Dirigida por James Watkins, nova aposta do DCU traz Tom Rhys Harries no papel de um astro de Gotham transformado em monstro por vingança
O Cara-de-Barro não se inclui entre os mais conhecidos integrantes da galeria de vilões do Batman. Justamente por isso, causou tanta espécie o anúncio feito por James Gunn de que o personagem ganharia um filme solo antes do próprio Homem-Morcego e da Mulher-Maravilha. Gunn sempre teve predileção pelos “excluídos”, por assim dizer, presenteando a Marvel com a trilogia dos Guardiões da Galáxia – uma equipe do terceiro escalão da editora que hoje goza de uma popularidade incontestável graças à sua versão cinematográfica. Ao assinar com a DC, colocou como cláusula primária que sua visão para o universo compartilhado teria plena liberdade. Assim, se ele decidiu que um vilão da segunda prateleira merecia ganhar as telas antes de heróis bem mais famosos, o estúdio confiou.
Nascido nas ruas de Gotham City, Matt Hagen (Tom Rhys Harries) construiu uma trajetória meteórica como ator em ascensão e grande galã. No entanto, sua promissora carreira e sua vida são brutalmente estilhaçadas após uma desavença com um poderoso chefe do crime local, que resulta em um ataque violento deixando seu rosto completamente irreconhecível. Rejeitado e abandonado por seus empresários, sem perspectivas para o futuro, Hagen decide arriscar tudo ao recorrer a um tratamento estético radical e clandestino que promete milagres. Embora a substância misteriosa consiga restaurar sua antiga aparência física, a intervenção médica oculta traz efeitos colaterais devastadores, alterando sua estrutura celular e comprometendo severamente sua sanidade mental.

A transformação biológica culmina em seu renascimento como uma aberração mutante feita de argila viva, capaz de moldar o próprio corpo. Agora atendendo pelo nome de Cara-de-Barro, o ex-astro de cinema abandona os holofotes e retorna às sombras de Gotham movido por uma incontrolável sede de vingança. Utilizando suas novas e aterrorizantes habilidades para caçar um a um todos os responsáveis pela destruição de sua vida e de sua carreira, ele se estabelece como uma das ameaças mais trágicas, imprevisíveis e letais do universo da cidade.
Não se trata apenas de um body horror, como muitos estão definindo a produção dirigida por James Watkins (Não Fale o Mal). Poderíamos classificar Cara-de-Barro como uma mistura muito bem dosada de A Mosca, Coringa (da própria DC) e até o musical O Fantasma da Ópera. A associação imediata ao gênero que voltou a ganhar atenção após A Substância se dá pela forma como o cineasta trata o avanço da deformidade e seu impacto progressivo na vida de Matt.
As últimas experiências com filmes focados em vilões foram decepcionantes, para dizer o mínimo, tendo como exemplos mais imediatos Morbius e Kraven: O Caçador, ambos do universo do Homem-Aranha produzido pela Sony. Daí, o medo de que algo semelhante fosse feito na DC não era infundado. Contudo, o estúdio conseguiu mostrar que trabalhar vilões sem o suporte do herói a que estão vinculados é um trunfo em sua manga. A base do roteiro vem da Era de Prata (1961), com a segunda encarnação do personagem, Matt Hagen, e o conceito do vilão com corpo maleável como o Monstro de Argila. Há também uma certa inspiração na série de quadrinhos Um Dia Ruim, em que cada edição foca em antagonistas do Homem-Morcego, incluindo o Cara-de-Barro.

Mike Flanagan (Missa da Meia-Noite, A Vida de Chuck e a série Carrie: A Estranha) e Hossein Amini (Branca de Neve e o Caçador, Obi-Wan Kenobi) assinam o script obedecendo à intertextualidade com O Fantasma da Ópera, narrando a saga do artista acometido por uma deformidade em busca de vingança. Roteiristas e diretor se alinharam em uma estrutura clássica de conto de terror com desenvolvimento envolvente, e mesmo alguns deslizes na construção e decisões fora do tom (às vezes o humor irrompe no momento errado) não abalam o todo.

Tom Rhys Harries desempenha satisfatoriamente o papel, fazendo de maneira adequada a transição de um sujeito fútil e narcisista para o monstro sedento de vingança que vai aos poucos se tornando. E essa mudança gradual no psicológico, acompanhando a mutação física, é desenvolvida acertadamente pelo roteiro e devidamente compreendida pelo ator. Ele também se beneficia da boa parceria com Naomi Ackie, no papel da biomédica Caitlyn Corr, que é primordial para o bom funcionamento da trama. O vilão principal, por sua vez, é fraco. Ainda que o foco seja o drama da metamorfose do protagonista, a história merecia um opositor com maior peso do que o mafioso Markos Szabo (David Dencik).
O mérito de Cara-de-Barro é justamente oferecer algo que sai do lugar-comum das adaptações de quadrinhos, sem reinventar a roda. Não é revolucionário como o primeiro Coringa, mas evidencia que este caminho alternativo pode ser um diferencial benéfico na pavimentação do novo DCU.




















