Série nacional “Chuva Negra” foca na complexidade das famílias modernas

Série do Canal Brasil também dá show no quesito inclusão

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Apesar de tantos pesares, a produção nacional de séries segue a todo vapor. Mesmo com um governo que desprezava a cultura e atravessados por uma pandemia paralisante para todos os setores da sociedade, novas séries foram feitas no território tupiniquim, a exemplo da excelente Chuva Negra.

Na cidade de Chuva Negra mora o casal Geraldo (Zécarlos Machado) e Nancy (Julia Lemmertz) e seus três filhos: Vitor (Rafael Primot), recém-desempregado, Zeca (Marcos Pitombo), considerado um eterno garotão sem responsabilidade, e Lucas (João Simões), um adolescente com síndrome de Down. A felicidade da família é interrompida numa viagem do casal a Jerusalém: o avião em que Geraldo e Nancy estavam desaparece do espaço aéreo.

Tendo de lidar com um luto sem corpos, a família volta a se reunir sob um mesmo teto. Vitor, afundando em dívidas, leva consigo a esposa Julie (Vanessa Giácomo) e o filho bebê. Além de Vitor, Zeca, Lucas e Julie, vive também na casa a agregada Micha (Leona Jhovs). E quem chega para completar o cenário de caos é a inconveniente tia Yara (Denise Del Vecchio).
No começo de cada episódio vemos flashbacks que nos contam mais sobre a vida a dois de Nancy e Geraldo. Além da presença inesperada dos patriarcas, a série ainda conta com a trama paralela dos vizinhos da família, o casal formado por Rocha (Kiko Pissolato) e Orlando (Dudu de Oliveira).


Chuva Negra é uma destas raras séries em que não existem protagonistas e coadjuvantes: cada personagem tem uma trama bem desenvolvida em algum momento dos dez episódios. Por exemplo: Micha não é somente quem mais cuida de Lucas, ela é também uma mulher trans que se aproxima de Vitor e que sofre com a iminente saída do seu pai da prisão, onde ele foi encarcerado após tê-la agredido.

Foi muito divulgado o fato de que Chuva Negra traz o primeiro protagonista com Síndrome de Down da televisão brasileira. João Simões é espontâneo como Lucas, e com certeza só conseguiu ter uma boa performance porque é tratado com muito respeito e carinho por seus colegas de cena.

Yara é uma personagem construída em cima do clichê “pessoa insuportável”. Tudo o que ela faz já vimos sendo feito por pessoas horríveis, como acusar a empregada de furto e dizer para um homossexual “eu não sou preconceituosa, mas não quero ver dois homens de mãos dadas na rua”. Essas atitudes nos são apresentadas de modo didático – como seriam se fossem parte de uma novela – como coisas a não fazer.

Rafael Primot, além de interpretar Vitor, é também criador e co-diretor da série, dividindo a função atrás das câmeras com Otávio Pacheco. Ele se sai bem em ambas as funções, dando profundidade dramática para o personagem, em especial em suas interações com Julie e Micha, e é competente na batuta, tirando de todos os artistas interpretações emocionantes.

Os créditos trazem a informação de que Chuva Negra foi “filmado em locação na cidade de São Paulo com o apoio da São Paulo Film Commission”. Tal comissão, como consta no site oficial, tem como objetivo “transformar a cidade em um cenário a céu aberto, facilitando as filmagens nacionais e estrangeiras”. Tal iniciativa ajuda não somente a indústria audiovisual, mas também o turismo e o comércio, fazendo o dinheiro circular na maior metrópole do Brasil. Se considerarmos o recente desprezo pela atividade cultural, a São Paulo Film Commission, indo na contramão, mostra o impacto positivo desta indústria na economia, algo que é muito bem-vindo.


Chuva Negra é uma destas raras séries nas quais você se afeiçoa a todos os personagens – e ainda tem um plot twist de tirar o fôlego. A cada episódio, a vontade é descobrir mais e mais sobre esta família e aqueles que os cercam, deixando o espectador em muitos momentos angustiado, emocionado e intrigado. Como toda boa série faz.

Chuva Negra

Chuva Negra
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Nota: 10/10: Épico
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