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“Benzinho” conquista com história tocante e elenco sensacional

O ano de 2018 está muito bom para o cinema brasileiro. As produções recentes como “As Boas Maneiras”, “Canastra Suja”, “O Animal Cordial” e “Aos Teus Olhos” mostram que o nível dos filmes nacionais cresceu bastante nos últimos anos, o que faz com que olhemos com esperança para que, no futuro, o país se torne uma referência cinematográfica ainda mais relevante para o mundo. E esta perspectiva otimista fica ainda mais forte com a chegada de “Benzinho” (idem, 2018), uma obra tratada com muito cuidado para emocionar na dose certa, graças a uma história que causa uma identificação automática em quem a assiste e é defendida por um elenco muito bem escolhido e conduzida de maneira exemplar.

A trama é centrada em Irene (Karine Teles), uma mulher casada com Klaus (Otávio Müller) e mãe de quatro filhos: Fernando (Konstantinos Sarris), Rodrigo (Luan Teles) e os gêmeos Fabiano (Arthur Teles Pizzi) e Matheus (Francisco Teles Pizzi). Morando em Araruama, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, ela faz o possível para cuidar dos filhos, da casa que tem vários problemas, do marido dono de uma livraria e papelaria que tem sonhos de ser um grande empreendedor, além de querer terminar os estudos e ajudar a irmã, Sônia (Adriana Esteves), que tem um casamento problemático com Alan (César Troncoso). O que Irene não contava é que Fernando é chamado para jogar handebol na Alemanha e descobre que terá pouco tempo para se despedir do filho. Esse acontecimento mexe com sua cabeça, já que ela precisa encontrar forças para lidar com essa nova realidade.

O que cativa de imediato em “Benzinho” é que, a partir de uma história bastante comum e que pode até incomodar um espectador mais exigente por tramas que precisam de reviravoltas até quando não são necessárias, o filme trata as questões dos personagens de uma forma delicada e humana, o que gera uma identidade imediata para o público, já que as situações que ocorrem não diferem muito das que acontecem no nosso dia a dia. Um dos méritos disso vem da direção segura de Gustavo Pizzi, que se tornou conhecido entre os cinéfilos já em seu primeiro trabalho no cinema, “Riscado”, em 2010. O diretor conduz a história, cujo roteiro também foi escrito por ele e sua protagonista, Karine Teles, com bastante propriedade e ajuda a tornar o público verdadeiro cúmplice do que está acontecendo na telona.

O texto, já citado no parágrafo anterior, é bastante feliz ao criar personagens cativantes por, simplesmente, serem “gente como a gente”, especialmente a principal deles, Irene. Seus dilemas, suas questões para conseguir equilibrar sua vida, com suas alegrias e frustrações diárias como mulher e mãe são bastante verossímeis. Certamente, quem é, foi ou está para ser mãe vai compartilhar os sentimentos conflituosos dela, por não saber como lidar com a repentina partida do filho para um outro mundo, ainda bastante jovem.

Isso fica bem claro numa cena em que ela insiste em manter um quarto para Fernando numa nova casa para a família, mesmo à revelia do rapaz. Sua justificativa que contrasta com a vontade do garoto em não manter seu “laço familiar” revela o que muitas mães sentem quando estão prestes a uma separação que elas sabiam que poderia acontecer, mas que achavam que isso nunca seria possível. Felizmente, o roteiro também tem o cuidado de mostrar que Fernando, mesmo impulsivo e capaz de dizer coisas cruéis aos que o cercam, como a maioria dos adolescentes faz, também sente um certo temor e tristeza ao perceber que sua saída do Brasil o deixará diante de um cenário que jamais imaginou e que, talvez, não saiba como se sairá com ele, já que não poderá contar com a família por perto.

