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Belle, uma animação comovente sobre cicatrizes e identidades

Suzu é uma estudante de ensino médio de 17 anos que mora em uma aldeia rural com o pai. Por anos, ela foi apenas uma sombra de si mesma. Um dia, ela entra em “U”, um mundo virtual de 5 bilhões de membros na internet. Lá, ela não é mais Suzu, mas sim Belle, uma cantora mundialmente famosa. Ela logo se encontra com uma criatura misteriosa. Juntos, eles embarcam em uma jornada de aventuras, desafios e amor, em busca de tornarem-se quem realmente são.

Análise

Belle (Ryû to sobakasu no hime) é uma criação de Mamoru Hosoda que nos traz as experiências de uma adolescente que “brinca” de ser outra menina num espaço virtual, e também uma delicada homenagem a um clássico da Disney. A animação concorre ao Annie Awards em 4 categorias: melhor animação independente, direção, produção e roteiro.

Reunir dois mundos dentro de um único universo, fazer convergir o humano com o inatingível, o conflito que emana do que somos, ou do que fomos, com o que queremos ser, ou gostaríamos de ser, àquele momento específico da vida em que, num piscar de olhos, tudo muda. Hosoda faz isso, em Belle, em um trabalho belíssimo que se dedica, do seu modo, a abordar o conflito de identidade e o desejo de alcançar a melhor versão de si mesmo, e colocá-lo na mesmo plano do que o choque tecnológico tão típico de nossos dias.

O filme conta a vida de uma adolescente, Suzu, que sofreu com a morte da mãe quando pequena. Com tanta dor acumulada, a protagonista se torna uma garota solitária. Quando uma amiga lhe apresenta o Universo “U”: uma plataforma digital onde se cria um personagem baseado na aparência do usuário, tudo muda. E é aí que surge a Belle, que é tudo o que Suzu quer ser: uma garota popular, linda e talentosa.

O longa dirigido pelo japonês Hosoda – de Guerras de Verão (2009) e A Garota que Conquistou o Tempo (2006) – indicado ao Oscar em 2018 por Mirai: My Little Sister (2018). traz essa materialização de um universo paralelo, e consegue nos imergir nesse “mundo virtual” em que seus personagens já estão imersos, com perfis e personagens únicos. Através das cenas dentro de “U”, testemunhamos um cenário virtual muito parecido com as redes sociais com as quais convivemos no dia a dia.

A produção de Belle – do Studio Chizu – desenvolve humor, drama e profundidade em seus diferentes personagens, tanto no mundo real, como na plataforma virtual. Há planos gerais que nos ajudam a sentir parte do ponto de vista da jovem de 17 anos. Essas tomadas, que podem ser vistas na escola e na casa da menina ou em terrenos virtuais, compõem uma “tranquila” composição, mas comprometido com os problemas de cada um dos personagens.

A música pode ser considerada o fio condutor de Belle. A cantora e compositora Kaho Nakamura se encarrega de dar voz a Suzu/Belle, e é graças a ela que podemos acessar o mundo interior da protagonista mesmo através da barreira do idioma.

A cada tema musical tocado, a cada música, Belle cresce – sua animação, lúcida e preciosa, baseia-se no imaginário para criar um mundo alternativo entre cyberpunk e magia, que bebe tanto de Hayao Miyazaki quanto de Katsuhiro Ōtomo— e oferece um vislumbre aos nossos olhos que não se decompõe em nenhum momento de sua duração.

Como dissemos, o conflito de identidade é explorado em detalhe, e através de vários arcos narrativos se complementam por amor, amizade ou camaradagem. O conflito identidário percorre sua estrutura desde as entranhas: das complexidades tão típicas do nosso zeitgeist, como a divisão do indivíduo em rede, os múltiplos “eus” que coexistem escondidos entre si, a distância interpessoal, a dificuldade ou incapacidade para expressar emoções típica de toda uma época; e assim torna-se sua arma mais elaborada.

Por outro lado, o choque que nasce do evento traumático —a morte da mãe— encontra um catalisador de responsabilidades, que explora as infinitas variações dos eventos surreais através de uma sensibilidade maravilhosa e delicada. Nesse ponto, entendemos a homenagem a um dos clássicos do mundo Disney, no caso A Bela e a Fera (1991). O diretor reconstrói em U partes da versão Disney: a presença de uma fera, uma dança romântica e um castelo escondido no escuro.

Belle é um filme de tal beleza e honestidade que vai muito além da animação sugestiva e da música intensa: toca as cicatrizes do passado e as transforma, quase sem que percebamos, em infinitos raios de luz.

Nota: Ótimo – 3.5 de 5 estrelas

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