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“A Mulher na Janela” se salva graças ao talento de Amy Adams

Uma pessoa observa seus vizinhos pela janela e acredita que um crime ocorreu. É uma história conhecida, do filme Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, que inclusive já teve sua versão brasileira com Fernanda Montenegro e Raul Cortez, O Outro Lado da Rua, de 2004. Sem incluir a parte do assassinato, tornar-se voyeur pode ter sido o escape encontrado por muitos na quarentena. Com certeza esta foi a válvula de escape encontrada pela psicóloga Anna, do filme A Mulher na Janela.

Anna Fox (Amy Adams) sofreu um trauma há algum tempo. Hoje, há dez meses sem sair de casa, longe da família, recebe um terapeuta uma vez por semana para tratá-la – embora ela não goste dos métodos dele e comece a achar que ele a está controlando – e, sozinha, bebe vinho e vê filmes de sua coleção, filmes que já viu tantas vezes que consegue recitar as falas conforme elas aparecem na tela. Nas muitas horas vagas, observa os vizinhos.

Curiosidade crescente é um sinal de depressão, diz Karl, o terapeuta. Cada vez mais curiosa com a vida dos vizinhos, Anna vê a família Russell se mudar para a casa em frente à dela num bairro de Manhattan. Numa noite chuvosa, Ethan (Fred Hechinger), filho único dos Russells, um adolescente de 15 anos, visita Anna e lhe entrega uma vela perfumada, presente da mãe. Ele parece perturbado e Anna oferece ajuda, e o que ele aceita é a amizade dela. Pouco tempo depois, na noite de Halloween, Anna é visitada pela mãe de Russell, Jane (Julianne Moore), que passa boa parte da noite conversando com ela.

Na noite seguinte, Anna vê Jane sendo assassinada e liga para a polícia – não é a primeira vez que ela liga para a polícia ao ver ou ouvir algo estranho do outro lado da rua ou mesmo em sua casa, que divide com o inquilino David (Wyatt Russell). Anna finalmente sai de casa, mas é parada no meio do caminho. Com a polícia em sua casa, recebe Ethan, o pai dele, Alistair (Gary Oldman) e, para sua surpresa, quem eles apresentam como Jane é uma mulher que Anna nunca havia visto (Jennifer Jason Leigh). Ela resolve, então, começar uma investigação por conta própria

A mudança de gênero da protagonista em relação a Janela Indiscreta é muito interessante. É muito comum que mulheres sejam chamadas de loucas quando fazem denúncias, seja por coisas que aconteceram com elas ou com outras pessoas. Anna já é uma mulher com problemas mentais – sofre de agorafobia – e traumas. Taxá-la de louca é a ação mais normal do mundo para policiais e para seus vizinhos – até mesmo para seu inquilino. Vale lembrar que em Janela Indiscreta, L.B. Jefferies (James Stewart) tinha duas mulheres ao seu lado durante a investigação: a namorada Lisa (Grace Kelly) e a enfermeira Stella (Thelma Ritter). Anna está sozinha em sua investigação e, apesar de não ter uma deficiência motora temporária como o personagem de Hitchcock, tem muitos obstáculos a transpor, começando pela descrença de todos ao seu redor.

As homenagens são muitas, e logo no início a TV de Anna está ligada justamente em Janela Indiscreta. Logo aparecem cenas de outros filmes de suspense, incluindo Laura (1944), Prisioneiro do Passado (1947) e Quando Fala o Coração (1945), também de Hitchcock. Mas essas homenagens poderiam ter sido deixadas de lado e trocadas por fidelidade à história original: várias pessoas que leram o livro de A.J. Finn dizem que o filme não lhe fez justiça.

Com Julianne Moore e Jennifer Jason Leigh praticamente desperdiçadas, cabe a Amy Adams todo o esforço. E é dela realmente que tudo depende: a trilha sonora é boa, há um momento bem gore, a história tem algo de previsível, mas Amy Adams salva o dia e salva o filme.

Nota: Bom – 3 de 5 estrelas

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