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A dupla dinâmica ataca novamente

Depois de enorme sucesso com o filme “Penetras Bons de Bico”, a dupla composta por Owen Wilson e Vince Vaughn realiza mais uma engraçadíssima comédia: Os Estagiários.

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Escrito e idealizado por Vince Vaughn, também produtor do filme, “The Internship” tem quase duas horas de pura diversão. No melhor sentido da palavra. A química entre os dois atores é tão boa que muitos diálogos parecem ser improvisados. Um caso de amor quase onde um completa a frase do outro. Lembra de Walter Matthau e Jack Lemmon? Oscarito e Grande Otelo? Dean Martin e Jerry Lewis? Ou mais recente, Seth Rogen e James Franco? Paul Rudd e Jason Segel? Bom, pode soar exagerado pra alguns, mas esta humilde cineasta/resenhista acredita que esta é uma dupla que tem muito pra nos mostrar ainda.

Os dois personagens centrais são vendedores experientes cuja profissão sempre se baseou no contato direto com o cliente, aquele tipo de serviço especializado, pessoal. Um belo dia, descobrem, no meio de uma tentativa de venda, que o dono de sua empresa acabou com os negócios, deixando os dois quase quarentões com pouquíssima experiência em outros ramos, desempregados. Quando se vêem no dilema entre se conformar com um posto de venda cômodo, mas insatisfatório e uma chance mínima de superar suas expectativas e trabalhar numa das empresas mais cobiçadas dos Estados Unidos, eles decidem arriscar essa segunda opção.

Durante esse período de avaliação, serão obrigados a passar por provas em grupo, sendo guiados por um dos funcionários efetivos. Defasados de todo o linguajar tecnológico necessário para passar por algumas dessas provas, se aproveitam de suas habilidades de comunicação, de convencimento, construindo um clima de união e amizade, tão necessário para o bom funcionamento do “time”.

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O contexto que justifica a história é um clássico exemplo de roteiro americano, em que os personagens têm que passar por uma provação pessoal e superar seus medos e inseguranças para alcançar seus sonhos. Para isso, passamos por alguns discursos de motivação pessoal do tipo: “Você precisa acreditar em você mesmo”. Ou “Só conseguimos o que queremos se corrermos ricos”. Há momentos em que esses discursos de motivação podem cansar, dependendo do nível de entrega do espectador, assim como a publicidade exagerada do Google Way of Life, “uma ferramenta de pesquisa que se tornou um veículo para melhorar a vida das pessoas”.

O roteiro usa ainda a velha fórmula na qual vários indivíduos de universos diferentes se vêem obrigados a unir forças para ganhar uma competição e acabam aprendendo um com o outro no processo, modificando sua relação interpessoal e criando um clima de solidariedade no lema “o importante é competir e dar o melhor de si”.

Me atrai bastante o conflito que é colocado como um dos temas centrais: as relações mediadas por máquinas, tanto nos serviços, como nos trabalhos e nos relacionamentos em oposição ao encontro, ao contato pessoal direto e como essa segunda forma estaria em desuso.

Os protagonistas encontram uma maneira de trazer essa característica, aparentemente obsoleta, para sua vantagem. O que os diferencia efetivamente é seu otimismo perante as dificuldades e sua capacidade de se relacionar com as pessoas num nível humano. Como um dos personagens fala, essa habilidade de se comunicar, de se aproximar dos outros, é uma arte perdida. Não acho que o filme se deixa cair num tom melancólico e saudosista dos “tempos antigos que nunca voltarão”, e, apesar do óbvio elogio à tal arte do encontro, olha pra frente, “with no regrets” (sem arrependimentos).

Como sempre, há alguns furos de verossimilhança, como o fato dos protagonistas se inscreverem numa universidade à distância e isso nunca mais ser mencionado, ou simplesmente o fato da namorada de vários anos do personagem de Vince Vaughn abandoná-lo no início e isso não gerar nenhum tipo de sequela real. Assim como o mecanismo do qual a comédia tanto se serve de simplificar os personagens em categorias de bons e maus, facilitando rir das piadas politicamente incorretas ou em não sentir pena dos antagonistas quando se dão mal.

No final das contas, conclui-se que a vida apresenta uma série de percalços no nosso caminho, mas que de vez em quando vamos acertar e tudo vai ter valido a pena. Porque o importante é saber levantar e tentar de novo depois de errar, sem medos, sem traumas. “É o que a gente faz quando sai do liquidificador que conta”.

E, em meio a tanto cinismo e praticidade do mundo atual, não é possível impedir as mudanças, mas talvez seja possível tentar utilizar esses avanços tecnológicos para nosso benefício, adaptando-os às nossas necessidades e não o contrário, quando nos tornamos seus escravos.

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