de quebrada

A cada porção de anos alguma grande editora aparece com uma novidade. Pinçam um autor e o promovem como a voz da periferia. Mas não perguntam o que a periferia tem a falar, nem se quer estender seu grito sobre os ouvidos moucos de uma classe média que ignora o mundo pobre além metrô. Para alguns, passou das cercanias dos trens, tudo é terreno perigoso e tratado como exótico para um público consumidor que é trabalhado à marketing e doses cavalares de exposições televisas em programas longe do horário nobre.
Em programas matutinos, ou na madrugada, o escritor é apresentado como algo animalesco – ou, pior, cachorrinho de madame – “mas ele sabe escrever? Mas é direitinho, com pontos e acentos ou daquele jeito todo errado que eles falam?”. Sim, a periferia escreve e fala, mas quem quer ouvir?
Domesticado o grito, o que chegará às prateleiras é uma quebrada gourmet, mais Quintino ou Méier, menos Cidade de Deus ou Vigário Geral. Quando percebem potencial de venda, a voz é elevada à condição externa, deixa a quebrada e representa o todo. Vira fenômeno da literatura.
Enquanto alguns escrevem sob a benção do mercado, outros aquecem o rolê, seja no Rio, em São Paulo, ou em outras partes do país, alimentando um movimento cultural mais forte que a indústria do momento.
Não se trata de escrever com raiva, mas Nietzsche já dizia: “Escreve com o teu sangue, e verás que teu sangue é espírito!”. E longe das produções adocicadas a literatura brilha em vielas e casas sem reboco, fiação à mostra e ‘gatos’ alimentando lares que já não conseguem pagar pela sua luz.
Um dos maiores poetas brasileiros, Roberto Piva, já dizia que “eu só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental, que não tenho medo”. Bruno Sanctus é assim. Sua escrita sangra à periferia em uma amostra de que é possível produzir literatura em elevado nível longe dos círculos conhecidos das grandes editoras e dos eventos literários. A quebrada de Sanctus é São Miguel Paulista, onde resistem movimentos culturais estoicos como a Casa Amarela e saraus de resistência.
Em seu segundo livro, O Sol Era Uma Hemorragia Ruivo-Oxigenada, infelizmente editado apenas no formato ebook, o escritor desponta com um refinamento de uma lâmina e ironia na medida certa – pois, mais, seria pedante, menos, seria clichê-, e ele apresenta um retrato preciso, sujo e sensibilizante da realidade urbana e da sua própria concepção de existência, bem compreendida, por sinal, em versos do primeiro poema do livro:
“sei que sou a porra dum filho da puta
e esse vento fodido de agosto
está cortando a merda do meu corpo esguio
como uma navalha cega.”
Bruno sabe, inclusive, que o mundo não precisa de mais poetas. Que fique com a poesia:
“já não bastasse dizer que o mundo
não precisa de pessoas iguais a mim.”
Por certo, não de poetas ruins, de repertório pequeno, de vida de faz-de-conta e literatura de flores e fadinhas em rios de leite ninho e montanhas de nutella. Bruno é denso e joga pesado sem precisar colocar um ornamento de bicheiro no peito, aba reta na cabeça ou ingressar em algum coletivo militante para ser elevado à condição de guia pelos seus membros. Ele faz boa poesia, só isso. E como é difícil alguém entender que basta pouco para termos uma pancada atrás da outra, basta alma, basta gana e sangue nos olhos. Poesia que não incomoda, que não larga aquele gosto de amargo na boca, não presta. Não tem razão de existir.
Ao longo do livro, em que os poemas fluem como um rio caudaloso (ou vomitar de um bêbado?), a narrativa testa a imaginação do leitor, fazendo-nos pensar o que seria verdade e o tanto de invenção que há na vida deste poeta em seu segundo livro-petardo.
O Sol Era Uma Hemorragia Ruivo-Oxigenada não é um livro limpo, bem comportado, pudico. Nem está no papel. É um livro sujo e que deveria ser proclamado nas ruas, nas esquinas deste País, por jovens sem esperança ou por aqueles que querem ser poetas. Não é um livro que seria publicado pela Companhia das Letras. Não faz o perfil dos caras. É bom demais e o autor não se tornou modinha. Espanta apenas que tenha sido ignorado pelas editoras independentes. Leia e tire as suas conclusões.
O livro pode ser baixado gratuitamente no site da Editora Appaloosa, que infelizmente não fez nenhum esforço para a divulgação do artista.
Claro, o autor ainda está em processo de amadurecimento. Alguns poemas poderiam ser talhados com mais cuidado, outros, suprimidos. Ainda assim, sem o apuro ou  presença efetiva de um editor, exercendo corretamente seu papel de corte e unidade, é dos melhores livros de poemas do ano.

‘do fracasso nascem os poetas’
Assim nasceu Bruno Sanctus
 
“a vida continua…”
no fundo, no fundo
acreditei que fosse só drama
como todos costumam dizer
até que cheguei em casa
e me deparei com seu corpo
esguio, mais branco do que
o habitual e desfalecido
no sofá ao lado de um frasco
vazio de antidepressivos e
meia garrafa de uísque doze anos
tentei fazê-la vomitar inserindo
os dedos em sua garganta
a mas já era tarde”

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