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Humor ácido e diálogos inteligentes sobre diversas combinações amorosas no ótimo ‘O Abacaxi’

O Abacaxi, este ótimo espetáculo com direção de Debora Lamm e com texto de Veronica Debom, que, além de assinar o texto, atua ao lado de Felipe Rocha e Rafael Rocha, começa com uma cara boa de improviso ou de último ensaio. Tudo se dá em um cenário despojado e colorido, com sofás no meio do palco (onde alguns espectadores se sentam), uma mesa para lanches num de seus vértices, um vaso sanitário ao lado da bateria num dos cantos, além de objetos variados que lembram a casa dos amigos, ou a imagem correspondente àquela que fazemos quando imaginamos a casa dos casais jovens, que também começam a vida conjugal meio de improviso.

É bom ressaltar que a qualidade de uma apresentação artística também pode se medir pelo quanto ela pode parecer um improviso, no sentido que a palavra traz de ‘naturalidade’ ou ‘espontaneidade’: quando a dança complexa da bailarina parece fácil, houve muito trabalho por trás e não são simples os movimentos que executa, mesmo que pareça natural do músculo executá-los, mesmo que sua execução transmita essa impressão.

Veronica e Felipe vivem o casal. Ou um casal possível, entre muitos, desdobrado em diversas constelações conjugais, variadas configurações de relacionamentos afetivos. Nos recortes que a peça nos oferece, esse casal (que se desdobra) parece estar sempre discutindo as guinadas dessas constelações, afinal, nada é estanque nem pretende ser, assim vamos relembrando. Ora os pares pretendem começar um relacionamento aberto e precisam falar sobre isso; ora vivem um relacionamento a três, em que há um terceiro que é alvo de ciúmes de uma e desapego de outro; ora são amigos que transam pela primeira vez, apesar do medo de estragar a amizade.

No exemplo do relacionamento aberto e da possibilidade de pavimentação desse caminho, as condições nunca são exatamente as mesmas para as duas partes. Nunca são iguais os tempos e os ritmos, aliás, em quase qualquer situação a dois. E, no caso de um relacionamento aberto que se quer construir no meio de uma caminhada que já possui um histórico anterior cujas regras eram outras, há os ajustes a serem feitos, os termos a serem equilibrados: o formato vai mudar, pode mudar, mas de que maneira será vivido e como acontecerá e quando, exatamente, terá início? Como diz a música, parece fácil, mas é difícil.

Há quem diga que discutir a relação é sempre algo chato, podendo beirar o insuportável. Há quem fuja das DRs (discussões da relação), há quem não as suporte, vivendo essas relações-constelações em modo automático ou como se. Pois O Abacaxi é inteirinho um espetáculo pautado em DRs, modo exclusivo (que eu saiba) de simbolizar e elaborar com o outro esses percalços – inomináveis alguns – do afeto, da convivência, do desgaste, do sintoma. Ah, sim, permito-me usar a palavra ‘sintoma’ não pelo viés médico, que se refere à doença, mas pelo viés psicanalítico, que indica grosso modo a repetição de comportamentos que expressam alguma fixação, por assim dizer, inconsciente.

Os relacionamentos, quaisquer que sejam as suas formas de ganhar vida, amorosos ou não, são o locus perfeito onde repetimos ad infinitum as mesmas formas de operar cheias de sofrimento e caminhos emperrados, mas que parecem ser uma alameda há muito trilhada, familiar e, portanto, um pouco menos ameaçadora. Os erros sabidos são mais confortáveis, ou ao menos assim parecem. E, de fato, os relacionamentos não deixam de ser o terreno ideal para os clichês das nossas próprias vidas, as fórmulas gastas, as rimas sabidas, e é aí que caímos nas repetições que já se configuram como soluções de compromisso que nos protegem de nós mesmos, ainda que nos empurrem para o abismo do qual juramos de pés juntos que queremos sair. Aliás: queremos sair?