É claro que, mesmo com tantas qualidades, o roteiro peca em alguns pequenos detalhes como o personagem Paçoca, treinador do time de Fernando, vivido por Mateus Solano, que é mal resolvido e não tem um bom desenvolvimento, sendo descartado da trama sem uma resolução convincente. O ator também não colabora e, nas poucas cenas que aparece, dá uma má impressão por causa de sua performance vários tons acima do necessário. a questão de Irene em relação ao seus antigos patrões também soa meio deslocada e poderia ter sido melhor desenvolvida. Mas isso não prejudica em nenhum momento o resultado final.

O filme também se beneficia das ótimas atuações de seu elenco principal. Otávio Müller torna críveis os sonhos de grandeza de Klaus, mesmo diante de todas as adversidades, além de ser um pai presente e carinhoso com os filhos e com a esposa, tornando-o bastante simpático ao público. Adriana Esteves, aqui num papel coadjuvante, mas não menos importante, esbanja talento e carisma como a sofrida e sensível Sônia, mostrando total interação com seus colegas de cena, além de ser responsável por alguns dos momentos mais emotivos da história, em especial o que acontece numa comemoração e nas sequências que divide com César Trancoso, muito bem como o instável Alan.

Os jovens Konstantinos Sarris e Luan Teles (sobrinho de Karine) transmitem bem os dilemas de Fernando e Rodrigo, já que, enquanto o primeiro demonstra ansiedade pelo que o futuro lhe reserva, o outro faz o possível para estar à altura do irmão e se frustra por nem sempre conseguir e descontar isso na comida. Os gêmeos Arthur e Francisco Teles Pizzi (filhos do diretor e de Karine Teles na vida real) demonstram naturalidade e podem até fazer uma boa carreira de atores se quiserem continuar atuando.

Mas o que brilha como nunca em “Benzinho” é mesmo Karine Teles. A atriz, que ficou conhecida do grande público graças a seu papel como a patroa arrogante de Regina Casé em “Que Horas Ela Volta?”, tem aqui seu melhor momento no cinema como a mãe que luta para manter a família unida, mas que ainda assim nem sempre consegue encontrar forças para isso. É impressionante como ela consegue interiorizar a dor da personagem, mas transmite muito bem o que Irene está sentindo, com suas expressões faciais contidas para não deixar claro de que, se pudesse, faria com que as coisas fossem feitas de um modo diferente do que acontecem.

Há várias cenas memoráveis que mostram o talento da atriz, como quando, em raro momento de extravasar, ela ouve uma música bem agitada e passa a agir como se estivesse numa festa. Ou uma outra em que esboça um leve sorriso ao perceber que há uma remota chance do filho ficar mais tempo no Brasil. Além disso, é impressionante a dedicação dela a esse projeto, já que, além de atuar, ela coescreve o roteiro, fez a produção de elenco, além de ser uma das compositoras da música que fecha o filme. Provavelmente, ela tem uma das mais tocantes atuações do ano e merece receber todos os prêmios que puder em 2018 e 2019.

Participante da competição do Festival de Sundance e da Mostra Voices no Festival de Roterdã, além de vencer o prêmio de melhor filme pelo júri e pela crítica do Festival de Málaga e pelo júri do Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, entre outras mostras, “Benzinho” é uma obra de dar muito orgulho ao cinema brasileiro e que merece muito ser o escolhido para representar o país na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma produção que merece ser descoberta pelo grande público, que certamente vai se encantar com essa singela e sensível história sobre mães e filhos, que certamente existe em todas as partes do nosso Brasil.

Filme: “Benzinho”
Direção: Gustavo Pizzi
Elenco: Karine Teles, Otávio Müller, Adriana Esteves, Konstantinos Sarris, César Troncoso
Gênero: Drama
País: Brasil/Uruguai
Ano de produção: 2018
Distribuidora: Vitrine Filmes
Duração: 1h 35min
Classificação: 12 anos

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Publicado por Célio Silva

Sou um cara que, desde que viu Flash Gordon na telona, com 7 anos de idade, sempre foi apaixonado por cinema. Também curto muito TV, música e livros. Mas é na sétima arte que sinto o maior prazer.