“Inventando Anna” conta a história real de uma grande mentira

Às vezes, a realidade suplanta qualquer ficção. Por isso, não é raro que Hollywood vá buscar inspiração nas páginas dos jornais. Foi isso o que a magnata do entretenimento Shonda Rhimes fez, ao decidir contar em “Inventando Anna”, na Netflix, a história de Anna Delvey, uma jovem que enganou boa parte da alta sociedade nova-iorquina.

Após sua prisão, um jornal chama Anna Delvey (Julia Garner) de “falsa socialite”. A repórter da Manhattan Magazine Vivian Kent (Anna Chlumsky) acredita que a história de Anna Delvey é muito mais do que esse headline. Ou talvez o nome da moça seja Anna Sorokin. Talvez ela seja russa, talvez alemã. Não se sabe a origem de sua fortuna, nem seus hábitos, nem seus relacionamentos amorosos. A cada pessoa que Vivian entrevista, ela obtém um retrato completamente diferente de Anna. Por isso, indo contra seus superiores, Vivian decide investigar a fundo a história, entrando em contato com Anna, que está presa.

O primeiro episódio da minissérie é focado na saga da jornalista Vivian, enquanto nos demais episódios o foco vai para Anna, com histórias contadas em flashback conforme Vivian entrevista diversas pessoas.

Vivian Kent é a única personagem fictícia da história, tendo sido baseada na jornalista Jessica Pressler, que escreveu sobre Anna para a New York Magazine. Para se tornar uma personagem mais interessante, Vivian ganhou um arco de redenção: anos antes, ela havia perdido o emprego dos sonhos ao publicar uma matéria cuja parte do conteúdo era falsa – ela não havia, portanto, apurado devidamente os dados que obteve.

Escrever uma grande matéria sobre Anna é, para Vivian, uma oportunidade de dar a volta por cima. Para completar, Vivian está grávida e nós sabemos como ter filhos pode prejudicar a carreira de uma mulher. É interessante, neste arco de redenção, que Vivian comente que só foi muito escorraçada porque é uma mulher – a sociedade não perdoa os erros das mulheres. Será que também Anna pagará mais caro que um homem pagaria se tivesse feito o mesmo?

O processo de investigação jornalística é fundamental na narrativa de Inventando Anna. Assim como em outras obras do audiovisual que apresentam investigação jornalística – como o vencedor do Oscar Spotlight – Segredos Revelados (2015) – o trabalho na redação é mostrado como o motor das histórias. Vivian faz parte de um grupo renegado dentro da redação da revista e está ligada a uma matéria que parece infrutífera quando decide investigar a verdade sobre Anna. Em sua pesquisa, ela é auxiliada pelos colegas mais próximos, o que mostra que jornalismo é, muitas vezes, um trabalho em equipe.

No quarto episódio, Inventando Anna tenta fazer um comentário social nada sutil sobre como as mulheres sempre pagam por seus erros, mas os homens parecem ser beneficiados por errarem. É verdade que a humanidade tem memória curta para os erros dos homens e memória infalível para os erros das mulheres, mas a conclusão a que o episódio chega é pouco mencionada, embora verdadeira: muitas vezes a punição para os homens que erram não é pública, no entanto algumas pequenas humilhações privadas trazem muito mais vergonha que a punição em público.

Vivian diz que sua matéria é sobre a cultura de golpes que chegou para ficar, depois que a presidência dos EUA foi retirada das mãos de uma mulher bem preparada e dada para um lunático cheio de si graças a uma instituição arcaica como o colégio eleitoral. É a cultura de golpes que coloca algemas nas ambições das mulheres, ela prossegue, e é a mesma cultura de golpes apresentada em outra produção que acaba de chegar na Netflix: O Golpista do Tinder. O documentário traz os muitos golpes que um homem que se apresentava como Simon Leviev, herdeiro de uma empresa de diamantes, aplicou em diversas mulheres.

Anna mostrou aos poderosos o que eles queriam – dinheiro – e deixou-os tão hipnotizados a ponto de enganá-los facilmente. O golpista do Tinder fez o mesmo dando às mulheres o que elas buscavam – amor – e depois mentindo para elas sobre sua segurança para forçá-las a dar dinheiro a ele. Em algum momento, Anna começou a acreditar em suas próprias mentiras. O mesmo parece ter acontecido com o golpista do Tinder. Talvez o golpe final seja dado no próprio golpista, quando este perde a noção da realidade.

Já vencedora de dois prêmios Emmy por Ozark, com Inventando Anna, Julia Garner se consolida como uma das mais promissoras atrizes de sua geração. Vestindo roupas deslumbrantes e com um sotaque irritante e fiel à realidade, Julia incorporou Anna Delvey/Anna Sorokin com perfeição. A atriz conta que foi um verdadeiro pesadelo visitar Anna na cadeia para sua pesquisa de composição da personagem, tamanha a prepotência da Anna original.

Apesar de a minissérie ser sobre ela, Anna não é uma personagem complexa. Não sabemos como ela começou a aplicar seus golpes, nem exatamente o porquê. Por vezes parece que os demais personagens – em especial Vivian e a amiga de Anna, Neff – querem justificar as ações da jovem, como uma brilhante e incompreendida mulher de negócios ou um Robin Hood de saias que roubava dos ricos para ficar com o dinheiro.

Anunciada como uma minissérie “inspirada na história real de uma mentira” e começando cada episódio com o aviso “essa história é completamente verdadeira… exceto pelas partes que foram inventadas”, Inventando Anna é mais uma ótima produção de Shonda Rhimes, que ainda nos permite diversas reflexões.

Nota: Excelente 4,5 de 5 estrelas

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