Darren Aronofsky não é um cineasta para todos os gostos, assim como seu mais recente filme, “A Baleia”. A escolha do cineasta por narrativas em que se estabelece paralelismo com a religião parece muitas vezes incomodar mais do que seus elementos gráficos. Em “Réquiem por um Sonho”, por exemplo, o público ficou muito mais preocupado em se chocar com as cenas de degradação do que com o subtexto bem mais perturbador.
Já em “A Baleia”, novamente o público parece ter se atraído pelo motivo errado, A transformação do ator Brendan Fraser em uma criatura grotesca é apenas parte de uma alegoria.

Charlie (Fraser) é um instrutor de redação online que vive com obesidade crônica, marcado pelas feridas profundas da dor e da culpa agora. Vive confinado em seu apartamento claustrofóbico e mofado em Idaho (a história se passa em 2016), recluso autodestrutivo atormentado pelos traumas do passado, envolvendo paternidade e relacionamento. No entanto, mais do que tudo, o falho Charlie anseia por comunicação e reconexão.
Baseado na peça de Samuel D. Hunter, Aronofsky se ateve à linguagem original, fazendo um cinema com estética teatral (inclusive se valendo do escopo 4:3), mas sem deixar de recorrer de forma bem pensada a recursos cinematográficos. A fotografia de Matthew Libatique é acertada em proporcionar a atmosfera claustrofóbica e paradoxalmente intimista elaborada pelo cineasta.

Brendan Fraser tem aqui sua redenção. Do jeito que Hollywood gosta (isso o torna grande favorito para o Oscar de Melhor Ator), emerge da sarjeta, de uma carreira tida como patética e decretada como encerrada para provar seu valor cênico debaixo de uma pesada (e extremamente convincente) maquiagem. As coadjuvantes Hong Chau e Sadie Sink também brilham.
Baleias não vivem em águas rasas, isso é sabido. O amor e o perdão podem enxugar as lágrimas e os erros dolorosos de uma vida? Essa é a grande questão posta na saga de Charlie, por quem nos flagramos torcendo instintivamente. Em cada nuance é possível nos identificarmos, o que proporciona abrigo e desconforto (olha o paradoxo de que Aronofsky tanto gosta). O elemento religioso tão caro ao cineasta pode ser considerado por alguns consideram o calcanhar de Aquiles do longa. De qualquer forma, é uma válida reflexão.









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