João Pires Gama (arquivo pessoal / facebook)
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‘Para Todos os Corações Selvagens’ e sua fragilidade poética

Livro carece de maturação e rigor

Grandes desgraças e percalços movem a escrita de milhares de escritores, algumas são situações reais e demandam alta carga emocional associada à qualidade de composição do texto, tornando-o explosivo e atrativo, assim como foi com Marcelo Rubens Paiva em Feliz Ano Velho; com Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere e tantos outros. Cheguei a basear meu primeiro livro de poemas, Exílio, na experiência de quase morte após o acometimento da leucemia e toda carga dela decorrente. Não tenho detalhes do processo da escrita de Paiva e Ramos, mas acredito que usaram elementos semelhantes aos que apliquei: distanciamento, arrefecimento e critério estético para produzir o texto final. Entre vivenciar o cisma causado pela doença e a versão final do texto foram alguns bons anos.

Em outro plano existem aqueles que se investem de doenças e vícios para escrever ou validar sua produção. Caso mais notório é de um escritor do norte brasileiro, capaz de enganar articulistas e um grande editor com suas histórias. Investindo na roupagem de ex-morador de rua e viciado alcançou um contrato para um livro com a maior editora do país, algo que faz anos que esperamos se concretizar – o tal livro que não sai.

Sejam as histórias reais ou não – e pode o escritor ficcionar livremente – o que é ruim é a mitificação ou glorificação da desgraça e a valorização da doença ou de um incômodo social qualquer, colocando o subjetivo histórico, ou seja, o elemento base para a escrita, acima daquilo que é concreto, o resultado final, o texto. Simples desgraça deve ficar na lembrança ou, no máximo, virar diário de adolescente ou adulto com síndrome de Peter Pan.

O livro Para Todos os Corações Selvagens (Editora Multifoco / 2018), do jovem João Pires da Gama, é caso típico de livro que deveria ter permanecido diário. Não se pode desmerecer seu sofrimento, internado diversas vezes em clínicas de recuperação após a utilização de drogas e álcool. Isso com apenas vinte e cinco anos. Não há uma régua capaz de mensurar sofrimentos e falar que aquilo que uma pessoa passou foi insignificante ou maior que o sofrimento do outro. O livro tem inegável valor para o artista, pode ter valor social e influenciar outros jovens como ele. Pode abrir espaços para o debate da glamourização do álcool e das drogas e seu uso desenfreado e mesmo sobre a real necessidade da internação de um garoto tão novo. Tem seu valor. De fato. Mas não esteticamente, muito menos para a literatura criteriosa e orgânica, a que permanece além dos arroubos. É um livro fraco, sobretudo para um poeta radicado no Rio de Janeiro, cidade que abrigou sete entre os dez melhores poetas brasileiros dos últimos cem anos.

Em um dos poemas, escolhidos para divulgação pela sua assessoria de imprensa – fato raro entre os escritores atualmente – temos uma amostra da palidez linguística do escritor:

Para todos os corações selvagens

 

Eu e o meu coração selvagem

Que bela dupla nós somos

Eu pego um táxi sem dinheiro

Eu bebo, eu bebo, eu bebo…

Só Deus para saber como estou tentando

Só Deus para me dar guarida

Só Deus para aceitar os meus erros

Eu e o meu coração selvagem

E o gosto por viver intensamente

Em todas as horas eu ardo

Todos os dias, todos os dias…

E à noite eu padeço

Em pedaços, sempre em pedaços

Como eu faço para me redimir?

Com toda essa culpa no cartório?

Eu e o meu coração selvagem

Vivendo no automático

Talvez dessa vez funcione

Se eu conseguir colocar

O meu coração na estante

 

Lendo em voz alta não consigo ver nada além de um garoto qualquer com problemas e que esbraveja perante a mãe, a família ou a sociedade. É a voz de João, mas poderia ser qualquer outro. É um pedido de ajuda? Um desabafo? Sim, mas não há novidade, não há aquele incômodo criativo que nos leva a amar ou odiar a obra. Não vejo explosão. Imaginei ter sido opção da assessoria a escolha de um poema morno (para frio); pontuei que assim tivesse ocorrido por causa do título – o mesmo do livro. Contudo, os quinze poemas escolhidos para a composição da obra mantém a mesma frivolidade.

Para Todos os Corações Selvagens é um livro fraco, não condiz com a arte poética e nem com a boa e afável figura do seu autor. Teria que ter sido amadurecido por mais tempo, passado por amplo processo de revisão e organização.

O livro pode ser adquirido no site da Editora Multifoco.

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcelo Adifa

Publicado por Marcelo Adifa

Marcelo Adifa é jornalista, roteirista e redator. Autor de Exílio (2015); A quem se fizer estrela (2016) e Saltar Vazio (2018), entre outros livros de jornalismo, poemas e romances.