O que de poesia existe na dureza do dia a dia? O quanto de realidade se recupera nos contos dos sonhadores?

Miguel Gomes é um cineasta / artista cuja inquietude muitas vezes esbarra na busca pelas fronteiras frágeis e quebradiças entre realidade e ficção. Adepto de um cinema que aproveita suas ferramentas criadoras para a invenção de uma fantasia, ao mesmo tempo em que dá abertura para a participação do banal e do cotidiano, sempre criando brechas para o surgimento do acaso, Miguel, mais uma vez, instaura uma visão de mundo que permeia a tragicidade e a comicidade contida nos menores acontecimentos formadores de uma trama maior, compreendida dentro de uma determinada situação sócio histórica.

Indignado com a situação de seu país, Portugal, que, nos últimos anos, em meio à crise econômica, foi refém de atitudes políticas desprovidas de um pensamento social, Miguel Gomes decide se posicionar enquanto comentador histórico e enquanto artista, cujo poder está em mostrar, através de imagens e sons, tessituras escondidas por debaixo das notícias simplificadoras nos canais midiáticos, engolidas durante o jantar ou xingadas em palavras cuspidas no bar da esquina.

Interessado em incluir o real, entendido pela maioria como fatos, Miguel contrata jornalistas para fazerem um pequeno diário semanal das notícias mais estapafúrdias ou mais significativas relacionadas à crise, durante um ano, e ao mesmo tempo, parte com sua equipe em busca de pessoas, personagens, relatos, e clareiras.

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Como linguagem possível para esta compilação de contos, o filme toma a forma narrativa do livro As 1001 noites, se apropriando do papel de xerazade e sua capacidade de multiplicadora de vozes. Atendendo sua vontade de trazer à tona imagens de protestos, de inquietações e de discursos verídicos, o diretor português cria camadas de humor e poesia para enriquecer o duro relato de uma crise que enfraqueceu ou empobreceu milhares de compatriotas.

Seu olhar, atento e sensível, se deslumbrou com pessoas, rostos, atividades, absurdos e encontros, criando uma multiplicidade narrativa que gerou esta trilogia.

Logo no início do primeiro filme, subintitulado como O Inquieto, o diretor expõe as regras do jogo, revelando a si mesmo e a equipe enquanto participantes desolados, que não sabem exatamente como se comportar, e descrevendo sua vontade de narrar belas histórias ao mesmo tempo em que quer dar conta de falar sobre este momento de sofrimento no país. Seu desafio é conseguir fazer ambos, sem trair os interesses de um ou de outro objetivo, sem enfraquecer ou enaltecer qualquer um dos dois.

Os três filmes estabelecem diferentes relações com suas imagens, ainda que mantendo um fio narrativo que os conecta.

É difícil pra mim me destacar da admiração por ele enquanto pessoa e cineasta para poder criar um relato objetivo de seu filme, mas acredito que este afeto, acumulado depois da fruição de seus trabalhos prévios: “aquele meu querido mês de agosto”, de 2008 e “tabu”, de 201???, faz parte do seu mérito enquanto cineasta.

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Seus filmes me fazem pensar no jogo que expõe a linguagem, como em alguns filmes de Win Wenders, assim como uma presença de si enquanto voz off reveladora de reflexões, como em Agnes Varda e Herzog, assim como o humor contido na tristeza, em Nanni Moretti e Fellini, ou um tempo narrativo e uma relação com as mitologias e fantasias que se tornam base de uma realidade histórica, como em Apichatpong e, finalmente, uma liberdade na criação, que não se prende a um roteiro fixo, como em Wong Kar Wai. Muito possivelmente, ele nem gosta de todos estes diretores mencionados, e nem se inspira nos mesmos, mas achei interessante citar possíveis relações, mesmo que apenas para serem criticadas, de forma a enriquecer possíveis debates sobre sua obra.

Um dos pontos que achei mais interessantes de mencionar sobre este novo trabalho foi a trilha sonora, repleta de canções, algumas até brasileiras emblemáticas como de novos baianos, secos e molhados e tim Maia, que, segundo ele, exercem um papel de contraste narrativo, assim como ferramenta de complexificacao dos personagens, dando conta de sugerir determinadas especificidades da construção psicológica dos mesmos e liberando a narrativa e dialogica visual de determinadas explicações.

Além disso, sua maestria em equilibrar comédia e tragédia em meio a um ambiente fantástico permite que os momentos mais sérios sejam carregados de força e não se tornem massantes ou que o filme se torne denúncia cansativa e anestesiante. Desse modo, somos convidados a ouvir e perceber estas pessoas de forma muito mais profunda e livre, nos envolvendo em seus relatos e, quem sabe, nos tornando cúmplices, mais do que testemunhas.

Os 3 filmes estão sempre criando novas camadas de leitura e novas possibilidades de relação entre fatos e fantasias, criando metáforas e loucas comparações, tornando o espectador fundamental em conectar ações, paisagens e ideias.

Sherazade acaba tendo o papel do cineasta, de colecionadora de histórias e narradora, que eternaliza personagens e se cala, para poder escutar, e que nos permite participar destas fabulacoes, magias, prantos e infinitas tristezas ressignificadas por um olhar generoso e desejoso de fissuras poéticas.

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