A forma mais fácil de se retomar uma franquia clássica do cinemão é recorrendo ao prólogo. A saga de terror “A Profecia”, que havia ganhado um desnecessário remake recentemente, enxergou nesse caminho o meio mais fácil de retornar às telonas com “A Primeira Profecia”. Igualmente desnecessário. De fato não era de se esperar algo revolucionário em um título que não nega seu caráter caça-níqueis. Mas sempre fica a torcida pela surpresa.
Depois que George Lucas retomou a saga Star Wars em 1999, contando a história pregressa, Hollywood embarcou no filão e o gênero que de fato mais vem se utilizando desse formato é o terror. Uma grande franquia, que inclusive aborda um tema afim, “O Exorcista”, foi uma das primeiras a explorar o passado para capitalizar em cima da nostalgia dos fãs antigos e angariar novos.

A fórmula é bastante conhecida pelos cinéfilos mais experientes: emula-se o clima do original (geralmente aquele que é considerado o melhor da série, ignorando os que deram errado), salpica-se referências, e, claro, cria todo um enredo preparando o terreno para o evento que realmente importa, que é o que já foi visto. Porém, algumas prequels são tão propedêuticas que realmente nos fazem questionar seu propósito de existir. É esse o caso aqui.
Em “A Primeira Profecia”, uma jovem americana é enviada a Roma para começar uma vida de serviço à Igreja. No entanto, quando ela se depara com um evento misterioso e sombrio que a faz questionar a sua fé e descobre uma conspiração terrível voltada para provocar a concepção da encarnação do mal.

O esquematismo permeia toda a duração. Ao mesmo tempo que obedece aos ditames das retomadas de franquia, também se reveste dos maneirismos do “novo terror”, como o “Invoca-verso” ou os longas da Blumhouse. A estratégia é obviamente agradar tanto aos fãs do clássico de 1976 quanto à geração das redes sociais. O resultado, no entanto, em boa parte é esquizofrênico.
A direção de Arkasha Stevenson – que também assina o roteiro, junto com Tim Smith e Keith Thomas – é esvaziada de autoralidade. Apenas segue retilineamente o guia da construção do terror moderno, embora no primeiro ato exiba uma beleza plástica que salta aos olhos, com auxílio da competente fotografia de Aaron Morton. Ali ela consegue compor adequadamente o clima proposto (atenção para a movimentação de câmera do prólogo) e reinserir o espectador no universo de “The Omen” como ele foi concebido por Richard Donner, mas sem exatamente arremedar. No entanto, seu roteiro, eivado de escolhas equivocadas (como situações e até personagens que não se justificam), acaba prejudicando o trabalho, esvaziando até seu maior trunfo, a plasticidade, que no último terço é praticamente esquecido.

A escolha do elenco, por sua vez, é um acerto, assim como seu desempenho. Por mais que esteja engessada em clichés, Nell Tiger Free encontra um tom bastante adequado para a protagonista Margeret, tentando ao máximo fugir das armadilhas que o próprio roteiro cria para empurrá-la ao caricatural. Maria Caballero, que interpreta a personagem Luz, não escapa tão ilesa, mas ainda assim tem uma atuação satisfatória. A nossa Sônia Braga (nos créditos “Sonia”) é a força motriz desse prelúdio e mostra mais uma vez para o mundo seu talento, com uma performance soberba. O peso e a autoridade que ela imprime na Irmã Silva fazem a diferença no fio condutor.
“A Primeira Profecia” é uma prequel forçada que deixa a desejar para quem esperava algo que se igualasse ao clássico do terror de quase 50 anos, ou ao menos se aproximasse dele. O longa falha por reforçar a tendência de se retomar franquias trocando subjetividades que compunham a excelência do original pela obviedade gráfica sob medida para esse mundo novo, viciado em estímulos. E nisso se inclui jump scares, trilha sonora em volume desnecessariamente elevado e trechos que parecem ter sido inseridos para viralizar no TikTok. Damien merecia mais.









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