É desses abismos, dessas repetições, desses clichês e piadas internas da gente com a gente mesma, dessas tentativas de rupturas, das vontades de desvio, das construções a dois ou a três de novas formas de estar no mundo, é enfim desse apanhado que surgem os diálogos excelentes do espetáculo, com tiradas hilárias e rompantes de emoção igualmente engraçados. Nesses diálogos, nesses rompantes, conseguimos nos perceber e nos encontrar ali, bem no cerne do dilema do outro, só que agora olhando de fora, do lugar bem protegido da plateia. Seria possível tentar dizer: “não tenho quase nada a ver com isso”, mas, a cada risada, mais denuncio minha implicação com tudo o que se desenrola ali, no cenário colorido. E o melhor: Veronica Debom e Felipe Rocha estão muito à vontade nesses diálogos.

No caso de O Abacaxi, mesmo que nunca se tenha entrado nessa ou naquela configuração amorosa que o espetáculo oferece, não há como fugir: o dilema do outro é sempre nosso. Em alguma medida, o dilema do outro nos pertence, aponta para nós mesmos. Esse é o grande mérito da peça: transformar em texto inteligente, com leveza e humor, os dramas tão nossos velhos conhecidos. Fazer o clichê, por assim dizer relacional, parecer original.

Seria possível enumerar diversos momentos do espetáculo (e ainda correr o risco do spoiler, fantasma sempre à espreita de quem escreve sobre uma peça, um filme, um livro), mas escolho um que me causou um encantamento maior e que me suscita digressões mais amplas. É o momento em que o casal fala sobre cinema. Eles começam um texto concomitante e paralelo, em que cada um fala de si e de suas reações aos filmes e de seu modus operandi no cinema. É como se cada um deles fizesse a primeira e a segunda vozes de um coral que, de repente, após um ciclo de falas e elucubrações, se encontram. Mas o momento do encontro é também assustador, e eles voltam a tentar se concentrar em suas percepções de si mesmos no cinema, falando paralelamente, se esforçando para não prestar atenção ao outro ali ao lado, refugiando-se nas regiões bem delimitadas, bem entrincheiradas, de seus breves monólogos.

E a maneira como cada um de nós age e analisa seu próprio comportamento no cinema é quase um inventário sutil das nossas neuroses cotidianas, um clássico que o espetáculo sabe aproveitar muito bem. Esse inventário diz respeito a inúmeras questões: devemos ou não devemos chorar quando o filme termina? Deixamos o outro ver que choramos? E como se esconder da luz opressiva que se acende na sala de cinema e sua capacidade de iluminar essa comoção cujo grau gostaríamos às vezes que fosse menor? E mais, o que fazer se estamos com uma pessoa especial, o que nossa emoção denunciará de nós a esse outro ou o que esse outro distorcerá a respeito de nós a partir dessa emoção que nos escapa? Como controlar as interpretações do outro quando ele se encontra com a nossa emoção?, e quando levantar da cadeira? E ver ou não ver os créditos até o fim? E isso, e aquilo, e aquilo.

É claro que aqui acrescento as minhas próprias infinitas e obsessivas elucubrações àquelas que o casal explicita nesse excelente excerto dramatúrgico, em que a iluminação, assinada por Ana Luzia de Simoni e João Gioia, completa a cena fazendo parecer que ambos estão mesmo na sala de cinema, iluminados pela luz inconstante que emana da tela grande. Quem nunca entrou no dilema de suas próprias reações no cinema, algo que junta modos de existência tão íntimos em um espaço coletivo que tem a peculiaridade da escuridão ou da luz incidental? Esse é um dos diversos recortes dramatúrgicos interessantíssimos do espetáculo.

Além disso e à guisa de conclusão, cabe mencionar as participações de Rafael Rocha, que assina ainda a direção musical. Elas ajudam a equilibrar a balança cujo peso poderia vir a recair excessivamente para o lado do casal, um elemento atrativo de força centrífuga. Trata-se de mais um toque de leveza e humor do espetáculo, detalhe que faz toda a diferença quando acontece. Ah, se sempre houvesse um terceiro para contrabalançar os momentos de excesso dos embates afetivos, talvez esses embates doessem menos na carne dos personagens que os vivem e talvez as insônias fossem produto um pouco mais raro nas noites de cada um.

O espetáculo, que fez apresentações no Cena Brasil Internacional deste ano, fica em cartaz até 31 de julho.

Confira serviço e ficha técnica aqui.

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