Filmes

Anos 70: Indústria de Luz e Magia

No último mês J.J. Abrams, o Midas da TV (e agora também do cinema), lançou nos cinemas americanos seu último devaneio. Trata-se de Super 8, o filme sobre uns garotos no final dos anos setenta que, fazendo um filme de zumbi com uma câmera, do tipo que dá título à película, testemunham o início de uma ameaça alienígena. O criador do fenômeno Lost, que também realizou uma bem sucedida releitura da série Star Trek nos cinemas faz de Super 8 uma homenagem aos filmes do período em que se passa a trama, principalmente aos de Steven Spielberg, que por sinal é o produtor da fita. Há quem diga que o filme, que só estréia por aqui em agosto, poderia ser uma obra perdida de Spielberg. Abrams nunca escondeu sua influência e admiração pelo cinema feito nos E.U.A na segunda metade dos anos setenta que foram os precursores dos atuais blockbusters de verão, em uma época em que mesmo em um filme de entretenimento uma boa idéia bem realizada se sobrepunha ao marketing ainda incipiente.

Estados Unidos 1974. A primeira metade da década foi marcada pelo fim da geração paz e amor, pelo fim dos The Beatles, por uma crise econômica que assolou os países ricos causada pelo aumento do preço do petróleo e conseqüentemente da gasolina, o país acabava de testemunhar um dos maiores escândalos políticos de sua História, o caso Watergates que culminou no impeachment do presidente Nixon. Isso sem falar na derrota do Vietnã e os caixões com jovens americanos mortos voltando em aviões cargueiros. Com esse cenário, o cinema não tinha motivos para fabricar feelgood movies como nos anos 50 e inicio dos 60. Era o momento para filmes de temática ácida, contestadora, transgressora, feitos por cineastas que tinham por escopo justamente mudar a cara do conservador cinema americano. Nesse grupo estavam Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão), Martin Scorcese (Taxi Driver), Brian DePalma (O Fantasma do Paraíso) e William Friedkin (Operação França, O Exorcista).

 

Houve também uma ala que queria sim virar as costas ao status quo, contudo de forma mais escapista e com fortes influências dos quadrinhos, das matinês de sábado e do rock n’ roll. Nesse grupo estavam Spielberg (Tubarão), George Lucas (Guerra nas Estrelas) e Robert Zemeckis (Febre da Juventude). Lucas apadrinhado por Coppola lançou Loucuras de Verão (American Graffiti) pela American Zoetrope em 1974. A comédia nostálgica, que se passava nos já saudosos primeiros anos da década de 60 e fazia um panorama da juventude de uma época pré Beatles, foi um grande sucesso a despeito de seu roteiro um tanto frouxo. A nostalgia de dias melhores, de um passado próspero falou mais alto ao público. No ano seguinte Spielberg levou aos cinemas a trama de um tubarão branco assassino que aterroriza um balneário. Tubarão (Jaws) foi um sucesso estrondoso e inaugurou o chamado cinema de sensações, ou cinema-montanha russa, estilo que fora sedimentado em 1977 quando George Lucas fez cinemas trabalharem 24 horas por dia para suprir a demanda assustadora pelo épico sideral Guerra nas Estrelas (Star Wars), o maior fenômeno da história do cinema até então. Ainda no mesmo ano Spielberg ainda lançaria o excelente Contatos Imediatos de Terceiro Grau.

Em 1979, o inglês Ridley Scott leva o terror para o espaço sideral em Alien O Oitavo Passageiro, renovando o gênero e apresentando uma estética que seria amplamente seguida na década seguinte. Enquanto Scott colhia os louros de sua primeira incursão em Hollywood, Robert Zemeckis debutava na direção de longas apadrinhado por Steven Spielberg em Febre da Juventude (I WAnna Hold Your Hand), comédia sobre jovens fanáticos pelos Beatles que fazem tudo para chegar perto dos ídolos em sua primeira apresentação na TV americana. Mesmo com o nome de Spielberg como produtor executivo, o filme naufragou nas bilheterias, porém, marcou uma geração que o assistiu em reprises nos anos 80 e consolidou a parceria de Zemeckis com Spielberg e o roteirista Bob Galé, parceira essa que renderia os sucessos De Volta Para O Fututro (1985) e Uma Cilada Para Roger Rabbit(1988).

Hoje muito se diz que esses diretores outrora revolucionários se tornaram não apenas parte do establishment, mas O establishment e tudo que vem a reboque, como marketing, merchandising e se tornaram reféns do gigantismo gerado por suas criações. Não há como negar que tal apontamento procede em parte, contudo é inegável a influência positiva dessa geração de cineastas sobre a atual, nem tanto pela estética, mas sobretudo pela atitude e a reverência ao que representa a sétima arte.

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