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A Saga Cinematográfica do Superman

O Super Homem é indubitavelmente um dos maiores (se não o maior) ícones da cultura pop do nosso tempo. Criado pela dupla Jerry Siegel e Joe Shuster, o herói debutou nas páginas da Action Comics número 1 em 1938, aquela com a famosa capa que mostra o herói erguendo um carro. Superman, o homem de aço, era um herói valoroso, defensor da verdade, da justiça e do modo de vida norte americano, o que até hoje é visto com antipatia, já que o personagem foi criado imbuído de um espírito ufanista, semelhante ao Capitão América, embora menos explícito. Devido ao sucesso daquele que inaugurou a era dos super heróis, a mitologia do século XX, não tardou muito para que o filho de Krypton ganhasse vida na pele de uma sucessão de atores. O início da era dos quadrinhos coincidiu com a massificação do audiovisual e o casamento foi imediato e duradouro e se mantém mais sólido do que nunca nos dias de hoje. Assim como Flash Gordon, Buck Rogers e Tarzan, Superman também ganhou sua versão live action no ano de 1948, mesmo ano em que outro herói da DC, Batman, ganhou carne e osso pela segunda vez (a primeira havia sido em 1943).

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O cine seriado de Superman, estrelado por Kirk Alyn, contava com Noel Neill como Lois Lane e Thomas Bond como Jimmy Olsen e consistia em 15 episódios nos quais era contada a história que talvez seja tão famosa quanto a do nascimento de Cristo; bebê kriptoniano é posto em uma nave por seus país para que escape da destruição de seu planeta. Chegando à Terra, é adotado por um casal terráqueo sem filhos. Suas moléculas reagem ao sol e à atmosfera terrestre e isso lhe confere super poderes. Já adulto ele adota a identidade de Super Homem, e se esconde atrás de um par de óculos e uma personalidade tímida de Clark Kent, para se disfarçar. Houve também uma sequência, Superman VS Atom Man, com Lyle Tabot no papel do vilão Lex Luthor. As técnicas de efeitos especiais, utilizando animação em rotoscopia, eram o que havia de mais plausível na época para mostrar um homem voando com um mínimo de realismo. Mas quase cômico era quando Clark usava sua visão de raio x e a câmera dava um close em seus olhos se arregalando.

Em 1951 foi a vez de George Reeves dar vida ao personagem na série de TV, Adventures of Superman. Reeves fora escolhido por ter um rosto que lembrava muito os traços do herói desenhado nos anos 40 e 50. O debut da nova fase live action de Superman foi com o longa metragem Superman vs Homem-Verruga. Simultaneamente estreou o seriado da TV, justamente para promover a estreia cinematográfica. O seriado durou até 1958 e em 1959 Reeves foi encontrado morto com um tiro na cabeça em sua casa em Los Angeles. A investigação policial chegou à conclusão de suicídio, o que fazia sentido, pois o ator andava deprimido por conta do cancelamento da série e a falta de oportunidades oferecidas a ele no showbiz. Há também a versão conspiratória de que o ator fora assassinado, por ter um romance com a atriz Toni Mannix, casada com o então executivo da MGM, Eddie Manix. Essa versão nunca foi confirmada, mas serviu de pano para manga no filme Hollywoodland, com Bem Affleck, que mostra as investigações do que de fato ocorrera, ressuscitando a polêmica.

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Mas a versão definitiva do homem de aço nas telas ainda estava por vir.

Em 1976 a Warner começou a planejar uma nova versão das aventuras do homem de aço para o cinema com toda a pompa e circunstância com o desiderato de cravar essa como a versão viva definitiva do herói. Na esteira de blockbusters como Tubarão de Steven Spielberg e mais ainda Star Wars de George Lucas, o projeto do estúdio era bastante ambicioso. Seriam usados efeitos especiais de ponta, os mais críveis existentes na época, e, claro, um elenco de peso. A Warner queria que o lançamento coincidisse com os 40 anos do herói, celebrados em 1978. Com Ilya Salkind na produção executiva e Pierre Spengler como produtor, a produção contava com Mario Puzo, de O Poderoso Chefão para escrever o argumento. O roteiro a principio ficaria a cargo de William Goldman (Todos Os Homens do Presidente e Butch Casidy & Sundance Kid). Na direção, Spielberg chegou a ser considerado, mas o diretor pediu um salário que os produtores consideraram demasiadamente alto. O diretor de Western Sam Peckinpah de Meu Ódio Será Sua Herança) também chegou a ser cogitado. O diretor contratado foi o inglês Guy Hamilton, conhecido pelos filmes de James Bond: Goldfinger, Os Diamantes São Eternos, Viva e Deixe Morrer e O Homem da Pistola de Ouro, mas o filme que estava planejado para ter suas cenas de estúdio filmadas na Itália acabou sendo transferida para a Inglaterra, onde o diretor só poderia ficar por 30 dias, por questões do pesado fisco inglês. O cineasta abandonara o país para fugir das taxas.

