Mallu Magalhães diz “Vem” em álbum delicioso

Mallu Magalhães, apesar da pouquíssima idade, sempre carregou o fardo de ser Mallu Magalhães. Mais do que um simples “ame ou deixe”, sua personalidade musical – de áurea mais personificada que seu som – sempre se impôs sob as perspectivas que gravitavam sobre ela. Depois de um disco anterior (o delicioso Pitanga), que foi uma…


Mallu vem

Mallu Magalhães, apesar da pouquíssima idade, sempre carregou o fardo de ser Mallu Magalhães. Mais do que um simples “ame ou deixe”, sua personalidade musical – de áurea mais personificada que seu som – sempre se impôs sob as perspectivas que gravitavam sobre ela.

Depois de um disco anterior (o delicioso Pitanga), que foi uma espécie de estandarte de seu amadurecimento “ficando velha e ficando louca“, Mallu lança, aos 24 anos, o excelente Vem, um trabalho tão perene dentro da própria MPB que não é exagero afirmar que se trata de um dos melhores álbuns do ano. Esqueça a histeria tola a respeito de seu belo clipe de divulgação de “Você não presta“, e deleite-se com a riqueza dessa canção, tão irresistível quanto melodiosa.

Melodiosa aliás, é o perfeito adjetivo para classificar essa produção de Marcelo Camelo, muito identificável por sinal, e que consistiu numa elaboração harmônica riquíssima, em consonância com sua voz amadurecida. O começo do álbum é uma sucessão de canções brilhantes. Uma atrás da outra. Depois da citada “Você não presta“, vem o samba sincopado “Culpa do amor“, o arranjo apaixonado de “Casa Pronta“, o estalar de dedos de “Vai e Vem“, a bela composição melódica de “Será que um dia” e a esperta e bem referendada “Pelo telefone“. O disco vai nos inundando com esse interessante misto de referências (paulistas, cariocas e lisboetas) que é o casamento musical de Mallu com seu marido produtor, Marcelo.

Nesse sentido, Vem é um trabalho bem mais maduro e sólido. As últimas músicas são mais intimistas e não menos vigorosas (especialmente as belíssimas “Guanabara“, “São Paulo” e “Gigi“). Se o trabalho tem um único senão, está na deslocada “Love You” em que a cantora esboça seu passado de maneira bem derivativa. Mas talvez esteja ali justamente para reforçar a dimensão de sua identidade. Mallu é danada. Sua música não se dissocia de si, e Vem é o paroxismo dessa interseção. Assim, é sua maturidade (ou sua música) que faz do fardo de sua personalidade, sua grande autenticidade.