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Sátira sem receio de Yan Lianke em "Os beijos de Lênin"

A ficção sempre nos reserva um olhar único sobre certa questão. Em muitos casos, supera a política. As narrativas fictícias refletem a realidade em meio à nossa experiência, passando uma coerência literária. É o caso do chinês Yan Lianke, que chama a política de sua China natal de “uma estratégia da amnésia coletiva”, em que a censura constante, forja documentos, molda os manuais escolares e divulga o esquecimento.
As narrativas de Yan combatem essa política desde os anos 1990, período que começou a publicar, lembrando as tragédias que marcaram o seu país. Do plano louco de industrialização de Mao Tsé-Tung acabou com o sistema agrícola, destruindo milhares de hectares de plantações e causou uma fome que matou mais de 40 milhões de pessoas, até as novas loucuras, agora burocráticas do século XXI.
São várias obras, recorrendo sempre à sátira para criar tramas inspiradas nas idiossincrasias de seus compatriotas, entre as quais O sonho da aldeia Ding – crônica do terrível comércio de sangue humano que aguçou a epidemia de AIDS no país – A serviço do povo, uma provocante sátira ao regime de Mao Tsé-Tung e sua revolução cultural e agora com Os beijos de Lênin, lançamento da Record, que traz uma sátira do sistema neomercantil introduzido na China no início dos anos noventa.
Lenin’s Kisses (traduzido por Shou Hu) é um exemplo raro e fascinante da literatura contemporânea chinesa. Escrito há cerca de 10 anos e premiado com o prestigiado Lao She Prize, foi o último dos romances que, sob o título Delight, foi autorizado a publicar na China.
Apesar da narrativa relativamente simples, o que torna este livro tão interessante é a estrutura e a forma como a história é contada. O cenário é bem típico. Uma pequena aldeia na China rural, avivada, mas com uma diferença: o vilarejo é habitado quase totalmente por deficientes. Fundada por um cego e um aleijado na época do exílio forçado (dinastia Qing) que foram abandonados ali e iniciaram um milagre. Durante dois séculos, o povoado cresceu desfrutou de uma vida pacífica até que, nos anos cinquenta, o militante do Exército Revolucionário Mao Zhi chegou à aldeia e convenceu os habitantes que eles devem adotar o caminho socialista da vida.
No entanto, quando uma nevasca surpreende a todos e acaba com a colheita do ano, o chefe do condado decide viajar até lá para oferecer apoio financeiro. E cria um plano capaz de levantar dinheiro para o distrito e promover sua carreira, usando as habilidades especiais que cada um possui. Sabendo disso, e contrariando os desejos da Vovó, Mao Zhi convence os moradores da aldeia a criar uma trupe de artistas, uma espécie de freak show itinerante.  Com o dinheiro obtido nessas apresentações, ele planeja construir um mausoléu e comprar da Rússia o corpo embalsamado de Lênin para atrair turistas ao seu distrito, e até mesmo um parque temático com os grandes nomes da História comunista. Porém, o sucesso da trupe tem um preço muito mais alto do que qualquer um poderia imaginar.
Um conto complexo e interessante sobre os desafios do sistema político e econômico chinês no mundo moderno, com a atração do dinheiro lutando com os ideais socialistas. Em termos de estrutura, como podemos esperar da ficção chinesa, é bastante forte em imagens.
O uso extensivo de notas de rodapé (chamadas de ‘leitura adicional’) é um aditivo interessantíssimo à narrativa, pois não devem ser lidas como notas de rodapé, mas sim no final dos capítulos principais, pela maneira que explicam alguns aspectos do texto, sem qualquer spoilers do enredo, que realmente contribui para a experiência do leitor.

O autor também enfatiza a importância da natureza dentro e fora da narrativa, como as nevascas de verão e as variações nas expectativas sazonais, abordando a construção dos momentos entre o presente e o passado. Uma crítica à censura chinesa bem feita e uma alegoria para a situação de um escritor que vive em um mundo censurado. Quem se lembra de Ensaio sobre a Cegueira, do José Saramago pode fazer uma comparação. Mas aqui há bem mais densidade política.
Os beijos de Lênin é daqueles livros que alfinetam a realidade doentia de um sistema que se aproveita dos pobres como um atalho para a riqueza. A economia de mercado moldou o campo que, esquecido, se torna um pária perante a burocracia, o dinheiro e o poder que são idolatrados. Bem caricatural, divertido e satírico. Merece uma leitura.

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