Finalmente os produtores fecharam com Richard Donner (A Profecia), que trouxe consigo o roteirista Tom Mankiewicz (que acabou não sendo creditado), já que Donner discordou de alguns pontos do argumento e roteiro de Puzo, David e Leslie Newman. O diretor achava que o humor estaria um tom acima e deveria ser reduzido. Outro ponto que ele discordava era do caráter fantasioso, que de certa forma ficaria mais caro para filmar. Mankiewicz fez alterações para deixar a trama mais realista. Tudo pronto, era só encontrar o elenco. Como tratava-se de uma produção ambiciosa, eram necessários grandes nomes encabeçando o elenco. Para o papel de Superman pensou–se em Robert Redford, Paul Newman, Nick Nolte e Warren Beatty. Ofereceram-se para interpretar o personagem Sylvester Stallone e até Muhamed Ali. Como não se chegava a uma decisão sobre quem interpretaria o homem de aço, os produtores trataram de escolher um nome para viver Lex Luthor e Jor El. Os dois papéis foram oferecidos para Dustin Hoffman, que recusou ambos. Os papéis foram, respectivamente para Gene Hackman e Marlon Brando, que recebeu o maior cachê já pago até então, mesmo não tendo uma participação muito grande. Foram 3,6 milhões de dólares, mais 11,7% de participação nas bilheterias, contabilizando um total de 19 milhões. O papel de Lois Lane foi disputado entre várias atrizes, entre elas Anne Archer, Lesley Ann Warren e Stackard Channing. Margot Kidder foi a escolhida por ter sido a que acertou melhor no tom atrevido da repórter do Planeta Diário, e foi a única que, nos testes, interpretou com sarcasmo e ironia a fala do texto em que pergunta “você pode ver a cor da minha calcinha?”na cena da entrevista com Superman, testando a capacidade de ele enxergar através das coisas. O escolhido para viver o Super Homem foi o então desconhecido Christopher Reeve. Depois de tentar grandes astros para o papel, a produção decidiu que o mais acertado era colocar um desconhecido, para que o público acreditasse que aquele era o herói, e não um astro se fazendo passar por ele. A principio Richard Donner o achou um tanto magro, mas o diretor de elenco Lynn Stalmaster convenceu Ilya e Donner que aquela era a melhor escolha. Para que Reeve ganhasse massa muscular, David Prowse, o ator que emprestou o corpo ao vilão Darth Vader, foi convocado para a função de personal trainer. Outra grande preocupação era como fazer o herói voar sem parecer cômico. Foi um longo período de experimentos que foram desde um boneco catapultado até um aeromodelo, pintado como o personagem, guiado por controle remoto. Cogitou-se o uso de animação em rotoscopia, uma versão atualizada da técnica usada na cine-série do final dos anos 40. A solução final foi uma combinação de projeções com fundo em movimento e lentes de zoom especialmente desenvolvidas, que criavam ilusão de movimento ao darem zoom em Reeve enquanto faziam o fundo projetado se distanciar. Quando o Super Homem precisava interagir com pessoas e objetos, o ator e seus colegas de cena eram colocados em equipamentos com cabos, escondidos por um cuidadoso trabalho de iluminação e fotografia.

