Mec
AcervoCríticasSériesTV

"O Mecanismo" se quebra por abordar polêmica com fragilidade narrativa

Tentando se fortalecer com produções nacionais, a Netflix traz a série “O Mecanismo”, que se inspira no livro do Juiz Sérgio Moro sobre os bastidores das investigações da Operação Lava Jato, utilizando nomes fortes com Selton Mello e o do cineasta José Padilha no comando da direção.
Na trama, que não se utiliza em nenhum momento nomes reais, nem de pessoas ou instituições (até a Polícia Federal teve que virar Polícia Federativa – aliás cheguei um momento a pensar que até trocariam a bandeira do Brasil por uma genérica), mostra os esforços de dois delegados da Polícia do Paraná Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena Cardoni (Caroline Abras) que estavam à caça de um doleiro local, Roberto Ibrahim (Enrique Diaz – que é o que mais entrega em atuação na série), cujas ações incidem na vida pessoal da dupla e chegam aos altos escalões do Governo Federal.

Por se inspirar em pessoas reais que são altamente identificáveis – sobretudo os políticos – a série se complica por botar frases de efeitos famosas nos personagens errados (ainda mais pelas implicações políticas que acarretam ainda hoje, no momento vivido pelo país). Embora seja passível de se dizer que existem críticas ao partido de oposição da época, elas são tão pequenos e sutis que se você piscar é capaz de nem perceber.

Além da polêmica do tema, “O Mecanismo” sofre do maior mal que tem acometido algumas produções nacionais: o roteiro. São muitas cenas expositivas que se repetem exaustivamente, frases e situações de puro clichê. Em diversos momentos, é possível antecipar a fala dos personagens de tão óbvias. Além de serem cafona a utilização de metáforas visuais para as falas dos personagens, principalmente quando Ruffo diz que o podre a corrupção estava bem debaixo do nariz dele e ocorre um estouro de esgoto na casa dele.
O uso da narração em off ficou mal executada devido ao tom e voz escolhido por Selton Mello pro papel, pois em momentos são difíceis de saber sua fala com clareza. Numa produção com diretores como Daniel Rezende e o próprio Padilha, são poucos inspiradas as cenas.

A série se salva devido a algumas boas atuações, principalmente de Caroline Abras e de Enrique Diaz. Ela não se torna cansativa devido ao número de episódios (8 ao total) e ao tempo de duração (não passando de 40 minutos cada). Se na próxima temporada a série for mais ousada, evitar seu maniqueísmo e melhorar a construção narrativa, ela até pode se tornar algo mais interessante, ainda mais considerando-se o que próprio Padilha tem feito com um assunto parecido como a série da própria Netflix, Narcos.
Série: O Mecanismo
Criação: José Padilha
Elenco: Selton Mello, Caroline Abras, Enrique Diaz
Gênero: Thriller/Drama/Criminal
País: Brasil
Data de lançamento: 23 de março de 2018
Emissora: Netflix
Duração: 40 min

Deixe um comentário

Sugeridos
5b1aad8eff4579d3ed29f194435f3f49f629f6c64373b368cb390473a6029a9e
CríticasGames

Apidya’ Special: a abelha morre, a voz repete e a paciência acaba

Apidya’ Special é a refeitura de um shmup do Amiga lançado em...

Froggy Hates Snow
CríticasGames

Froggy Hates Snow quase frita o “Switão” em nome da diversão.

Um sapo, um deserto congelado e uma bolha de calor da qual...

Manairons
CríticasGames

Manairons e sua falta de “Tompêrro”

Manairons é um platformer 3D de ação que bebe do folclore catalão...

Kitchen Wars
CríticasGames

Kitchen Wars: o restaurante pega fogo, mas o cardápio é curto

Overcooked e Moving Out ensinaram muita gente a gritar com os amigos...

City Hunter
CríticasGames

City Hunter: divertido e mal maturado.

City Hunter nasceu em 1990 no PC Engine, baseado no mangá de...

Leste do eden ambrosia critica
CríticasSériesTV

Leste do Éden constrói um linda história sob olhar cortante

Existe uma carga poética e quase inescapável na adaptação de Leste do...

The Holy Gosh Darn
CríticasGames

The Holy Gosh Darn: o roteiro salva o céu

Confesso que não me motivo muito com jogos sem muita mecânica de...

Voidwrought
CríticasGames

Voidwrought: faz o óbvio melhor que todo mundo

Às vezes basta fazer o óbvio melhor do que todo mundo, e...

Contos Paralelos
CríticasFilmes

Festival do Rio 2026 – “Contos Paralelos” e a Fronteira Difusa Entre Fato e Ficção

Asghar Farhadi constrói elaborado meta-drama parisiense inspirado em Kieślowski e Hitchcock, que...

The Royal Writ
CríticasGames

The Royal Writ: bonito, polido e cheio de regra

Deckbuilder roguelike virou quase um gênero de prateleira própria depois de Slay...