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Leitores conquistados a força

A cabeça de javali marrom atravessa a capa do livro e divide as informações do título e do nome da autora em letras assimétricas. A cabeça do javali deitada à capa sugere que em “Assim na terra como embaixo da terra” (Record, 2017), novo trabalho da escritora Ana Paula Maia, lidamos com um massacre.  Massacre literário.

A primeira cena do livro conta a morte de um cachorro vira-lata. É apenas o segundo parágrafo e nos deparamos com o estado de putrefação avançado do animal. A escolha da autora por uma cena contundente sem nem ao menos conhecermos os personagens que circulam na trama dá uma pista do tipo de atmosfera confortável ao livro. Ana Paula Maia nos guia pela desativação da Colônia Penal, uma instituição para ressocialização de presos que, assim como o vira-lata, já está morta e apenas precisa ser enterrada devidamente.

Os personagens são poucos, os últimos presos que aguardam a vinda do oficial do governo para fechar o lugar e os dois policiais ainda responsáveis pela instituição. São, sobretudo, desconfortáveis a qualquer leitor. Eles nos agridem. Homens violentos guiados apenas pelo instinto primitivo de sobrevivência. Aliás, a autora faz um excelente trabalho ao desenvolvê-los e deixar os julgamentos de caráter a quem lê. Ela não extrapola fluxos de consciência que poderiam entregar julgamentos apressados. Em vez disso, a autora descreve vivências e entrega ao leitor a decisão de absolver ou não os presentes na Colônia Penal.

Ana Paula também joga com situações-limite; escolhe personagens que incorporaram (até demais) as demandas do próprio trabalho e desenvolve as consequências da interiorização do ofício. Este é o outro fio que conduz a trama: o degringolar do responsável pela Colônia. A suspensão e, ao mesmo tempo, iminência do conflito entre o profissional ao lado da Justiça e os presos, acende uma fogueira que persiste até o final. A imersão é facilitada pelas frases curtas e diálogos lacônicos, arrogantes, violentos. Não há espaço para fôlego, siga a vertigem, leitor.

A leitura vaga entre reflexão e atordoamento até o final. Tão vivo, “Assim na terra como embaixo da terra” expõe vísceras, de homens, instituições penais, e do próprio leitor, desacostumado a se sentir desconfortável enquanto lê. Cento e quarenta e quatro páginas de literatura segura, pesada e necessária. Por fim, o espaço de Ana Paula Maia está sendo conquistado à força. Exatamente a matéria-prima de seus livros.

Leitura mais do que recomendada.

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