Sem dúvida, o anime mais famoso dos anos 80, aquele que rompeu fronteiras e chegou a salas de cinema do mundo todo, foi “Akira” (1988). Mas ele teve seus precursores, entre eles “Angel’s Egg” (1985) que, quarenta anos após sua estreia, volta aos cinemas em grande estilo e ainda provocador com suas possíveis interpretações filosóficas.
Primeiro, uma mão humana, inicialmente embranquecida, depois com pele clara, abrindo e fechando os dedos. Segundo, um ovo transparente com algo como um pássaro se desenvolvendo lá dentro. O céu vermelho, refletido no mar. Máquinas rotas e uma espécie de fábrica. Um olho que tudo vê baixando dos céus. Por fim, uma menina que dormia e, uma vez desperta, espia para fora de seu provável esconderijo. Tudo isso antes do nome do filme aparecer na tela. Nada de diálogos, mas muito é dito.

A menina leva consigo um objeto oval de tamanho médio, que colocado por debaixo da roupa fica parecendo uma barriga de grávida. Quando ela para pra se abastecer de água, as sombras das árvores refletidas no lago lembram pernas de animais peçonhentos.
Saltando de um veículo estranho, um homem de cabelos brancos presos num rabo de cavalo passa a seguir a menina, embora ela tenha jurado que havia conseguido despistá-lo da primeira vez que o encontrou. Como acontece tantas vezes no cinema, a menina e o homem formam uma dupla a contragosto.

O primeiro diálogo só acontece na marca de 24 minutos, e serve para nos lembrar de que no Japão o cinema nunca foi mudo. Até na era do cinema mudo, que durou alguns anos a mais na Ásia pela distância para se levar os equipamentos de som tanto para exibição quanto para filmagem, havia um personagem chamado benshi: alguém escolhido para ficar narrando e dramatizando o filme sem diálogos que era exibido.
Evocada pelo homem, personagem mais falante da dupla, é a história bíblica da Arca de Noé. Aliás, os créditos iniciais são apresentados tendo ao fundo a arca onde os personagens se escondem de uma tempestade constante. O esquecimento das pessoas da arca de Noé – de onde vieram, para onde iriam, o que aconteceu com a primeira pomba que soltaram – é como o esquecimento do próprio personagem. Tudo virou pedra e os detalhes se perderam.
Pode-se reclamar que os personagens não são muito expressivos. Também é uma reclamação válida que não são personagens bem desenvolvidos, pois não sabemos suas motivações nem mesmo a opinião que têm um do outro. Mas é um filme curto para que isso seja alcançado: “Angel’s Egg” tem apenas 71 minutos de duração, enquanto seu sucessor “Akira” tem mais de duas horas.

Definido por um usuário do Letterboxd como “um anime feito por Tarkovsky”, “Angel’s Egg”, por sua interpretação variada, mas sempre existencial, confundiu a cabeça dos espectadores na estreia e foi um fracasso de bilheteria. Ainda em 1985 o diretor Mamoru Oshii deu uma entrevista com uma possível interpretação: o conteúdo do ovo, que a menina tenta proteger, são os sonhos e esperanças humanos. As demais interpretações vieram com o tempo.
“Angel’s Egg” surgiu de um filme cancelado da franquia Lupin The Third. Feito sem um roteiro fixo, foi literalmente um produto da pura e imediata imaginação. Teve estreia direto no mercado de vídeo, naquela época um ainda nascente VHS, mas chegou a ser exibido em alguns cinemas. Por ocasião de seu quadragésimo aniversário, esse filme que ainda encanta e instiga, volta aos cinemas em 20 de novembro com distribuição da Sato Company.









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