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O resultado deixou todos perplexos na época do lançamento. Richard Donner, Christopher Reeve e a equipe de efeitos especiais fizeram as plateias de todo o mundo acreditarem que o homem podia voar. Superman: O Filme foi um grande sucesso de bilheterias, alcançando mais 300 milhões de dólares em todo o mundo, uma marca altíssima para a época. Este é considerado até hoje o melhor filme de super herói de todos os tempos, devido ao excelente roteiro, efeitos especiais impressionantes na época, um belíssimo trabalho de fotografia, além do perfeito desempenho de todo o elenco, e claro, Reeve, que é considerado a versão definitiva do herói. O filme conseguia levar para a tela o espírito das melhores histórias do filho de Krypton. Assim como hoje, o herói já era considerado um tanto antiquado naquela época, com queda nas vendas de gibis, mas a produção acertou em, ao invés de tentar atualizar o personagem, dar um ar retro à trama. Isso pode ser visto nos figurinos, que, apesar de contemporâneos, tinham toques de anos 40 e 50, seja nos trajes de Lois, seja no indefectível chapéu de Clark (como o personagem usava nos quadrinhos originais) Filmado simultaneamente, Superman II foi finalizado após muita turbulência. Richard Donner se desentendeu com a equipe de produção, abandonou o projeto com o primeiro filme finalizado, mas o segundo a 25% da conclusão. Para finalizá-lo foi convocado Richard Lester, com quem Ilya havia trabalhado em Os Três Mosqueteiros. No filme, o público veria o embate entre Superman e os três condenados por seu pai, liderados pelo general Zod. Em 2006 foi lançada em DVD a versão de Richard Donner, já que Lester mudou bastante coisa que já estava filmada. Lester também assinou o terceiro filme, mas este foi bastante inferior, com um tom cômico que desagradou os fãs, que não gostaram de ver o herói servindo de escada para Richard Pryor. A única sequencia que ficou na retina foi a luta entre o Superman mau e sua versão boa.

Em 1987 foi dado o golpe de misericórdia na série com o lançamento de Superman IV, Em Busca da Paz. Produzido pela Canon, famosa por suas produções baratas, que adquiriu os direitos com a Warner, a quarta aventura mostrava o Super Homem envolvido com a questão de desarmamento nuclear e de quebra tem de enfrentar a criação de Lex Luthor (Gene Hackman que voltou ao personagem, provavelmente precisando pagar as contas): O Homem Nuclear. O embate é uma versão pobre e deprimente do embate do herói com Zod no segundo filme. Devido à falta de orçamento e recursos, os efeitos especiais, que foram um dos trunfos dos primeiros filmes, eram bisonhos no quarto filme. Foi o fim melancólico da fase Christopher Reeve do herói.

Depois do sucesso de Batman em 1989, a Warner parecia decidida a trazer o Kryptoniano de volta às telonas. Vários projetos foram iniciados e engavetados, diretores roteiristas e atores cogitados, até que se chegou a Superman Reborn. Posteriormente intitulado Superman Lives, talvez seja o mais famoso filme que nunca chegou a ser feito.  A película contaria com Tim Burton na direção e Nicolas Cage no papel principal. O detalhe é que o Super Homem usaria uma armadura negra parecida com a do Batman (houve até prova de figurino como se pode ver abaixo), não teria capacidade de voar e seus poderes também seriam limitados. Para os voos ele contaria com um super jato (!!!!) idéia concebida pelo estúdio para vender brinquedos (eram os anos 90, lembram, a década do merchandising selvagem no cinema). Cage protestou, pois queria voar e ter todos os super poderes.

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Veio então o roteiro de Kevin Smith, que não saiu do papel por exigir um orçamento que a Warner não estava disposta a pagar. Depois de de sete anos o projeto Superman foi mais uma vez desarquivado, e dessa vez tomou forma como uma espécie de continuação do filme de Richard Donner. Bryan Singer (o escolhido após terem cogitado McG e quase terem contratado Brett Ratner) afirmava na época que o filme era o que o Superman III seria se fosse uma continuação direta de Superman II, mas a versão de Richard Donner.

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Superman O Retorno, com Brandon Routh, era uma homenagem aos filmes com Christopher Reeve, e talvez esse tenha sido seu grande equivoco. A falta de personalidade da película (Routh se esforçava para interpretar Reeve e não o personagem), a falta de ação e a longa duração contribuíram para que o público fosse morno ao longa. Pensou-se em uma continuação, uma vez que a bilheteria fora satisfatória, embora inferior ao que se esperava. A Warner acabou optando pelo Reboot e nascia o projeto de Homem de Aço, que estreou nos cinemas brasileiros no último fim de semana e conta com Zack Snyder (3oo) na direção, Henry Cavill no papel principal, Amy Adams como Lois Lane e Christopher Nolan (trilogia do Cavaleiro das Trevas) na produção e roteiro. Esse filme pode gerar não só uma continuação (já houve sinal verde no estúdio), como poderá ser um prequel para a Liga da Justiça, que seria o Vingadores da DC. Uma coisa pode se ter certeza: essa não será a última vez que veremos Superman na telona.

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