Grupo galpao 13 e1493050119961
AcervoCríticasTeatro

Com direção impecável de Marcio Abreu, Grupo Galpão emociona com Nós, no Sesc Ginástico

Sete pessoas reunidas em torno do preparo de uma sopa, cada qual com uma tarefa específica (ou tentando encontrar alguma), movimentando-se ao redor de uma grande mesa retangular e manuseando utensílios e alimentos. Sete pessoas tentando dialogar enquanto cortam cenouras, picam gelo, mexem na panela, contando inícios de histórias entrecortadas por falas paralelas, que se imiscuem umas nas outras, acrescentando-se a isso as perguntas que interrompem a todo momento o fluxo das histórias. Esse é o mote propulsor dessa 23ª montagem do Grupo Galpão, que, por sinal, está cada vez melhor.

Nós é dirigido por Marcio Abreu, cujo trabalho resultou em um espetáculo impecável do início ao fim. O formidável elenco, com Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Teuda Bara, parece dotado de todos os recursos dramáticos para nos fazer rir e chorar, sendo capaz de traduzir para o palco esse movimento contínuo que cada um de nós tem, nos espaços que frequentamos, de tentarmos nos inserir num grupo, de nos adequarmos a um sistema interpessoal, de transitarmos entre demandas coletivas e individuais, de encontrarmos uma função própria que tenha valor e seja reconhecida pelos demais. E, ao mesmo tempo, tudo isso é tão impermanente e fluido que pode dar errado de uma hora para outra.

As repetições constantes dos diálogos, que recomeçam inúmeras vezes, mas em um ritmo crescente de urgência e agitação assinalam essa vida circular que não parece chegar a lugar nenhum, ficando cada vez mais desesperadora. Quem não se reconhece nessa sequência de repetições infinitas? Somos nós, espectadores, refletidos em cenas que chegam ao absurdo de uma movimentação frenética que às vezes não tem sentido, uma vez que atos, gestos e frases parecem apenas alcançar o paroxismo da não-comunicação: ninguém se entende, mas ninguém desiste de continuar falando as mesmíssimas coisas.

A montagem reflete esse looping da vida de maneira absolutamente brilhante, através da espetacular dramaturgia também assinada por Marcio Abreu e Eduardo Moreira, que foram capazes de concatenar movimentos incessantes numa coreografia também verbal de tirar o fôlego. O público é também incluído, em momentos memoráveis da peça, que o tempo inteiro tematiza as dificuldades da convivência e das relações interpessoais.

O espetáculo, neste sentido, tem forte carga poética e política, ao trazer indagações existenciais entrelaçadas com referências a fatos terríveis e recentes da vida contemporânea. Não estão de fora as menções a mortes, guerras, desaparecimentos, refugiados, corpos abandonados e desnudos, fanatismo, mas há um equilíbrio entre os momentos leves e engraçados e aqueles mais densos e reflexivos.

A iluminação, de Nadja Naira, é responsável por momentos belíssimos, ao colocar na voz dos personagens questões tão íntimas (e, às vezes, frequentes) de todos nós. A trilha e o efeito sonoro de Felipe Storino são também um espetáculo à parte, cujo efeito de eco sublinha uma solidão muito própria àqueles que se engalfinham consigo mesmos com perguntas sobre o sentido de todas as coisas.

Nós, enfim, merece ser visto mais de uma vez. E o seu final, que maravilha. É só o que posso dizer para não diminuir a força da experiência proporcionada. Em resumo, o espetáculo é uma bolha de oxigênio necessária em momentos tão difíceis da cena política atual. E é mais uma prova de que a arte é o que dá sentido à vida.

