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A chave de ouro que fechou “The Leftovers”

“É preciso deixar o mistério existir”, diz um trecho da canção de Iris DeMent, meticulosamente escolhida para abrir o episódio final da última temporada de “The Leftovers”, série da HBO que já traz uma certa áurea de mistério em sua própria trajetória. Quando começou era apenas a adaptação do livro de Tom Perrotta (curiosamente muito popular no mercado evangélico como Deixados Para Trás, embora a série só guie pelo livro na temporada mais fraca), onde os personagens lidam com as consequências do desaparecimento súbito de 2% da população mundial a partir dos habitantes de uma cidadezinha no estado de Nova York.

Com o dedo de Damon Lindelof (sim, o “culpado” por “Lost” ou seu desastrado fim), a história, protagonizada por Kevin (Justin Theroux), tinha uma certa excentricidade na abordagem misteriosa da história. Interessante, mas não muito entusiasmante, na verdade.

A segunda e agora a terceira e derradeira temporada, ganharam contornos mais complexos e deu um salto absurdo em seu resultado. Lindelof (e sua trupe de roteiristas) conseguiram fazer uma parábola sobre a finitude, partindo da paranoia do apocalipse para conceitos sobre a humanidade que há por traz do fanatismo e dos extremos da fé. Mas o que importa aqui são os efeitos pessoais nos personagens e como isso diz sobre eles.

Muito impressionante o que Lindelof consegue extrair disso. A trama discutiu e levantou questões que nem o cinema tem dimensionado mais nos últimos anos. Os diálogos, impecáveis, conseguem remeter a níveis de existencialismo e credulidade sem soarem pedantes, num resultado filosófico muito bem pensado (o que é ainda mais inesperado se lembrarmos do final de… “Lost”, mais uma vez). As respostas não são dadas completamente, mas essa virada conceitual que a série sofreu da primeira para as demais temporadas, nos preparou para não buscar explicações.

O roteiro relativiza o mistério em si e deixa para o interlocutor a reflexão sobre o sentido do que absorve. Do nada, The Leftovers se tornou uma das melhores séries de todos os tempos, exatamente por deixar para as próprias questões, suas próprias repostas. Vai por mim, se não assistiu, permita-se descobrir essa quase obra-prima…

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