FICHA TÉCNICA

Elenco: Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Teuda Bara
Direção: Marcio Abreu
Dramaturgia: Marcio Abreu e Eduardo Moreira
Cenografia: Play Arquitetura – Marcelo Alvarenga
Figurino: Paulo André
Iluminação: Nadja Naira
Trilha e Efeitos Sonoros: Felipe Storino
Assistência de Direção: Martim Dinis e Simone Ordones
Preparação musical e arranjos vocais/instrumentais: Ernani Maletta
Preparação vocal e direção de texto: Babaya
Colaboração artística: Nadja Naira e João Santos
Assistência de Figurino: Gilma Oliveira
Assistência de Cenografia: Thays Canuto
Cenotécnica e construção de objetos: Joaquim Pereira e Helvécio Izabel
Operação e assistência de luz: Rodrigo Marçal
Operação de som: Fábio Santos
Assistente técnico: William Teles
Assistente de produção: Cleo Magalhães
Confecção de figurino: Brenda Vaz
Técnica de Pilates: Waneska Torres
Fotos de divulgação: Guto Muniz
Fotos do programa: Fernando Lara, Gustavo Pessoa e Guto Muniz
Imagens escaneadas: Tibério França e Lápis Raro
Registro e cobertura audiovisual: Alicate Conteúdo Audiovisual
Projeto gráfico: Lápis Raro
Design web: Laranjo Design (Igor Farah)
Direção de produção: Gilma Oliveira
Produção executiva: Beatriz Radicchi
Produção: Grupo Galpão

Deixe um comentário

Sugeridos
45501d63edccb559a903d7ed697a4b4dbee5ac0ab90ac362e243eab971cdfc54
CríticasGames

Heroes of Mount Dragon: competente, mas o repertório de golpes deixa a desejar

Beat ‘em up de rolagem lateral nunca sai de moda, e Heroes...

A Construção crédito Nil Caniné (16)
AgendaTeatro

 “A Construção”, solo com Marcelo Olinto, reestreia no Teatro Municipal Sérgio Porto

Escrita por Franz Kafka (1883-1924) seis meses antes de sua morte e...

Capitu e Bentinho foto de Eder Gaioski (3)
AgendaTeatro

“Capitu e Bentinho” estreia no Teatro Dulcina

Qual seria o casal mais célebre da literatura brasileira? Qual relação mexeu...

Crédito: Kay Marinho
AgendaInfantilTeatro

“Alice, Um Musical” estreia no Teatro Nathalia Timberg, no RJ

Com direção de Rafaela Amado, direção musical de Anna Hannickel e direção...

Carolina Chalita em Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria - Crédito fotográfico Juliana Chalita
AgendaLiteraturaTeatro

“Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria” chega ao CCPJ

Indicada ao Prêmio APTR, Carolina Chalita faz tour da peça que mergulha...

E304db077bc8cea27c3cf049d36c193f6f87d6889219811637db5a877d2dc0d3
CríticasGames

NetherWorld: humor ácido, mas a água-viva anda devagar demais

Nem todo jogo indie quer agradar todo mundo, e NetherWorld deixa isso...

Captura de tela 2026 09 24
AgendaInfantilTeatro

A Menina Que Inundou o Mundo no Teatro Sérgio Cardoso

Com dramaturgia de Andressa Secchin e Laura Sciulli, a montagem trata de...

Untitled design
AgendaShowsTeatro

Cine Concerto Titanic estreia no Brasil

Pela primeira vez, espetáculo reúne a exibição de Titanic à execução ao vivo de...

Murilo Lopes como Mogli - Crédito Erick Moura
AgendaInfantilTeatro

“Mogli, O Musical” estreia no RJ

Com grande elenco, 10 canções originais, cinco cenários e mais de 20...

Captura de tela 2026 09 24
AgendaTeatro

“Rita Lee: Balada da Louca” no Teatro PRIO

Depois de três meses em São Paulo, com todos os ingressos esgotados...

PIAF
AgendaTeatro

‘PIAF – Eu não me arrependo’ chega ao Rio de Janeiro após sucesso em São Paulo

Musical relembra a trajetória da lendária cantora francesa em superprodução musical protagonizada...